A longa carreira militar do novo comandante das Forças Armadas da Ucrânia ficou marcada por um episódio em Mariupol, em 2014. Um grupo de polícias e outros oficiais estava cercado na cidade sitiada pelos separatistas pró-russos e foi enviada uma coluna blindada para os resgatar.No caminho estava uma barricada de mais de um metro de altura. Mykhailo Drapatyi, oficial da 72.º Brigada Mecanizada que seguia no primeiro tanque, deu ordens para avançar e o vídeo do momento em que o veículo salta o obstáculo tornou-se viral e símbolo da resistência. .Mais de dez anos depois, Drapatyi está agora no centro da remodelação militar empreendida pelo presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, depois de a demissão do ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, ter desencadeado protestos inéditos em tempos de guerra. O novo comandante das Forças Armadas, de 43 anos, representa a nova geração de líderes militares, substituindo Oleksandr Syrskyi, de 60 anos, que era visto como um símbolo do antigo estilo de comando soviético. .Zelensky cedeu a uma das exigências dos manifestantes, que se congratularam com a nomeação de Drapatyi (era, até agora, o comandante das forças conjuntas responsáveis pela defesa na direção nordeste e o seu nome chegou a ser entoado durante os protestos). Mas o presidente não calou os protestos, com os organizadores a convocarem novas manifestações para esta sexta-feira (24 de julho), prometendo não desistir enquanto Fedorov não voltar a ser ministro da Defesa. “O Ministério precisa de reformas e, com a demissão de Syrskyi, o conflito entre o Ministério da Defesa e o Estado-Maior também desapareceu, pelo que não vejo razões para não reintegrar Fedorov no seu cargo”, escreveu o veterano Dmytro Koziatynskyi, um dos organizadores, no X. Fedorov, de 35 anos, tinha assumido o cargo há apenas seis meses, tendo sido responsável pelos esforços de modernização das Forças Armadas em plena guerra com a Rússia. No meio dos protestos, a confiança dos ucranianos em Fedorov subiu 30 pontos, dos 35% para os 65%, ultrapassando a do próprio Zelensky, que é de 59%. Os dados são de uma sondagem do Rating Group, feita entre 20 e 21 de julho, e divulgada ontem pelo site de notícias ucraniano Kyiv Independent. 72% dos inquiridos mostraram-se contra a demissão de Fedorov, a 16 de julho, no meio de tensões entre o ministro e Syrskyi e o chefe do Estado-maior das Forças Armadas, Andrii Hnatov, que também foi afastado esta quarta-feira (22 de julho) do cargo e substituído por Ihor Skybiuk. O Ministério da Defesa é liderado, de forma interina, por Yevhenii Khmara, com Fedorov a ser convidado para ocupar outro “cargo de destaque no governo”, focado no fortalecimento do setor tecnológico. Mas terá recusado, com o Kyiv Independent a dizer que só aceita voltar para o ministério. Fedorov reagiu no X à nomeação de Drapatyi, falando numa “lufada de ar fresco e uma nova fonte de esperança”, considerando que “é a voz da mudança que não podia ser mais ignorada”. E concluiu: “Mas agora precisamos de avançar ainda mais depressa, escrever os próximos capítulos desta história e corrigir os erros do passado”..O novo comandante das Forças Armadas ucranianas disse, entretanto ,que recebeu de Zelensky a missão de intensificar as ações ofensivas e lançar novas operações dentro da Rússia. “O presidente da Ucrânia estabeleceu objetivos claros para nós: continuar e intensificar as operações ofensivas em todos os domínios, planear novas operações atrás das linhas inimigas, desenvolver as nossas forças armadas e as suas tecnologias, e reforçar as capacidades das Forças Armadas da Ucrânia”, escreveu Drapatyi no Facebook.Os ucranianos voltaram entretanto a atacar dentro da Rússia, com Zelensky a dizer nas redes sociais que os ataques atingiram alvos militares importantes, incluindo centros logísticos de Krasnodar e Stavropol, que alegadamente forneciam ao exército russo componentes de drones, sistemas de navegação e outros equipamentos. “Nas águas do Mar Negro e do Mar de Azov, um petroleiro e quatro navios de carga da frota fantasma da Rússia também foram atingidos”, acrescentou, reiterando que a Ucrânia continua a levar a guerra “a casa”, isto é, à Rússia. .Zelensky demite comandante das Forças Armadas após protestos nas ruas.Syrskyi nega divergências com o ex-ministro da Defesa ucraniano