O novo partido de esquerda do Reino Unido, lançado pelo ex-líder trabalhista Jeremy Corbyn e pela deputada Zarah Sultana (também ex-Labour), realiza este fim de semana (29 e 30 de novembro) o seu congresso inaugural, em Liverpool. Mas o arranque atribulado da formação política, no meio de lutas internas entre os dirigentes e a sangria de deputados ainda antes de ser oficial, combinado com as baixas sondagens, não são uma boa notícia para o Your Party (o teu partido).A confusão começou logo a 3 de julho, que segundo o jornal The Guardian ficou conhecido como "terrible Thursday" (quinta-feira terrível). Sultana, deputada de 32 anos eleita por Coventry South, anunciou então que ia deixar o Partido Trabalhista – que a tinha suspenso por apoiar uma política que, curiosamente, foi anunciada esta semana no novo orçamento do Governo. A muçulmana de origem paquistanesa, que pertencia ao grupo socialista do Labour, disse ainda que iria coliderar um novo partido com Corbyn, de 76 anos. O problema é que o antigo líder do Labour, que já concorreu como independente nas eleições de 2024 e depois formou a Aliança Independente na Câmara dos Representantes, não se comprometeu com isso, dizendo apenas que estava a ser pensado um novo partido, mas que o calendário para o seu lançamento ou a sua liderança ainda não tinham sido decididos.No centro da luta interna no Your Party está um pouco a personalidade de ambos, sendo Sultana impulsiva e combativa, e Corbyn mais demorado a tomar uma decisão após quatro décadas de experiência como deputado por Islington North.Os problemas continuaram na hora de começarem a angariar membros. Sultana queixou-se de "sexismo", depois de ter enviado um email a convidar os apoiantes do partido a aderir e a dar o seu apoio financeiro ao projeto. Corbyn disse depois que o email não tinha sido autorizado, pedindo para as pessoas não seguirem o link. Entretanto já tinham sido angariadas 800 mil libras, sendo a discussão mais recente como passar esse dinheiro, que está numa empresa, para o partido que terá 50 mil membros.No meio de todo o caos, dois dos seis deputados que estavam a ajudar a lançar o projeto já se afastaram. Adnan Hussain saiu há cerca de 15 dias, alegando preocupações com "as disputas internas persistentes" e a "luta pelo poder", além do "preconceito velado" contra os muçulmanos dentro do partido. Já Iqbal Mohamed lamentou as falsas acusações de que foi alvo ao longo do processo, dizendo que continuará como deputado independente, mas desejando todo o sucesso ao Your Party.Quando o novo partido foi anunciado, em julho, 18% dos eleitores ouvidos na sondagem YouGov admitiam votar nele. Agora, e depois de toda a confusão, só 12% considerariam fazê-lo – e destes 85% considerariam também votar nos Verdes. O sucesso do novo líder deste partido, Zack Polanski, que tem uma agenda populista de esquerda que muitos acreditam ser semelhante à de Corbyn, contribuiu para a queda do Your Party.Congresso"Nos últimos três meses, fizemos algo grandioso, ousado e inovador: construímos um partido genuinamente democrático a partir do zero", disse o partido, no site oficial, sobre a conferência. "Realizámos assembleias e comícios em todas as regiões" e "nessas reuniões o Your Party ganhou vida", referiram, com a construção dos estatutos, da estrutura e do programa do partido – uma das decisões, por exemplo, é se vai identificar-se como socialista ou não."O Congresso fundador será o ponto culminante deste projeto comum, o momento em que os membros debaterão e concordarão com as nossas estruturas e programa, e o partido nascerá oficialmente", indicaram, lembrando que os participantes foram escolhidos numa lotaria (haverá espaço para três mil) e que todos os membros podem votar online, estando ou não em Liverpool.Mas nem tudo é festa. A segurança foi reforçada no local do evento, com suspeitas de que pode haver distúrbios, incluindo invasão do palco por membros descontentes que representam fações específicas do partido – onde há o risco constante de divisão.Uma das primeiras decisões que foi tomada é que não haverá uma coliderança, como estava inicialmente previsto, estando em cima da mesa a hipótese de um único líder (eventualmente, no futuro, pode haver número dois) ou um modelo de liderança coletiva. Na origem da decisão os choques constantes entre Corbyn e Sultana, que aparentemente não se falam desde o verão, com o diálogo a realizar-se apenas através de aliados ou advogados.Caso haja só um líder, este será eleito no final de fevereiro de 2026 e terá um mandato que dura, no máximo, 21 meses, enquanto o partido decide sobre a estrutura final. No modelo de liderança coletiva, o presidente e o vice-presidente do comité executivo central, que devem ser membros comuns, exercerão a liderança do partido durante o mesmo período. .Governo de Starmer volta a subir impostos e fica debaixo de fogo.Impopular Keir Starmer tenta calar rumores de revolta interna