Um Donald Trump que não se desviou do guião foi recebido no primeiro dos dois dias de reuniões por um Xi Jinping que começou por advertir o homólogo de que a China está disposta a abrir sua economia aos EUA, envolta numa “nova relação construtiva de estabilidade estratégica”. Mas os norte-americanos terão de tratar “corretamente” a questão de Taiwan. Um tema sobre o qual a delegação convidada deu sinais de não querer atribuir importância, tal como a questão do Irão.Ao dar as boas-vindas junto do Grande Salão do Povo, Xi presidiu uma cerimónia à qual não faltou a pompa com uma salva de 21 tiros e a passagem em revista da guarda de honra. A visita de Estado prosseguiu depois de uma reunião de duas horas com uma visita ao Templo do Céu e culminou com um banquete, durante o qual a banda militar tocou Y.M.C.A, o hino gay que passou há muito a fazer parte dos comícios de Trump. Uma receção análoga à visita anterior, em 2017, mas que não evitou a guerra comercial desencadeada pelo norte-americano. .Muito mudou desde então, mas da parte dos EUA as questões comerciais e de investimento económico continuam a ser as mais importantes a tratar, como se viu pela lista de empresários que acompanharam o presidente. “Eu não queria o segundo nem o terceiro da empresa. Eu queria apenas o topo, e eles estão aqui hoje para lhe prestar homenagem a si e à China”, disse Trump a Xi. “Todos respeitam e valorizam a China. Encorajo-os fortemente a expandir a cooperação com a China”, prosseguiu. Do lado do líder chinês, ficou uma garantia: “A China só vai abrir mais a sua porta. As empresas americanas estão profundamente envolvidas na reforma e abertura da China, e o lado dos EUA é bem-vindo a reforçar a cooperação mutuamente benéfica com a China.” .Pequim não sentiu o choque do regresso de Trump à Casa Branca - pelo contrário, bateu em 2025 todos os recordes de superávite comercial -, ainda que ambos os países tenham mantido um perigoso jogo de imposição e retaliação a taxas aduaneiras, apenas interrompido quando a China impediu a exportação de minerais críticos. Sem necessidade premente do lado norte-americano, à exceção dos semicondutores avançados, o regime comunista quis estabelecer um novo equilíbrio entre as relações bilaterais, num ano em que se esperam mais três encontros entre os dois líderes. No discurso de boas-vindas, Xi disse que os dois lados concordaram em construir uma relação China-EUA “construtiva de estabilidade estratégica” para promover o desenvolvimento estável, saudável e sustentável das relações bilaterais, e com isso trazer mais paz, prosperidade e progresso para o mundo. “Devemos fazer com que [a relação] funcione e nunca estragá-la”, disse Xi, tendo acrescentado que ambos os países têm a ganhar com a cooperação e a perder com o confronto. “Os nossos dois países devem ser parceiros e não rivais.” Invocou, a esse propósito, a armadilha de Tucídides, nome de uma teoria cunhada pelo politólogo norte-americano Graham Allison, segundo a qual uma potência em ascensão e uma potência hegemónica estão destinadas à guerra, como Atenas e Esparta. “A China e os Estados Unidos podem superar a armadilha de Tucídides e criar um novo modelo de relações entre grandes países?”, perguntou Xi. .Para Xi, Taiwan está no centro das discussões na cimeira com Trump.Para isso, contudo, há que saber gerir “o tema mais importante das relações sino-americanas”, Taiwan. Pequim tem como objetivo a unificação com a ilha, uma democracia que rejeita o regime comunista, contando desde 1979 com o apoio militar dos EUA em resultado de uma lei aprovada no Congresso norte-americano nesse sentido. “A independência de Taiwan e a paz no estreito da Formosa são tão inconciliáveis quanto o fogo e a água”, advertiu Xi. Trump, que recebeu indicações dos seus próximos para não cometer qualquer lapso num tema em que uma palavra pode ter consequências graves, não se pronunciou sobre o tema, e recusou até confirmar que foi assunto de discussão. Já o chefe da diplomacia dos EUA disse à NBC que, para Pequim, o desfecho ideal seria que Taipé se juntasse “por vontade própria, voluntariamente” e que, “num mundo ideal, o que eles desejariam seria uma votação ou um referendo em Taiwan que resultasse na sua anexação”. Marco Rubio, que pôde entrar na China apesar de estar sob sanções devido a um expediente de Pequim (alterou a transliteração do seu apelido), criticou eventuais planos de invasão: “Achamos que seria um erro terrível impor isso pela força ou por qualquer outro meio dessa natureza.”Em Taipé, a posição dos EUA foi motivo de agradecimento. “O governo vê com bons olhos todas as ações que contribuem para a estabilidade regional e para a gestão de riscos potenciais decorrentes da expansão autoritária, e continua a trabalhar com os EUA em vários aspetos da nossa relação”, disse o porta-voz do primeiro-ministro de Taiwan.Mas se de Trump não saiu uma palavra sobre o assunto mais sensível, este falou sobre outro mais premente, o Irão. Segundo disse à Fox News, o líder chinês ofereceu-se para mediar o conflito e salientou que o seu país gostaria de ajudar no fim da guerra e na reabertura do estreito de Ormuz. Afirmou ainda que Xi garantiu não fornecer armas ao Irão, embora nada tenha dito sobre se Pequim continua a partilhar informações e a vender componentes eletrónicos. Também não revelou o que respondeu ao homólogo. Antes de partir para a capital chinesa, Trump disse que os EUA não precisavam de ajuda chinesa para pôr fim ao conflito.