Na madrugada de 18 de julho, drones ucranianos atingiram, quase em simultâneo, o centro de logística Elektrostal, na região de Moscovo, e o Kotovsk, na de Tambov, causando grandes incêndios e oito mortos. Foi o início confirmado da campanha contra a Wildberries, a maior plataforma de comércio eletrónico da Rússia, frequentemente descrita como a “Amazon russa”. Kiev já não visa apenas alvos militares tradicionais, mas também infraestruturas consideradas importantes no esforço de guerra e leva, como prometido, o conflito que dura há mais de quatro anos a casa dos russos. A partir daí, e quase diariamente, outros armazéns da empresa russa estão na mira dos militares ucranianos, estimando-se que pelo menos 20 tenham sido atingidos em menos de um mês - e 13 pessoas tenham sido mortas. Uma análise de imagens de satélite citada pela Reuters concluiu que mais de 1,18 milhões de metros quadrados de armazenamento, equivalente a mais de um quinto da capacidade logística da empresa, tinham sido destruídos ou danificados.Mas afinal o que é a Wildberries (em inglês significa “frutos silvestres”) e por que é que se tornou num alvo para os ucranianos? A empresa nasceu em 2004, fundada por Tatiana Kim (Bakalchuk antes do divórcio), uma antiga professora de inglês que começou a vender roupa através da Internet a partir de casa quando estava em licença de maternidade. Kim é atualmente considerada a mulher mais rica da Rússia, com uma fortuna estimada pela Forbes de 8,1 mil milhões de dólares (sete mil milhões de euros). Em duas décadas, a Wildberries transformou-se no maior grupo de comércio eletrónico russo, tendo crescido ainda mais depois da saída de muitas empresas ocidentais, na sequência da invasão da Ucrânia a 24 de fevereiro de 2022. Apesar de ser conhecida como a “Amazon russa”, tem uma quota de mercado na Rússia de quase 50%, dez pontos percentuais superior à que a empresa de Jeff Bezos tem nos EUA. Com mais de um milhão de vendedores e milhões de encomendas diárias, a Wildberries tornou-se um dos pilares do consumo no país, essencial para pequenas e médias empresas. A disrupção da sua rede logística provocou atrasos nas entregas, destruição de mercadorias e perdas para dezenas de milhares de comerciantes que dependem da plataforma. Os mais vulneráveis estão a receber apoio da empresa, que entretanto criou um seguro para os clientes subscreverem.Após os primeiros ataques, o Kremlin admitiu que a situação era “difícil” para a empresa e os comerciantes. Mas é também uma dor de cabeça para o presidente Vladimir Putin, já que põe em causa um dos argumentos da estratégia de guerra, segundo o qual este conflito não iria afetar o dia-a-dia dos russos - tal como os ataques às refinarias, que fazem subir os custos dos combustíveis.A Ucrânia alega que, além de plataforma comercial, a Wildberries é também uma infraestrutura que apoia o esforço de guerra russo - logo um alvo legítimo. As autoridades ucranianas recordam que há anos que a Rússia ataca armazéns, centros logísticos, instalações energéticas e terminais da operadora postal Nova Poshta, alegando que servem fins militares e ajudam no esforço de guerra de Kiev. Segundo o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, alguns dos armazéns atingidos funcionavam como “centros logísticos utilizados para fornecer componentes para drones, equipamento de navegação e outros materiais” destinados ao exército russo, além de serem usados para a comercialização de bens de dupla utilização (civil e militar).Kim, tal como o Kremlin, rejeitam essas acusações. A empresária afirma que a Wildberries vende produtos semelhantes aos disponíveis em plataformas como a Amazon ou a Alibaba e acusa a Ucrânia de atacar infraestruturas civis. “Quando nos atacam, os terroristas escondem os seus verdadeiros motivos e acusam-nos de alegadamente vender produtos militares”, disse, comparando os ataques a “ações terroristas” que visam os trabalhadores. A empresa já veio entretanto negar que esteja a planear relocalizar as suas principais instalações logísticas para fora da Rússia, alegando que as aberturas de novos centros na Bielorrússia e no Cazaquistão já estavam planeadas e fazem parte da estratégia de expansão.A empresa não se limita a ser uma plataforma de comércio, tendo também um banco: o WB Bank, que tem ligações ao setor financeiro controlado pelo Estado (nomeadamente uma parceria com o VTB Bank). O WB Bank foi incluído pela União Europeia no 21.º pacote de sanções à Rússia, aprovado no final de julho..Ucrânia: Ataque ucraniano à Rússia com número recorde de drones .UE transfere mais 1,4 mil milhões de euros de lucros de ativos russos congelados para apoiar a Ucrânia