Nem de propósito, a chamada telefónica encontra Victor Pereira no Arquivo da Guerra Civil de Espanha, em Salamanca. O investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa estava de regresso àquele edifício para tentar encontrar mais algum dado sobre a vida de Alberto Oliveira Martins. Foi um portuense que combateu na Coluna Durruti, e cujas memórias foram mostradas pelo filho a Victor Pereira. Este partiu então para os arquivos em Portugal, Espanha e França para confirmar os escritos. O resultado da edição foi publicado em francês com o título Les Carnets d’Alberto. De Porto à la Guerre d’Espagne (ed. Chandeigne & Lima). Como é que esta guerra se tornou numa inevitabilidade? A ditadura de Primo de Rivera e a república que se seguiu rasgaram a coesão social?Bom, muitos historiadores espanhóis, desde há anos, dizem que a guerra não era uma inevitabilidade, tentam desmontar essa narrativa. Havia essa ideia de que a guerra era inevitável, do povo espanhol apaixonado e antagónico. À ditadura de Primo de Rivera, segue-se a implantação da República em 1931, há fortes movimentos sociais nos campos, na Extremadura, na Andaluzia, há uma movimentação social muito forte na Catalunha, há também as reivindicações nacionais na Catalunha e no País Basco. Mas quem iniciou a guerra foi um conjunto de oficiais, muitos deles tendo passado por Marrocos desde o início do século e, muitos, descontentes com a reforma da carreira dos oficiais feita pelo [presidente de Espanha] Manuel Azaña, começaram a conspirar. Muitos historiadores, nomeadamente o Paul Preston, demonstram que há alguns militares oficiais à volta de Emílio Mola, de José Sanjurjo, que estava em Portugal, do próprio Francisco Franco, que veem a situação em Espanha como uma tentativa de complô judeu-maçónico e soviético. Há uma ideia vincada de que a República Espanhola é um trampolim para o caos, uma perda de soberania espanhola e a chegada de comunistas ao poder. Não confiam na República, não são democráticos e tentam organizar um golpe de Estado em 1932. O golpe de Estado de julho de 1936 é, em parte, um falhanço, porque não conseguem controlar todo o território, mas é, em parte, uma vitória, porque conseguem dominar vários territórios e, a partir daí, começa uma guerra civil que vai durar quase mil dias.Como caracteriza a guerra?Foi uma guerra civil entre oficiais que organizaram uma insurreição contra as instituições legais depois das eleições de fevereiro. Conseguiram dominar várias cidades, em Marrocos e, sobretudo, nas zonas mais rurais, mais conservadoras, na Galiza, em Salamanca, em Burgos, que se torna a primeira capital dos insurretos, mas também é muito rapidamente uma guerra internacional. Isto é, Franco muito rapidamente consegue ter apoio da Alemanha nazi, da Itália fascista e também de Portugal salazarista. Um dos grandes problemas é que muitas das tropas estão em Marrocos e é preciso atravessar o Mediterrâneo. Isso faz-se graças a uma ponte aérea com aviões da Alemanha nazi, cuja legião Condor, mais tarde, vai bombardear Guernica. E há a participação de 70 mil soldados italianos. Para Franco é uma guerra de extermínio — mais uma vez, uma expressão de Paul Preston. Franco queria, na ótica dele, limpar Espanha e acabar com a anti-Espanha. Quando entravam em aldeias, em cidades, iam buscar os que eram tidos como da Frente Popular, e houve matanças, e milhares de espanhóis que estiveram em campos de internamento. A guerra foi lenta porque o próprio Franco dizia que era preciso limpar Espanha.Não foi só do lado franquista que houve matanças e crimes de guerra. É justo equiparar um lado ao outro em termos do horror?Isso também é um ponto importante. Fez parte da propaganda durante a guerra. A guerra de Espanha teve muita atenção mundial, com a ida de jornalistas, de brigadistas internacionais, de intelectuais. E obviamente o lado franquista usou a propaganda e realçou os massacres, os ataques contra a Igreja, contra proprietários, contra industriais. E, de facto, houve, sobretudo na Catalunha, onde houve uma tentativa de tomada de poder pelos militares insurretos que não funcionou, porque uma parte das autoridades ficaram fiéis à República e porque muitas pessoas, nomeadamente os anarquistas em Barcelona, prepararam-se e conseguiram impedir a tomada de poder pelos insurretos. Durante alguns dias houve uma ausência da capacidade do Estado em controlar as ruas, em controlar os movimentos e houve, de facto, ataques à propriedade e ataques às pessoas. E isso foi obviamente muito posto em relevo pela propaganda franquista, também por vários diplomatas que estavam em Barcelona ou em Madrid e ficaram apavorados com a violência no que foi chamado Terror Vermelho. Só que a grande diferença é que esses ataques vinham da muito forte conflitualidade social que existiu em Barcelona desde o início do século, entre um patronato que usava pistoleiros, isto é, milícias privadas contra os sindicatos. De facto, alguns anarquistas, nesse momento de ausência do Estado, fizeram vinganças. Mas, depois, o Estado republicano e os próprios anarquistas tentaram impedir e punir esse terror, o que não aconteceu do lado franquista. Do lado franquista, esse terror, essas estruturas foram continuando até 1939 e mesmo depois da guerra, porque a repressão continuou até 1975, até à morte do Francisco Franco.. De que forma foi instrumental o facto de o lado republicano não ter tido acesso a armas?Foi um fator muito importante. Franco, que em pouco tempo se torna o líder dos insurretos, tem consigo parte dos oficiais do Exército, portanto, em termos de chefias tem mais experiência. E consegue ter armas da Alemanha nazi e da Itália - vai ter uma vantagem em certos domínios do armamento. Do lado da República foi muito complicado. No início, até, os republicanos tinham uma certa vantagem do ponto de vista militar, só que muito rapidamente, logo desde agosto de 1936, a França e a Inglaterra impõem uma não-intervenção. Dizem que têm medo que essa guerra de Espanha se transforme numa guerra europeia e tentam limitar a expansão para fora das fronteiras espanholas. Também têm muito medo dos anarquistas e do poder que parece muito radical a Londres e a Paris. Deixam de vender armas, pelo menos legalmente — algumas armas circulam de forma clandestina —, e depois de 1936, salvo alguns momentos, os únicos países que vendem armas à República Espanhola é a União Soviética, que se faz pagar muito caro com ouro, e o México, neste caso mais numa perspetiva de solidariedade antifascista. Há outro factor importante: muito rapidamente, logo em outubro, Franco é o líder das tropas e há uma unidade de comando. O que não vai acontecer do lado republicano. Vai haver uma crise de Estado logo em julho de 1936. Os anarquistas têm muito poder, por exemplo, na Catalunha, e vai dar-se uma fragmentação do poder entre o governo republicano, entre os anarquistas que dominam durante um tempo a Catalunha, entre os comunistas que são muito críticos dos anarquistas e que vão ganhar um poder crescente durante a guerra, graças à disciplina e ao apoio da União Soviética. Do lado republicano vai haver tensões muito fortes entre anarquistas, republicanos, catalães, bascos e comunistas e quase deflagra uma guerra civil em maio de 1937 em Barcelona. Isto é, a república também vai ficar enfraquecida pelas fortes divisões que impedem uma organização eficiente e disciplinada das topas.Tendo em conta a intervenção externa, é mais correto designar guerra civil ou guerra internacionalizada? O termo que ficou na historiografia é guerra civil, que é dessa época, que é uma guerra que ficou dentro do território espanhol, que não ultrapassou as fronteiras espanholas, pelo menos de forma bélica — se bem que houve uma guerra de propaganda, intelectual, de solidariedade, muito além das fronteiras de Espanha —, mas de facto o problema do termo guerra civil é que esconde essa intervenção muito importante, da Alemanha nazi, da Itália fascista e também do Portugal de Salazar, que foram muito importantes para a vitória final de Francisco Franco. E esquece também que a República Espanhola teve o apoio de outros países, do México e da União Soviética, sobretudo, mas também de muitos voluntários por uma guerra que alguns dizem ser a primeira guerra antifascista e com uma dimensão mundial. Muitos foram combater o fascismo porque sabiam que era uma guerra global que já tinha começado entre o fascismo e o nazismo e as democracias europeias. Por isso, o termo guerra civil é muito limitado para compreender várias dinâmicas internacionais e transnacionais dessa guerra.De Portugal saíram Os Viriatos, mas também combatentes para o lado republicano, como Alberto Oliveira Martins, que documentou no livro que editou. O apoio não declarado de Salazar teve mais peso do que os combatentes republicanos?É sempre difícil saber a medida desse peso, dessas ajudas, mas obviamente Portugal de Salazar foi importante em vários domínios para a Espanha franquista. Sob pressão de Inglaterra, Portugal aceitou juntar-se ao Comité de Londres e à não-intervenção, era suposto nenhuma arma passar por Portugal, o que não foi verdade, passaram armas da Alemanha. Portugal de Salazar iludiu, se bem que muitas pessoas sabiam, havia muita hipocrisia nesse Comité de Londres. Houve também um apoio prestado pelo Rádio Clube Português, que difundiu informações que ajudaram os franquistas. Houve muitos alimentos enviados para o lado franquista e houve um apoio diplomático: Portugal de Salazar foi um dos primeiros a reconhecer o governo de Burgos. Enviou uma missão e depois uma embaixada com [Pedro] Teotónio Pereira, que era muito próximo de Salazar. Também se enviou uma missão de observação que enquadrava a ida de voluntários. Obviamente, do outro lado também havia portugueses. Uns que já estavam em Espanha e combateram do lado dos republicanos, que é o caso do Alberto Oliveira Martins. Outros estavam emigrados noutros países, nomeadamente em França, tinham-se politizado e juntaram-se às Brigadas Internacionais. E outros ainda que estavam em Portugal e que, alguns passando por França, foram depois combater do lado republicano. Quanto aos portugueses que já estavam em Espanha, muitas vezes é muito difícil saber, porque muitos deles, como é o caso do Alberto Oliveira Martins, quando vou aos arquivos o nome deles está castelhanizado, muitas vezes aparece como Olivera Martínez e nunca há indicação de que é português. Muitos portugueses que tinham emigrado nas décadas precedentes, nomeadamente nas Astúrias, na Extremadura, na Galiza, faziam parte das comunidades locais, participaram na guerra e é, às vezes, difícil de saber que eram portugueses.Não há um número certo de portugueses que combateram em Espanha? O número de Viriatos foi-se modificando muito. Alguns falaram em 10 mil, outros subiram até 20 mil, exagerando, outros ainda, trabalhando sobre o Arquivo Histórico Militar, falam de 2600, por exemplo. E do lado republicano também sabemos que é muito difícil termos dados fidedignos, porque é preciso rastrear quase individualmente muitas pessoas que se veem nas listas e, mais uma vez, os nomes portugueses às vezes são castelhanizados, às vezes têm nomes iguais, por exemplo há Pereiras em Espanha. Vai ser muito difícil termos uma ideia certa do número de portugueses que combateram na guerra civil espanhola.Diz-se que esta guerra foi a antecâmara da Segunda Guerra Mundial, inclusive do ponto de vista de práticas militares, como o sistemático bombardeamento aéreo de localidades. Já na altura muitos viam isso, a guerra em Espanha como a primeira guerra contra o fascismo, o fascismo na Alemanha e na Itália. E, de facto, sobretudo para a Alemanha nazi, a guerra em Espanha foi um grande exercício. Isto é, como em Guernica, o uso dos aviões, dos bombardeamentos, foi mesmo visto como um laboratório. Esse uso dos aviões depois torna-se fundamental no início da Segunda Guerra Mundial, logo com o ataque à Polónia e à França em 1939 e em 1940. E também na propaganda de guerra foi visto como um laboratório.Do ponto de vista político, há também uma continuidade?Há uma continuidade da luta das ditaduras contra a democracia ou quando estas vão contra a União Soviética. Mas também há uma rutura. Por exemplo, a Espanha de Franco não entra, pelo menos logo, na Segunda Guerra Mundial e tem um estatuto particular, porque se diz não-beligerante. No entanto, vai enviar soldados, a Divisão Azul, para combater a União Soviética em 1941. A Espanha de Franco distingue várias guerras e diz que é uma guerra contra a União Soviética. Também não há continuidade, por exemplo, quando a Península Ibérica não entra na guerra. A guerra de Espanha destruiu uma grande parte do território espanhol, o que flagelou a população. Há, depois da guerra, o que se chama em Espanha os anos da fome. Há pessoas a morrerem com fome em Espanha e, por isso, é um dos motivos pelos quais a Espanha não participa na guerra. Em Portugal, Salazar tenta não entrar na guerra e vai negociando entre a Alemanha e a Inglaterra e os Estados Unidos no âmbito de venda do volfrâmio e, depois, a partir de 1943, na concessão da Base das Lajes.