Via diplomática com o Ocidente nas mãos de Putin 

Em Genebra e em Bruxelas, russos e ocidentais discutiram durante 11 horas, com a ameaça à Ucrânia à cabeça, mas sem qualquer acordo à vista.

Sem surpresas, o Conselho NATO-Rússia, realizado na sede da Aliança Atlântica, em Bruxelas, terminou ao fim de quatro horas como começou. Uma "conversa bastante franca, direta, profunda, intensa", mas que "ao mesmo tempo revelou um grande número de diferenças sobre questões fundamentais", segundo as palavras do diplomata russo Alexander Grushko, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, e ex-representante permanente na NATO.

Coube ao secretário-geral da NATO a nota de esperança. "As nossas diferenças não serão fáceis de ultrapassar. Mas é um sinal positivo que todos os aliados da NATO e a Rússia se tenham sentado à volta da mesma mesa, empenhados em temas relevantes", comentou Jens Stoltenberg após a primeira reunião deste género em dois anos e meio.

"A ideia de que, de certa forma, a Ucrânia ameaça a Rússia é pôr tudo de pernas para o ar. É a Rússia que é o agressor. Esta crise é uma criação da Rússia."

Jens Stoltenberg
Secretário-geral da NATO

Com exercícios militares a iniciarem-se no mesmo dia, envolvendo 10 mil soldados russos não longe da fronteira com a Ucrânia, o tema premente foi o da ameaça de Moscovo a Kiev. A Rússia mantém cerca de 100 mil militares na região. Apesar de na segunda-feira, em Genebra, o número dois da diplomacia russa Sergei Ryabkov ter assegurado a homóloga norte-americana Wendy Sherman de que não há qualquer intenção de invadir a Ucrânia, o passado recente não oferece paz de espírito. "Quando os russos dizem, "Não, não, não, não queremos invadir a Ucrânia", o que eles querem dizer é, "Sim, sim, sim, nós queremos invadir a Ucrânia"", comentou a ex-vice-presidente do parlamento ucraniano Oksana Syroid.

O presidente russo Vladimir Putin pretende que a NATO feche a porta a países do leste europeu e mais além - da Finlândia à Ucrânia, mas também a Geórgia - por um lado, e que por outro reduza as atividades militares nos Estados membros que faziam parte da União Soviética ou do Pacto de Varsóvia. "A continuação da política de portas abertas da NATO e o seu avanço em direção às nossas fronteiras é precisamente o que, do nosso ponto de vista, nos ameaça. É exatamente isto que pedimos para não continuar através de garantias juridicamente vinculativas", havia dito antes das reuniões o porta-voz do Kremlin.

"Os aliados reafirmaram a política de porta aberta da NATO e o direito de cada nação a escolher os seus próprios acordos de segurança. Os aliados deixaram claro que não renunciarão à sua capacidade de se protegerem e defenderem uns aos outros, incluindo a presença de tropas na parte oriental da aliança", respondeu Stoltenberg. Wendy Sherman lembrou que "a NATO nunca se expandiu através da força, coação ou subversão".

Pela parte dos aliados ficou o convite para novas conversações específicas relacionadas com o controlo de armas de ambos os lados da fronteira e a transparência relativa a exercícios militares após um primeiro passo russo de desescalada, mas os interlocutores não puderam dar uma resposta, o que é visto como uma indicação de que ninguém, exceto Putin, sabe a política a seguir. O que irá o presidente russo fazer? "A opinião especializada que eu posso declarar com autoridade é: quem raios sabe?", disse o analista Fyodor Lukyanov, que assessora o Kremlin, ao New York Times.

cesar.avo@dn.pt

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