O número oficial de mortos do duplo sismo que abalou a Venezuela a 24 de junho continua a subir todos os dias, chegando já aos 5398 (dos quais pelo menos 130 portugueses e lusodescendentes). O governo venezuelano não revela o número de desaparecidos, mas um levantamento informal aponta para quase 30 mil e organizações humanitárias estimam que possa chegar aos 50 mil. Após enfrentar as críticas sobre a incapacidade do Estado para responder ao desastre natural, Delcy Rodríguez aproveitou a tragédia para reforçar o seu poder, de tal forma que já é muitas vezes apresentada apenas como “presidente”, tendo caído o “interina” do cargo. Um mês depois do duplo sismo (houve apenas 39 segundos entre os dois abalos) de magnitudes de 7,2 e 7,5 que atingiu especialmente o estado de La Guaira, a norte da capital Caracas, a Venezuela continua confrontada com uma vasta operação de reconstrução e assistência aos quase 25 mil desalojados que vivem em acampamentos temporários. Segundo o Banco Mundial, os sismos causaram 19,6 mil milhões de dólares (17,2 mil milhões de euros) em danos diretos, mas o custo da reconstrução pode ser o dobro ou mais. No início da semana, Rodríguez entregou em Caracas as primeiras 240 casas às vítimas do sismo, dizendo que “aqueles que estão em acampamentos temporários devem ter a certeza de que em breve terão um lar, em breve terão uma casa”. A promessa é entregar quatro mil habitações até ao final do ano, tendo Rodríguez visitado terrenos destinados à construção de novas casas em La Guaira. Os terramotos causaram danos em pelo menos 856 edifícios, dos quais 190 colapsaram, criando cerca de 2,1 milhões de toneladas de escombros.Antes do sismo, o foco estava na mudança de regime, depois de o presidente Nicolás Maduro ter sido capturado numa operação militar dos EUA em janeiro e levado para Nova Iorque para enfrentar acusações de narcoterrorismo e tráfico de droga (começará a ser julgado a 1 de junho de 2027). Mas depois da tragédia, o foco passou a centrar-se na reconstrução do país, com a presidente interina (a antiga vice-presidente que conta com o aval da administração norte-americana de Donald Trump) a assumir um papel de destaque junto com o irmão Jorge, líder da Assembleia Nacional. Mas terá de apresentar resultados ou arrisca-se a ver regressar as críticas dos dias que se seguiram ao duplo sismo.As mudanças que tem vindo a empreender no governo, colocando mais aliados em cargos de destaque, não foram travadas pela tragédia. A nomeação mais recente, há dez dias, foi a de Félix Plasencia para o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, com a pasta também do Comércio Externo. Plasencia, que já tinha sido chefe da diplomacia entre agosto de 2021 e maio de 2022, tinha sido nomeado por Rodríguez em fevereiro para liderar a missão diplomática em Washington. A sua nomeação é vista como um reforço da aposta na aproximação aos EUA. A ala chavista mais radical tem criticado Rodríguez precisamente pela aproximação a Washington - e alegada dependência total e subordinação ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio -, com a presidente interina a ter de desmentir qualquer cumplicidade com a operação militar de 3 de janeiro. Mas o filho de Maduro, o deputado Nicolás Maduro Guerra, saiu em defesa da nova liderança do país. “Estou profundamente grato à presidente Delcy Rodríguez e a toda a equipa política que lidera a Venezuela por terem tomado a decisão, para o bem do país, de abrir canais diplomáticos para resolver quaisquer divergências que possam existir”, indicou há dias nas redes sociais, deixando também cair o “interina” do cargo da presidente.“Apesar da injustiça e da agressão, a liderança política tomou a decisão corajosa, correta e inteligente de resolver qualquer conflito e qualquer diferença através da política e da diplomacia”, reiterou. Na resposta ao sismo, os EUA são de longe o principal apoio da Venezuela, tendo desembolsado cerca de 180 milhões de dólares (quase 160 milhões de euros) em ajuda humanitária, operações logísticas e recursos para a resposta de emergência.O regime venezuelano viu-se obrigado a aceitar ajuda de todos os lados, incluindo de governos de direita ou centro-direita, e não apenas dos tradicionais aliados como Cuba (que também enfrenta uma grave crise económica e social), Nicarágua, China ou Rússia. Várias agências das Nações Unidas estão envolvidas na coordenação da ajuda, estimando-se que sejam necessários 931 milhões de dólares (quase 820 milhões de euros) para cumprir o plano de resposta humanitário (sendo que só cerca de 40% já estão cobertos). “O primeiro mês após um desastre costuma gerar solidariedade e atenção global. O verdadeiro teste agora é se esse apoio continuará quando as manchetes começarem a desaparecer”, indicou, em comunicado, a diretora para a Venezuela da organização humanitária Conselho Norueguês para os Refugiados, Elena Vicario. A transição política não está contudo esquecida no meio da tragédia, estando previsto o início de uma mesa de diálogo com parte da oposição a 1 de agosto. O foco do diálogo, apoiado pelos EUA, é a normalização das instituições democráticas, nomeadamente através de uma reforma do sistema eleitoral. A interlocutora de Jorge Rodríguez não será a líder opositora María Corina Machado, que ainda não regressou à Venezuela após ter saído para receber o Nobel da Paz, mas sim Dinorah Figuera.A líder da última Assembleia Nacional controlada pela oposição (eleita em 2015), ligada ao partido Primero Justicia (do ex-candidato presidencial Henrique Capriles), viveu vários anos no exílio em Espanha, tendo regressado ao país em junho para participar nesta nova fase política. Mas o próprio Capriles defendeu que qualquer diálogo tem que incluir María Corina Machado, avisando que excluí-la “condenaria qualquer processo ao fracasso”. A mesa de diálogo será o primeiro mecanismo formal entre opositores e o regime desde a captura de Maduro. .Delcy Rodríguez vs. María Corina Machado. O jogo político nos escombros da Venezuela.Sobe para 130 número de portugueses e lusodescendentes mortos no duplo sismo que abalou a Venezuela.Sismo de 1812 teve impacto político na Venezuela. O que acontecerá depois deste duplo abalo?.Forte sismo de magnitude 7,1 atinge a costa da Venezuela e gera alerta de tsunami nas Caraíbas