Veleiro 'Mircea', o navio-escola romeno, está em Lisboa e o comandante Moraru convida a subir a bordo
Depois de escalas em Halifax, no Canadá, e em Ponta Delgada, o Mircea concluiu a travessia do Atlântico e vai estar uns dias em Lisboa, antes de partir em direção ao Mediterrâneo e finalmente ao Mar Negro, à cidade de Constanta. "Esta missão tem sido muito especial. E fica para a história por várias razões. Uma delas, sem dúvida, foi a regata das cinco irmãs, ou quatro, em julho. Tinha acontecido em 1976, quando os Estados Unidos celebraram os 200 anos da Declaração de Independência. Voltou agora a acontecer, por ocasião dos 250 anos", sublinha o comandante Silviu-Marius Moraru, que desde 2024 tem a missão de liderar o imponente navio-escola da Marinha Romena, um veleiro de três mastros.
Uma placa em metal no convés relembra que o navio foi construído nos estaleiros navais Blohm + Voss, em Hamburgo, em 1938. Desses estaleiros, com planos muito semelhantes, saíram também a Sagres, navio-escola português, a Eagle, navio-escola da Guarda Costeira dos Estados Unidos, o Gorch Fock e o Gorch Fock II. Este último foi o vencedor da regata deste ano, tal como da de há meio século. E o Gorch Fock não participou no percurso entre Nova Iorque e Boston por ser atualmente um navio-museu na Alemanha, daí a competição das cinco irmãs ter sido na realidade entre quatro.
"São irmãs, mas não são gémeas", alerta o comandante. Por isso, quem visitar domingo e segunda-feira (estará aberto ao público das 15.00 às 18.00 em ambos os dias) o veleiro romeno no Cais da Rocha do Conde de Óbidos notará grandes semelhanças com a Sagres, mas também particularidades. Das cinco irmãs, destaca o comandante, o Gorch Fock II é o que se diferencia mais, pois foi construído em 1958, com planos modernizados. Chamam-lhe mesmo de "irmã mais nova".
A equipa do DN é acolhida ainda no cais pelo adido de Defesa da embaixada da Roménia, o capitão de mar-e-guerra Adrian Geanta. Curiosamente, esta visita do Mircea coincide com a primeira vez que um oficial da Marinha Romena está destacado para a embaixada em Lisboa. Também somos apresentados ao capitão Gabriel Moise, responsável por esta missão transatlântica e que foi durante 12 anos (2006-2018) comandante do Mircea. A acompanhar-nos está Mihaela Haiduc Cabaço, tradutora oficial da embaixada, que não esconde a emoção de voltar a subir a bordo. "É a terceira vez e sempre tenho aquele sentimento de estar de alguma forma na Roménia", diz, recordando o quão simbólico para a diáspora romena são estas visitas do Mircea.
"O contacto com as comunidades romenas é sempre muito importante. E contamos que aqui em Lisboa nos venham visitar, assim como os nossos amigos portugueses", diz o comandante. E conta que nos Estados Unidos também em cada porto que visitavam a comunidade romena lá estava. "O navio é um embaixador itinerante da Roménia. E além de ser simbólico, também é oficial. O Mircea é desde há alguns anos embaixador honorário", acrescenta.
A importância desta nova presença no rio Tejo do Mircea (a última vez foi em 2019) é destacada pela embaixadora da Roménia em Portugal, Daniela Gitman. ”O navio escola Mircea é um embaixador da tradição naval romena e da Roménia, razão pela qual estamos encantados e orgulhosos de tê-lo atracado nas margens do Tejo, precisamente no Dia da Marinha romena, a 15 de agosto. A sua presença no espaço português não é apenas uma celebração, representa um encontro memorável entre duas nações unidas pelo respeito comum pela tradição naval e seus valores, tais como a disciplina, a coragem, o espírito de equipa, a resiliência e a confiança mútua. Considero que a irmandade entre os veleiros romeno e português, Mircea e Sagres, reflete de forma exemplar a profundidade das similitudes entre os romenos e os portugueses, nas quais assenta a parceria sólida entre os nossos países.”
A embaixadora Gitman esteve na cerimónia de chegada do veleiro a Lisboa.
País latino, a Roménia tem fortes laços culturais com Portugal, e a proximidade linguística é bem exemplificada por navio escola em romeno se dizer "nava scoala". Portugal e Roménia são aliados na NATO e na UE.
No momento da chegada a Lisboa, o Mircea contava com 175 tripulantes, 37 dos quais mulheres. Desembarcaram cinco cadetes estrangeiros, um deles português. Também a bordo da Sagres (que deverá chegar a Lisboa dia 23) está atualmente um marinheiro romeno.
Batizado em honra do monarca Mircea, o Velho (também conhecido como Mircea, o Grande) voivoda da Valáquia, um dos principados romenos, no final da Idade Média, o navio-veleiro tem 82 metros e as suas 23 velas representam uma área de 1750 metros quadrados.
O comandante Moraru, que nasceu em 1983 em Ivesti, região de Galati, conta que tanto na escola como depois já na Academia Naval estudou os Descobrimentos portugueses, ficando familiar com figuras como Vasco da Gama. Enviou cumprimentos ao comandante José Eduardo de Sousa Luís, da "irmã" Sagres. Salientou ainda que esta quarta travessia transatlântica do Mircea, com todos os desafios dos ventos oceânicos, lhe relembrou o privilégio que é para a Sagres ter o Atlântico sempre à disposição.
Além da regata das cinco irmãs, ou troféu "Five Sisters", o Mircea participou no Sail4th250, que juntou veleiros de todo o mundo em homenagem aos 250 anos da Declaração de Independência do Estados Unidos a 4 de julho de 1776. O reencontro das quatro "irmãs" deu-se logo a 25 de junho no porto de Baltimore.
