A eleição de Portugal para o biénio 2027-2028 como membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU foi especialmente celebrada no NRP Sagres? Afinal, a presença inicial do navio em Nova Iorque esteve ao serviço da diplomacia portuguesa e até acolheu eventos relacionados com a candidatura.O navio atracou propositadamente em Nova Iorque, na última semana de maio, de forma a apoiar, através de um conjunto de eventos, a candidatura de Portugal a membro não-permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Portugal foi eleito logo na primeira volta, num resultado inédito. Eu e toda a minha guarnição sentimos um enorme orgulho por termos podido contribuir, de alguma forma, para este desfecho. Esta ação é um exemplo de que a Sagres, conhecida como o Embaixador Itinerante de Portugal, é um instrumento de excelência ao serviço da diplomacia nacional.Regressaram depois a Nova Iorque, para as celebrações do 4 de Julho, desta vez a assinalar os 250 da Declaração de Independência dos Estados Unidos. Novamente uma ação diplomática, pois Portugal foi dos primeiros países a reconhecer os Estados Unidos. Como decorreu?Depois de Nova Iorque, atracámos nas Bermudas, onde celebrámos o Dia de Portugal com a comunidade portuguesa, que nos recebeu com enorme entusiasmo, orgulho e emoção. De seguida, regressámos aos EUA para participar na Sail 250, um grande encontro de grandes veleiros, integrado nas comemorações do 250.º aniversário da independência dos daquele país, que decorreu nas cidades de Norfolk, Baltimore, Nova Iorque e Boston. Nesses portos, abrimos a visitas e realizámos eventos de apoio à Embaixada de Portugal em Washington e aos Consulados-Gerais de Nova Iorque, Newark e Boston. Promovemos igualmente diversas iniciativas de acolhimento e de convívio com a diáspora, cuja receção calorosa evidenciou o profundo orgulho que sentem pelo seu país. Tendo presente que os Pais Fundadores brindaram à independência, em 4 de julho de 1776, com vinho Madeira, embarcámos duas pipas de Vinho Madeira, bem como diversas garrafas, para que os brindes efetuados nos eventos a bordo fossem efetuados com este vinho. Esta iniciativa permitiu recriar um momento histórico da ligação de Portugal aos EUA, promovendo simultaneamente o Vinho Madeira. Este episódio era desconhecido das organizações da Sail 250 de Nova Iorque e de Boston, que ficaram tão surpreendidas que decidiram utilizar igualmente vinho Madeira nas respetivas receções de encerramento. Podemos afirmar que a nossa presença nas celebrações foi um sucesso..O contacto com a comunidade portuguesa em cidades como New Bedford trouxe o lado mais emocional desta missão?Já sabíamos que New Bedford acolhe uma das maiores comunidades portuguesas dos EUA. Ainda assim, não estávamos preparados para a receção extraordinariamente calorosa que nos foi proporcionada. Foi, sem dúvida, memorável. Constituiu uma enorme surpresa, mas também uma profunda satisfação, encontrar uma comunidade portuguesa tão numerosa, dinâmica, empreendedora e orgulhosa de Portugal.Estão já a regressar, algures a meio do Atlântico. Quando se iniciou esta missão, que juntou diplomacia, contacto com a diáspora e formação, pois não nos podemos esquecer que se trata de um navio escola? Objetivos plenamente conseguidos?A viagem ainda não terminou. Antes de atracar em Lisboa, a Sagres escalará os portos da Praia da Vitória e de Ponta Delgada, onde se associará às comemorações de Ponta Delgada - Capital Portuguesa da Cultura. Nestes portos açorianos iremos embarcar alunos da Casa Pia e da Escola Náutica, num exemplo de abertura da Marinha à sociedade. O NRP Sagres desenvolve a sua missão em três áreas fundamentais: a instrução, o apoio à diplomacia e o acolhimento à diáspora. No domínio da instrução, desde a largada do navio até à escala em Boston foi realizada a Viagem de Instrução dos cadetes do 2.º ano da Escola Naval. Encontra-se a decorrer, desde Boston, a Viagem de Instrução dos cadetes do 1.º ano, permitindo-lhes conhecer a vida a bordo e pôr em prática os conhecimentos adquiridos na Escola Naval. No âmbito da diplomacia, nas suas vertentes política, económica e cultural, o navio efetuou diversos eventos de apoio ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, ao Consulado de Portugal em Hamilton, à Embaixada de Portugal em Washington e aos consulados-gerais de Nova Iorque, Newark e Boston. Promovemos a cultura e gastronomia nacional, com especial enfoque no vinho Madeira e em diversos produtos alimentares açorianos. Em parceria com duas empresas nacionais produtoras de moscatel, estamos a recriar o vinho torna viagem. Por último, no que respeita ao contacto com a diáspora, efetuamos múltiplas iniciativas de acolhimento e de convívio com as comunidades portuguesas das Bermudas e dos EUA, reforçando os seus laços com Portugal e o orgulho no seu país. Assim, embora a missão não tenha terminado, podemos afirmar que os objetivos foram plenamente alcançados..Pessoalmente, houve algum momento que o marcasse mais nesta viagem aos Estados Unidos?Nesta missão vivemos inúmeros momentos inesquecíveis, em particular os proporcionados pelo contacto com a diáspora, que nos acolheu com enorme carinho, entusiasmo e orgulho. No entanto, a disputa do histórico Troféu Five Sisters, durante a navegação entre Nova Iorque e Boston, foi um acontecimento inolvidável. As Five Sisters são cinco navios construídos no mesmo estaleiro alemão, segundo os mesmos planos. São eles o Gorch Fock, que é atualmente um navio-museu na Alemanha, o Eagle, o navio-escola da Guarda Costeira dos Estados Unidos, a nossa Sagres, o Mircea, da Marinha da Roménia, e o Gorch Fock II, da Marinha Alemã. Em 1976, por ocasião das comemorações do Bicentenário da independência dos EUA, a organização instituiu este troféu para ser disputado entre elas. Nessa ocasião, a vitória sorriu ao Gorch Fock II. O regulamento estabelece que, sempre que as Five Sisters se reencontrem numa regata, o troféu deve voltar a ser disputado. Contudo, durante os 50 anos seguintes, as cinco irmãs nunca mais voltaram a reunir-se. Nas comemorações do 250.º aniversário da independência dos EUA, foi possível reunir quatro das cinco irmãs e voltar a disputar o troféu. Estes navios não são exatamente iguais. São irmãs, mas não são gémeas. Num percurso relativamente curto, as características específicas de cada navio acabaram por ter maior influência no resultado do que a estratégia adotada, tendo o Gorch Fock II, a irmã mais nova, conquistado novamente o troféu. Contudo, o mais importante não foi a classificação. Foi o reforço da amizade entre as guarnições e o privilégio de termos contribuído para escrever mais uma página da história das Five Sisters..Desde quando está na Marinha? O apelo do mar chegou-lhe ainda muito jovem?Desde criança que tenho gosto pelo mar e pelos navios, pelo que sempre pensei em concorrer à Marinha. Assim, quando concluí o 12.º ano, em 1996, candidatei-me à Escola Naval. Uma decisão de que não me arrependo. Ao longo destes anos, a Marinha proporcionou-me experiências únicas, muitas das quais dificilmente teria oportunidade de viver noutra profissão. Outro aspeto que muito valorizo é a diversidade de funções que desempenhamos ao longo da carreira. A constante mudança de responsabilidades e desafios permite-nos adquirir novas competências e crescer profissionalmente.Quantos tripulantes estão nesta missão? Vêm de todo o país?No presente momento, encontram-se embarcados 149 elementos, incluindo a guarnição, os cadetes da Escola Naval e dois cadetes estrangeiros, das marinhas romena e colombiana. A bordo encontram-se militares e cadetes oriundos de praticamente todos os distritos de Portugal. No entanto, verifica-se uma maior representatividade da Área Metropolitana de Lisboa e do distrito de Setúbal.Quando navega, sente o peso da História de Portugal, de estar a representar o país dos grandes navegadores?Quer eu, quer a guarnição, sentimos um enorme orgulho por servimos a bordo deste navio, mas também uma grande responsabilidade, uma vez que o NRP Sagres é um dos símbolos de Portugal e da sua vocação marítima. Em cada momento procuramos honrar o país, a memória dos navegadores portugueses dos Descobrimentos e todas as gerações de militares que, ao longo de 64 anos, serviram a bordo. É esse legado que nos inspira diariamente e que nos motiva a representar a Sagres, a Marinha e Portugal com profissionalismo e sentido de missão.Ao desembarcarem em Lisboa, no calendário previsto, quanto tempo terá durado a missão?A missão iniciou a 24 de abril, com o embarque dos cadetes do 2.º ano. Com a chegada à Base Naval de Lisboa prevista para o dia 23 de agosto, esta missão perfaz um total de quatro meses de duração.Sei que o NRP Sagres já fez várias viagens de circum-navegação. Dar a volta ao mundo é o grande desafio para um marinheiro em tempos de paz?O NRP Sagres já realizou três viagens de circum-navegação. A última concretizou-se em 2010 e teve uma duração de cerca de 11 meses e meio. Nessa missão encontrava-me a bordo, desempenhando as funções de Oficial Navegador. Do ponto de vista profissional, foi uma experiência enriquecedora, no entanto, no plano familiar, foram tempos mais exigentes..Recorda-se da sua primeira vez no navio-escola que agora comanda?Perfeitamente. A primeira vez que o vi foi em Sesimbra, quando era criança e estava na praia com os meus pais. Em 1996, quando concorri à Escola Naval, voltei a encontrá-lo, atracado no Cais 1 da Base Naval de Lisboa, curiosamente após regressar de uma viagem aos EUA. Ainda como candidato, tive a oportunidade de subir a bordo pela primeira vez para fazer remo numa das suas baleeiras. Em 1999, já como cadete da Escola Naval, realizei o meu primeiro embarque no navio ao efetuar uma viagem de instrução ao Norte da Europa. O NRP Sagres é uma excelente escola de mar, mas também uma escola de vida, onde se cultiva a responsabilidade, a coragem, a disciplina, o espírito de equipa, a resiliência, valores importantes para se ser um marinheiro e um líder.