A partir de terça-feira, todos os produtos importados pelos EUA oriundos da China serão agravados com uma sobretaxa aduaneira de 10%. Já dos vizinhos mexicanos e canadianos, com os quais vigora um tratado de comércio livre, os seus bens serão taxados em 25%, à exceção da energia canadiana (10%). Neste domingo, enquanto Pequim, Otava e Cidade do México deploravam a guerra comercial desencadeada por Donald Trump na véspera e anunciavam medidas retaliatórias, o presidente norte-americano reconhecia a possibilidade de os seus cidadãos virem a “sofrer” com esta política protecionista.Ao prometer avançar com as tarifas sobre os três países, Trump argumentou que o país foi enganado, mas que doravante “não será mais o ‘país estúpido’” que tem sido. “Haverá algum sofrimento? Sim, talvez (e talvez não!)”, publicou Trump no Truth Social. “Mas faremos novamente a América grande, e tudo isto valerá a pena o preço a pagar”, escreveu em maiúsculas. “Estupidez” foi também uma palavra usada, mas pelo Prémio Nobel da Economia Paul Krugman, ao descrever a ideia “autodestrutiva” do seu presidente. Sem surpresa, as empresas importadoras dos bens já fizeram saber que quem vai pagar a fatura é o consumidor final. Esta política pode ter como primeira consequência o aumento da inflação, quando uma das prioridades anunciadas por Trump é o combate à subida dos preços: no dia em que tomou posse deu instruções para todas as agências agirem nesse sentido. Além disso, os norte-americanos vão perder rendimento. Segundo uma análise do centro de investigação Budget Lab at Yale, citada pela Associated Press, cada lar norte-americano em média irá perder 1170 dólares (1138 euros) à custa das novas taxas. Isto porque os países alvo de Trump representam 43% dos 3,1 biliões de dólares em bens importados em 2023, com o México a liderar como fonte de importações, seguido da China e do Canadá. Do vizinho do sul, os EUA importam produtos da indústria automóvel e automóveis, televisores e outro equipamento vídeo, vegetais, fruta, açúcar, cerveja ou bebidas brancas. O México avaliou o impacto das taxas aduaneiras nos seus produtos em mais de 10 mil milhões de dólares. Sem detalhar, a presidente Claudia Sheinbaum anunciou “medidas tarifárias e não tarifárias” em retaliação. “Não é a impor taxas que os problemas se resolvem, mas sim falando e dialogando como temos feito nas últimas semanas”, disse. Sheinbaum rejeitou ainda as acusações de que existe uma “aliança intolerável” entre o governo mexicano e os cartéis de droga. “Se existe uma aliança deste tipo nalgum lugar, é com os armeiros dos EUA que vendem armas poderosas a estes grupos criminosos”, afirmou. Também sugeriu ao seu homólogo que combata o tráfico de fentanilo nas ruas. Para a imposição das taxas, Trump alegou uma emergência nacional devido aos opioides produzidos na China e importados via México e Canadá.Do vizinho do norte, os EUA importam sobretudo petróleo e gás, materiais para a indústria como madeira e minerais críticos. “As ações tomadas pela Casa Branca separaram-nos em vez de nos unirem”, disse o primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau, ao anunciar em resposta a imposição de medida aduaneira semelhante. O líder demissionário lembrou ainda que os canadianos têm estado sempre lado a lado com os norte-americanos, tendo dado como exemplo mais recente o combate aos incêndios em Los Angeles. Já Trump prefere a coerção: "O Canadá deve tornar-se no nosso amado 51.º estado", disse na sua rede social, o que implicaria, apregoa, "impostos muito mais baixos e uma proteção militar muito melhor para os canadianos -- e nenhuma taxa aduaneira".Da China, os EUA importam bens de consumo como roupa, telemóveis ou brinquedos. “As guerras comerciais e tarifárias não têm vencedores”, declarou Pequim, enquanto anunciou que iria apresentar queixa na Organização Mundial do Comércio e que irá "tomar as contramedidas correspondentes para salvaguardar firmemente os seus direitos e interesses”..Pressão sobre o Panamá Ou o Panamá reduz de imediato a influência chinesa no Canal do Panamá ou sofrerá retaliações. Foi esta a mensagem que o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, levou ao presidente panamiano, José Raúl Mulino, no seu primeiro destino como chefe da diplomacia. Falando em nome de Trump, que exigiu que o canal fosse devolvido ao controlo dos EUA, Rubio disse a Mulino que Trump tinha feito uma determinação preliminar de que a presença da China na área do canal viola um tratado que levou os EUA a entregar a via navegável ao Panamá em 1999. Este tratado exige a neutralidade permanente do canal construído pelos americanos. O Panamá nega que a China controle o Canal; uma empresa de Hong Kong explora dois portos em cada extremidade do Canal.