Um português foi localizado, mas há três desaparecidos nas cheias no Nepal. O que se sabe sobre a tragédia que fez mais de 300 mortos
[notícia atualizada às 15.00]
As autoridades do Nepal elevaram para pelo menos 353 o número de mortos confirmados na sequência da grande enxurrada que atingiu a região fronteiriça com o Tibete, segundo a mais recente atualização, nesta quinta-feira (27 de agosto). Do lado tibetano, foram recuperados mais três corpos. Há ainda cerca de mil pessoas dadas como desaparecidas entre os dois lados da fronteira - incluindo três cidadãos portugueses, segundo informação atualizada já esta quinta-feira pelo ministério dos Negócios Estrangeiros.
O MNE confirmou ao início da tarde que mais dois cidadãos nacionais estavam desaparecidos em relação aos dados conhecidos na véspera. Seriam assim quatro os portugueses desaparecidos. No entanto, poucos minutos depois, informou que havia "boas notícias" e que um dos que estava dado como desaparecido desde ontem fora encontrado na fronteira com o Tibete, "aparentemente longe do sucedido", e que se encontra "bem de saúde" e em segurança". "O balanço neste momento é assim de três portugueses desaparecidos (um cidadão do sexo masculino e duas do sexo feminino)", indica.
O balanço continua, contudo, provisório, perante a dimensão da área afetada e o elevado número de pessoas que permanecem sem contacto, com os números de mortos e desaparecidos em constante atualização. As operações de busca prosseguem num cenário de várias dificuldades, como estradas destruídas, pontes arrastadas, falhas nas comunicações e novos deslizamentos que condicionam o acesso às zonas mais atingidas.
A tragédia, desencadeada na manhã de quarta-feira, terá sido provocada pelo colapso súbito de um glaciar nos Himalaias. Os primeiros relatos apontaram para um sismo como possível origem do desastre, mas o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) esclareceu posteriormente que o fenómeno correspondeu a um “colapso glaciar”. O impacto da massa de gelo e detritos no fundo do vale terá sido tão forte que registou uma magnitude de 5,2.
Entre os desaparecidos no Nepal estão mais de mil pessoas, das quais cerca de 800 estrangeiras, de acordo com dados das autoridades policiais e turísticas nepalesas.
O que aconteceu?
A força da cheia surpreendeu comunidades, trabalhadores e viajantes junto à fronteira entre o Nepal e a China. Vídeos nas redes sociais mostram uma massa de água, lama e rocha a avançar pelo vale e a atingir um posto fronteiriço em Gyirong. Casas, estradas, pontes e infra-estruturas de energia foram destruídas ou arrastadas pela corrente.
Uma análise preliminar do International Centre for Integrated Mountain Development (ICIMOD), uma organização intergovernamental, aponta para a possibilidade de uma “avalanche de gelo e rocha” com origem numa zona de grande altitude. A queda de uma enorme quantidade de gelo e detritos para o Lende Khola, afluente do rio Bhote Koshi, terá provocado uma subida abrupta do caudal.
Segundo o organismo, os níveis da água nos rios a jusante subiram entre sete e nove metros em apenas 30 minutos. Várias estações de monitorização foram destruídas ou ficaram danificadas.
Simon Cook, especialista em glaciares da Universidade de Dundee, disse à BBC que a sua equipa detetou o colapso da parte inferior de um glaciar no Nepal, perto do pico Langtang Lirung, a cerca de 15 quilómetros do local atingido pelas cheias.
É consequência das alterações climáticas?
Os cientistas não afirmam que seja possível atribuir desde já este episódio exclusivamente às alterações climáticas. Mas alertam para uma tendência mais ampla. Um relatório do ICIMOD divulgado este ano concluiu que os glaciares da região Hindu Kush-Himalaia estão a perder gelo ao dobro do ritmo registado desde 2000, aumentando a exposição a fenómenos como inundações e deslizamentos.
Citado pela BBC, Mohd Farooq Azam, especialista do organismo, afirmou que o aumento da frequência de perigos associados à criosfera - as zonas congeladas da Terra - “está a tornar-se mais visível do que nunca”. O ritmo de transformação, acrescentou, é tão rápido que “os esforços atuais estão a ter dificuldade em acompanhar”.
Simon Cook sublinhou que é difícil determinar se um acontecimento individual é diretamente causado pelas alterações climáticas. Ainda assim, considera que o padrão observado é significativo: “Com um planeta mais quente, vamos assistir ao encolhimento dos glaciares, a mais fusão de neve” e ao degelo do permafrost, o solo permanentemente congelado que ajuda a estabilizar algumas encostas.
O resultado, explicou, pode ser uma maior ocorrência de “deslizamentos, fluxos de detritos, água de degelo dos glaciares, rpturas de lagos e colapsos de glaciares”, à medida que o aquecimento do clima torna estes ambientes de alta montanha mais instáveis.
Resgates dificultados pela lama e pela chuva
No Tibete, as condições no terreno continuam particularmente difíceis. O deslizamento de terras junto à passagem fronteiriça de Gyirong Port deixou algumas zonas cobertas por mais de 1,5 metros de lama. Todas as estradas de acesso ao posto fronteiriço ficaram danificadas e as comunicações foram interrompidas. Além disso, a previsão de chuva nos próximos dias faz temer novos deslizamentos e colapsos secundários, complicando ainda mais o trabalho das equipas de emergência.
David Fisher, responsável pela delegação da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho no Nepal, descreveu a situação como “extrema”. “É muito claro para nós que existem necessidades muito urgentes”, afirmou Fisher, acrescentando que “é preciso muito, muito mais” apoio. O responsável avisou ainda que o número de mortos poderá continuar a aumentar.
Um português entre peregrinos hindus desaparecidos
Entre as pessoas que permanecem sem contacto estão dezenas de peregrinos hindus que se encontravam na região durante uma viagem ao monte Kailash, no Tibete, um local sagrado para hindus e budistas tibetanos.
O líder espiritual hindu Sadhguru, Jagadish Vasudev, afirmou que 80 peregrinos estavam no posto de imigração da fronteira Nepal-China quando a cheia atingiu o edifício, entre eles um português. O grupo incluía cidadãos dos Estados Unidos, Canadá, Austrália, Reino Unido, Alemanha, França, Nepal, Países Baixos, Nova Zelândia, Espanha, Singapura, Finlândia, Hungria, Israel, Lituânia, Filipinas, Rússia, África do Sul e Portugal.
“Literalmente, todo o grupo estava no edifício”, afirmou Sadhguru numa mensagem publicada nas redes sociais. “É um acontecimento terrível”.
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Dalai Lama lamenta tragédia
“Rezo por todos aqueles que perderam a vida e ofereço a minha solidariedade e as minhas sentidas condolências aos familiares enlutados e a todos os afectados por esta tragédia”, reagiu o Dalai Lama perante a dimensão da catástrofe. O líder espiritual tibetano recordou que a região já foi atingida por outras calamidades e considerou que estes acontecimentos podem ser “sintomas de uma causa mais profunda, seja ela as alterações climáticas ou outros fatores”.

