A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, rejeitou este domingo (15 de fevereiro) a ideia de que a Europa (tal como os EUA) enfrenta um “apagamento civilizacional” e precisa de ser salva, numa resposta ao discurso da véspera do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, na Conferência de Segurança de Munique. Um discurso com as mesmas críticas de sempre, nomeadamente em relação à imigração em massa ou ao “culto climático”, mas com um tom mais conciliador do que o do vice-presidente J.D. Vance, há um ano. “Perante aqueles que dizem que existe uma Europa decadente e woke, a nossa civilização não está a enfrentar qualquer tipo de eliminação”, declarou Kallas, lembrando que há muitos países que se querem juntar ao clube e questionando sobre qual seria a alternativa. “Sabemos quem somos e sabemos o que defendemos”, acrescentou no discurso de abertura do terceiro e último dia da Conferência de Segurança. Mas a alta representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança admitiu, como outros líderes europeus, algum alívio após ouvir Rubio. “A mensagem que recebemos é que a América e a Europa estão interligadas. Estiveram no passado e estarão no futuro. Acho que isso é importante. Também é claro que não concordamos em todas as questões e que isso continuará a ser assim, mas penso que podemos trabalhar a partir daí”, referiu. Rubio surgiu em Munique com um tom mais conciliador do que J.D. Vance, cujo discurso foi recebido com choque no ano passado - ao dizer que a maior ameaça à Europa não era a Rússia ou a China (Rubio nem as mencionou), mas as ameaças internas como a imigração em massa ou as ameaças à liberdade de expressão. Este ano, o secretário de Estado também criticou a imigração, não obstante falou dos norte-americanos como “filhos da Europa” e reiterou que o objetivo dos EUA não é pôr fim à “era transatlântica”- apesar da tensão do último mês por causa da Gronelândia. .PM da Dinamarca diz que um ataque dos EUA à Gronelândia ditaria o fim da NATO.Rubio avisou que os EUA não têm interesse em serem os “zeladores do declínio controlado do Ocidente” e estão a forjar um “novo caminho de prosperidade” que querem que a Europa siga também. “Não procuramos separar-nos da Europa, mas revitalizar uma amizade antiga e renovar a maior civilização da história da humanidade”, referiu, defendendo uma reforma das instituições internacionais. Apesar de respirarem um pouco de alívio com o discurso de Rubio, focando-se nessa ideia de unidade e de aliança, os europeus não mudam de discurso em relação à necessidade de fazer mais.“No mundo fragmentado de hoje, a Europa precisa de se tornar mais independente. Não há outra escolha”, disse a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Alguns viram o facto de Rubio ter seguido de Munique para uma viagem à Hungria e Eslováquia - dois países europeus e da NATO com uma visão mais nacionalista e pró-Rússia do que a maioria - como um mau sinal. Na sexta-feira (13 de fevereiro), antes do discurso de Rubio, o chanceler alemão, Friedrich Merz, tinha sido mais pessimista ao dizer que a ordem mundial baseada em regras que surgiu no rescaldo da II Guerra Mundial “já não existe”. E alertou para o facto de que, nesta nova era de poder, a “liberdade da Europa já não está garantida” e o continente “precisará de demonstrar firmeza e determinação para afirmar essa liberdade”. Um alerta que fica apesar do discurso de Rubio.Este “arrefeceu, por agora, a tensão transatlântica”, segundo defendeu a investigadora do Centro Scowcroft para Estratégia e Segurança, Tressa Guenov, numa análise do Atlantic Council. “Mas, por detrás da turbulência política e da confiança transatlântica abalada, existe em Munique um claro reconhecimento de que as questões de segurança mútua e de capacidade industrial de defesa precisam simplesmente de ser resolvidas. E em breve”, acrescentou. “No fundo até os europeus mais alarmistas sabem que não se podem dar ao luxo de descartar os EUA como parceiro, e que a Europa ser obrigada a assumir o controlo estratégico do seu próprio destino será, a longo prazo, algo positivo”, afirmou, por seu lado, o diretor-adjunto da Iniciativa de Segurança Transatlântica, Philippe Dickinson, lembrando que no discurso Rubio disse que os EUA querem aliados “que se possam defender, para que nunca nenhum adversário se sinta tentado a testar a nossa força colectiva”.