Özgür Özel, líder do novo partido Yeni Parti.
Özgür Özel, líder do novo partido Yeni Parti.FOTO:DR/X/Özgür Özel

Turquia: Cisão histórica retira ao velho partido de Atatürk a liderança da oposição a Erdogan

Formação política fundada pelo pai da Turquia moderna perde 91 dos seus 135 deputados para o novo partido criado por Özgür Özel, aliado de Imamoglu. Divisão da oposição pode beneficiar o presidente.
Publicado a
Atualizado a

Pela primeira vez em mais de duas décadas, o partido fundado por Mustafa Kemal Atatürk, o pai da Turquia moderna, deixou de ser a principal força da oposição ao atual presidente Recep Tayyip Erdogan.

Esta sexta-feira, 24 de julho, 91 deputados liderados por Özgür Özel abandonaram o histórico Partido Republicano do Povo (CHP) para criar o Yeni Parti (Novo Partido), que nasce como a segunda maior bancada no Parlamento, atrás apenas do AKP de Erdogan.

Fundado por Atatürk em 1923, o CHP é a força política que esteve na origem da República e que, durante décadas, se apresentou como guardiã do legado kemalista, laico e republicano. Com a saída dos dissidentes, o CHP passa de 135 para 44 deputados, caindo de segunda para quarta força política no parlamento turco.

A cisão é o culminar de uma crise que se arrasta há meses. Em maio, um tribunal anulou o congresso do CHP de 2023, que elegera Özel como líder, alegando irregularidades na votação. A decisão restituiu a presidência do partido ao antigo líder, Kemal Kilicdaroglu, que perdeu as presidenciais de 2023 para Erdogan.

Os apoiantes de Özel alegaram que houve interferência política do governo para enfraquecer a oposição, mas o executivo insistiu que a justiça atua de forma independente. A polícia chegou a cercar a sede do CHP para impor a decisão judicial.

Özel, de 51 anos, tinha assumido a liderança do CHP em 2023 após anos de crescente descontentamento com a estratégia de Kilicdaroglu e levou o partido a uma vitória histórica nas autárquicas de 2024, quando ultrapassou o AKP na votação nacional.

Entre os principais aliados de Özel está Ekrem Imamoglu, que foi nessa altura reeleito presidente da câmara de Istambul (tinha sido eleito a primeira vez em 2019) e se transformou no mais forte rival político de Erdogan. Foi Imamoglu quem apoiou a ascensão de Özel à liderança do CHP em 2023 e ambos passaram a representar a ala do partido que defendia uma renovação da oposição.

Preso desde março de 2025, suspenso do seu cargo e alvo de vários processos judiciais que os seus apoiantes consideram politicamente motivados, o autarca continua a ser uma das figuras mais populares da oposição turca. Özel ganhou projeção nacional ao tornar-se no rosto das manifestações pela libertação de Imamoglu.

Ao anunciar a criação do novo partido, Özel procurou apresentar a cisão como um novo começo e não apenas como uma dissidência. "Abrimos um novo caminho porque bloquearam todos os outros. Estão prontos para caminhar rumo ao poder?", declarou na sexta-feira, 24 de julho, perante os deputados aliados em Ancara.

"Estamos a deixar para trás um partido ocupado", disse um dos seus apoiantes, o deputado Murat Emir, que o acompanhou no novo partido. Também é esperado que vários autarcas se unam a Özel, que quando foi afastado da liderança do CHP recebeu o apoio dos presidentes de câmara de pelo menos 12 capitais provinciais.

No discurso final diante dos deputados do CHP antes da criação oficial do partido, Özel afirmou que todos aqueles que iam com ele estavam a vestir uma "camisa de fogo", uma expressão turca para descrever um sacrifício arriscado assumido em nome de uma causa política.

"Na política, não abdicamos das nossas convicções; pelo contrário, todos assumimos um fardo difícil e arriscado pelo bem do país", disse.

Embora o Yeni Parti tenha sido formalmente registado, alguns apoiantes de Özel receiam que novos obstáculos judiciais possam dificultar a consolidação da formação política.

Depois de registar o Yeni Parti, Özel escreveu nas redes sociais que se tratava do partido dos trabalhadores, dos reformados, dos funcionários públicos, dos comerciantes, dos agricultores, das mulheres e dos jovens, numa tentativa de alargar a sua base de apoio para lá do eleitorado tradicional do CHP - tradicionalmente apoiado pelas classes médias urbanas, pelos eleitores seculares e pelos defensores do legado de Atatürk.

A grande incógnita é saber quem beneficia com a cisão. A Reuters, a AP e analistas citados pela Deutsche Welle concordam que o novo partido tem potencial para atrair a maioria dos eleitores e quadros que seguiam Özel. Mas não é claro que isso vá fortalecer a oposição ou acabar por fragmentá-la ainda mais.

O Yeni Parti herda a maior parte da antiga bancada parlamentar do CHP e torna-se na principal força de oposição a Erdogan no Parlamento, mas a divisão no campo da oposição pode facilitar uma eventual nova candidatura de Erdogan às presidenciais previstas para 2028, apesar das dúvidas existentes sobre os limites constitucionais de mandatos.

Özgür Özel, líder do novo partido Yeni Parti.
Destituição de líder. Apoiantes e polícia cercam sede do principal partido da oposição na Turquia
Özgür Özel, líder do novo partido Yeni Parti.
Quem é Ekrem Imamoglu, o homem que vai ser eleito opositor de Erdogan depois de ter sido preso?
Diário de Notícias
www.dn.pt