Horas depois de a notícia de um iminente acordo nuclear entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita ter causado calafrios nalgumas capitais, Telavive à cabeça, o presidente norte-americano veio a terreiro tentar acalmar os ânimos. Donald Trump disse que o documento assinado na quarta-feira entre Washington e e Riade está condicionado à adesão saudita aos Acordos de Abraão, ou seja, ao reconhecimento de Israel. Afirmou também que o programa nuclear da Arábia Saudita exclui o enriquecimento de urânio, em contradição com o pouco que se sabia sobre o acordo. Seja em que moldes for, é opinião de políticos e analistas que este desenvolvimento é mais um passo para a proliferação nuclear.“Os EUA não vão celebrar qualquer acordo com nenhum país do mundo que acarrete o risco de proliferação”, afirmou na quarta-feira o secretário de Estado Marco Rubio. Após assinar o documento com o homólogo saudita, o secretário da Energia norte-americano Chris Wright disse que o acordo “respeita os mais elevados padrões de segurança nuclear e de não-proliferação, ao mesmo tempo que se apoia na melhor tecnologia e nos melhores cientistas nucleares do mundo, concebida nos Estados Unidos”. O texto não foi tornado público, mas os pormenores divulgados aos jornalistas norte-americanos contam uma outra história: a Arábia Saudita não está limitada ao enriquecimento de combustível nuclear. O que estará acordado é que os dois países conduzirão em conjunto um estudo, ao longo de dois anos, para avaliar se Riade necessita dessa capacidade. Em caso afirmativo, a construção de instalações de enriquecimento seria levada a cabo pela parte norte-americana. Em caso negativo, a casa de Saud concorda em não desenvolver essa capacidade durante dez anos. Tratamento diverso ao dispensado aos Emirados Árabes Unidos. Em 2009, um acordo semelhante foi complementado com um protocolo adicional no qual os emiradenses tiveram de renunciar ao enriquecimento e ao reprocessamento de urânio. Para Donald Trump, o acordo “apenas se refere a usos não militares, como os que o Irão e os Emirados Árabes Unidos (e outros) já têm, será aprovado, mas está totalmente condicionado à entrada da Arábia Saudita nos muito respeitados e bem-sucedidos Acordos de Abraão”, afirmou na rede Truth Social. Questionada pelos jornalistas por que a condicionalidade não foi mencionada no anúncio do acordo, a porta-voz da Casa Branca disse que o presidente é o “decisor final” e que já havia solicitado à Arábia Saudita que se juntasse aos acordos “em inúmeras ocasiões”, mas não esclareceu se essa questão estava no articulado. “Esperemos que acabe por ser finalizado, com a condição de que o presidente falou esta manhã [ontem]”, disse Karoline Leavitt. Esta adiantou ainda que Trump não falou com o príncipe Mohammed bin Salman, o líder de facto do reino, desde que fez o anúncio.De Riade não surgiu qualquer reação oficial a esta aparente reviravolta. A jornalista norte-americana Laura Rozen, contudo, citou uma fonte saudita, segundo a qual “não há nada para negociar” e “os tuites não anulam acordos assinados”. É sabido que a Arábia Saudita se encontrava em posição de aderir aos Acordos de Abraão e que um acordo nuclear civil com os EUA faria parte desse quadro de normalização de relações. Porém, a guerra que Israel iniciou em Gaza em resposta aos ataques terroristas de 2023 tornou esse horizonte longínquo. Para Riade, um Estado palestiniano viável é condição para estabelecer laços com Israel. .417Reatores em funcionamento em 2024, com uma capacidade de produção de energia de 377 GW, ou cerca de 9% do total produzido por todas as fontes de energia..Em Israel — o único país da região com armas nucleares —, o anúncio de Trump foi recebido com alívio. Para Benjamin Netanyahu este possível avanço deve-se a si. “A ação militar conjunta americana e israelita contra o regime genocida em Teerão e a destruição do eixo do terror do Irão por Israel criaram a possibilidade de expandir o círculo da paz.” Concluiu o o primeiro-ministro israelita: “Como disse o presidente Trump, a adesão da Arábia Saudita aos Acordos de Abraão seria um salto histórico para a paz no Médio Oriente.”Nas horas anteriores, os israelitas não esconderam a sua preocupação. Quem talvez tenha resumido melhor o sentimento foi o deputado e antigo vice-primeiro-ministro Avigdor Lieberman: “Um programa nuclear civil na Arábia Saudita vai levar a uma louca corrida armamentista em toda a região do Médio Oriente.”.32Países recorrem à energia nuclear. A estes juntar-se-ão o Bangladesh (com dois reatores), o Egito e a Turquia (cada um com quatro reatores)..Alguns observadores encaram este acordo — e o seu momento — como uma concessão à Arábia Saudita num momento em que está a ser posta à prova pelo Irão e pelos seus agentes por procuração, os houthis. E também como uma forma de manter Riade alinhada com Washington, não procurando alternativas em Moscovo ou em Pequim. “Ao manter a porta aberta para o enriquecimento de urânio na Arábia Saudita, o acordo nuclear envia uma mensagem forte a Teerão. Ao garantir um acordo que parece ter condições mais favoráveis do que aquelas que os Emirados Árabes Unidos e dezenas de outros parceiros dos EUA assinaram, Riade também mostra o seu papel como um ator global importante, mesmo que não esteja entre as nações com armas nucleares”, considera Allison Minor, ex-enviada especial adjunta dos EUA para o Iémen. Já outro seu colega do think tank Atlantic Council, David Shapiro, destaca “o risco de outros atores importantes no Médio Oriente — Egito, Turquia, certamente o Irão — sentirem que devem igualar as capacidades sauditas, desencadeando pelo menos uma corrida à tecnologia nuclear”, isto além de “potenciais ameaças à segurança de Israel e de outros parceiros dos EUA”.De outra forma, a questão é levantada pelo israelita Ariel Levite, investigador da política nuclear no Carnegie Endowment for Internacional Peace: “Quais são as implicações mais amplas de aceitar um acordo tão deficiente em termos do precedente que cria para as aspirações nucleares de outros países aliados, bem como da China e da Rússia seguirem o mesmo caminho com os seus parceiros?”..9Países com armas nucleares. Juntos têm mais de 9600 ogivas operacionais para lançar a destruição por terra, mar ou ar..Em editorial, a revista Economist vê o acordo como possível “concessão a um país furioso com a desastrosa condução da guerra com o Irão” pelos EUA. “É típico de Trump: um acordo imperfeito como compensação por uma guerra incompetente.” Ao que acrescenta os riscos — a começar pela Arábia Saudita e a sua história de extremismo — e a de outros países na região seguirem o exemplo. Refira-se ainda que os sauditas assinaram um pacto de defesa com o Paquistão. Islamabad foi o principal mediador das negociações entre EUA e Irão, mas também tem um passado de transferência de tecnologia e conhecimento nucleares a outros países, a começar pelo Irão, mas também à Coreia do Norte.Se Riade vier a desenvolver capacidades de enriquecimento, o Irão — rival da Arábia Saudita — será o país mais tentado a não abdicar do programa nuclear e a responder na mesma moeda. Esta questão, que levou à guerra atual, já seria um dos temas mais espinhosos nas futuras negociações para um acordo global de paz com os EUA; agora será ainda mais complexo. .67,3Por cento da eletricidade produzida em França tem origem nuclear. Na China é de 4,5%, mas aos 69 reatores em uso, juntam-se 39 em construção e 11 aprovados, estando a caminho de ser o maior gerador de energia nuclear..A Turquia, que terá em breve a sua primeira central de energia nuclear, construída e mantida com tecnologia russa, está a pensar em dar o passo para a arma. Após o início da guerra dos EUA e de Israel contra o Irão, o ministro dos Negócios Estrangeiros Hakan Fidan disse que Ancara poderia vir a obter armamento nuclear. O Egito também está em vias de produzir energia nuclear através de um acordo com a russa Rosatom. Ao contrário dos turcos, o Cairo — que teve um programa nuclear secreto nos anos 1960 para concorrer com Israel — não deu sinais de dar o passo da energia civil para a militar. .“Ataque maciço” é hipótese dos EUA enquanto se abre nova frente de guerraO presidente dos EUA disse estar a refletir sobre a hipótese de ordenar o maior ataque dos EUA ao Irão até hoje. “Estou a considerar um ataque maciço. Maior do que nunca. Estou prestes a tomar uma decisão. Estamos todos preparados para isso”, afirmou Donald Trump em declarações ao site Axios.No dia em que a Câmara dos Representantes aprovou uma resolução a exigir ao presidente para submeter ao Congresso aprovação para desencadear a guerra — para logo depois o Senado reprovar o texto —, Trump deu mais um sinal de querer agitar as águas num conflito em impasse. “Eles [iranianos] ainda não sentiram dor suficiente”, considerou o norte-americano. Disse ainda que o seu lado está a tentar negociar, “mas os iranianos não estão a ser prestáveis”. Deixou ainda no ar a hipótese de esse putativo ataque contar com a aviação israelita, embora tenha aclarado que o seu país não precisa de ajuda para lançar uma operação em larga escala contra o Irão. E reconheceu de pronto que a intervenção israelita teria “consequências”, isto é, a provável retaliação iraniana contra o estado judaico. Depois das declarações de Trump, o Departamento de Estado dos EUA recomendou aos cidadãos norte-americanos na região para se prepararem para possíveis cancelamentos de voos e interrupções no transporte aéreo como resultado da guerra no Irão.. Enquanto os EUA continuam a bombardear alvos e o Irão responde com mísseis para os países vizinhos — desta vez, Koweit e Jordânia —, uma nova frente da guerra foi aberta com os houthis a afirmarem ter alvejado dois petroleiros sauditas no mar Vermelho, cumprindo a ameaça de bloquear o estreito de Bab el-Mandeb. O grupo armado aliado do Irão disse que outros 10 petroleiros sauditas tiveram de dar meia-volta, e que estava pronto, se necessário, para bombardear a Arábia Saudita. “Estamos agora a testemunhar uma nova fase na guerra”, disse o brigadeiro iraniano Mohammad Akraminia. Com o barril de petróleo a ser transacionado acima dos 100 dólares, o negociador-chefe do Irão disse: “Queriam punir o Irão. Em vez disso, puniram-se a si próprios com petróleo nos três dígitos. Estratégia 10/10,”, escreveu Bagher Ghalibaf. Já o chefe da diplomacia Abbas Araghchi afirmou que “o problema reside na abordagem irracional, excessiva e dominadora” dos EUA. .O “impasse mutuamente doloroso” dos EUA e do Irão.Irão volta a retaliar contra infraestruturas da Amazon