Um dos argumentos usados por Donald Trump para lançar a guerra no Irão era impedir este país de desenvolver uma arma nuclear. Algo que Teerão sempre disse não querer, insistindo contudo no seu direito a ter um programa nuclear civil (ao mesmo tempo que continuava a enriquecer urânio acima do necessário). A dias de terminar o cessar-fogo (o prazo inicial de duas semanas acaba na quarta-feira), os dois países tentam negociar um acordo que garanta a paz e resolva de vez a questão nuclear, com Trump a alegar que vai conseguir um “melhor” do que o que Barack Obama obteve em 2015 (e que ele rasgou no seu primeiro mandato, em 2018). Mas o que é que estava previsto no acordo de Obama? A 14 de julho de 2015, e depois de quase dois anos de negociações, os EUA, junto com os outros quatro membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas (China, França, Reino Unido e Rússia), a Alemanha e a União Europeia, chegaram a acordo com o Irão. O Plano de Ação Conjunto Global impôs restrições às atividades nucleares do Irão em troca do levantamento de sanções. Obama alegou que, embora o acordo não resolvesse todos os problemas com o Irão, o regime de inspeções era “o mais abrangente alguma vez negociado para monitorizar um programa nuclear”. Não era o acordo perfeito, era o possível. Ao abrigo do plano de ação, Teerão aceitava limitar o enriquecimento do urânio a 3,7% e manter um máximo de 300 quilos deste material. A instalação subterrânea de Fordo (que os EUA bombardearam em junho do ano passado) seria transformada em centro de pesquisa científica e haveria um travão em Natanz (outra que foi atacada). O número de centrifugadoras (usadas para o enriquecimento) seria limitado a cinco mil. Em relação às inspeções, o Irão aceitava dar maior acesso à Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), permitindo até que investigasse locais suspeitos de albergar instalações nucleares secretas. Haveria ainda vigilância contínua das instalações de fabrico e armazenamento de centrifugadoras.Só depois de cumprir com alguns passos chave é que o Irão iria beneficiar do alívio das sanções, o que aconteceu em janeiro de 2016. A maioria das medidas tinha um prazo entre dez e 25 anos - o acordo representava uma pausa, não o fim do programa nuclear iraniano - sendo a expectativa que depois já houvesse confiança entre as duas partes para um acordo melhor. Mas, para os críticos, essa era uma das falhas. Outra era que não limitava o programa de mísseis balísticos de Teerão (aliás as sanções para as armas poderiam ser suspensas em cinco anos, e para os mísseis balísticos, em oito), nem travava o apoio do regime a grupos regionais, como o Hezbollah. Além disso, o alívio das sanções permitia que o Irão acedesse a milhões de fundos congelados, usando-os para o que bem entendesse.Quando Trump foi eleito a primeira vez para a Casa Branca, disse que este era “o pior acordo alguma vez negociado” e, em maio de 2018, oficializou a saída dos EUA. Alegou que o acordo não permitia inspeções a instalações militares iranianas, não travava o programa de mísseis (os intercontinentais poderiam atingir os EUA) e não travava o apoio a grupos terroristas. Trump reintroduziu então sanções abrangentes contra Teerão, defendendo que a pressão económica forçaria o Irão a aceitar um acordo mais amplo e rigoroso. “Aquele era um documento horrível, horrível, perigoso. Estavam a caminho de obter [uma arma nuclear] legitimamente, através de um acordo que foi assinado de forma imprudente pelo nosso país”, afirmou o presidente já depois do início da guerra, a 28 de fevereiro, insistindo (erradamente) que o acordo de Obama dava luz verde ao Irão para ter uma arma nuclear. Durante os 28 meses em que o acordo esteve de pé, a AIEA disse que Teerão não o tinha violado, registando só infrações menores que foram corrigidas. Depois de os EUA saírem do acordo, Teerão ainda manteve num primeiro momento o compromisso assumido. Mas, a partir de julho de 2019, começou a recuar, voltando a enriquecer urânio acima do combinado - o destino dos cerca de 400 quilos de urânio enriquecido a mais de 60% (para as armas é preciso 90%) é ainda desconhecido - a instalar novas centrifugadoras e a reduzir a cooperação com a AIEA. O acordo que Trump está agora a tentar negociar com o Irão vai mais além do nuclear. Mas este continua a ser um ponto de discórdia. Na primeira ronda de negociações em Islamabad, os EUA exigiram que Teerão suspenda todo o enriquecimento durante 20 anos - no passado tinham pedido dez anos, com os iranianos admitiam no máximo três. Querem ainda que o stock de urânio enriquecido a 60% seja retirado do país (de preferência sob supervisão dos EUA). Em negociações passadas, antes de estalar a guerra, Teerão admitiu não ficar com qualquer stock de urânio e que este seria enriquecido apenas em função da necessidade (uma oferta melhor do que a do acordo de Obama).Mesmo que haja acordo nestes pontos, há ainda tudo o resto, como o apoio do Irão a grupos armados regionais ou o programa de mísseis balísticos (o que Trump criticou por não fazer parte do acordo anterior). Ou a questão do Estreito de Ormuz, tendo na sexta-feira (17 de abril) o presidente alegado que o Irão já se terá comprometido em não o voltar a usar como arma..Trump afirma que o Irão aceitou "nunca mais fechar o Estreito de Ormuz"