Após umas horas de aparente acalmia nas tensões entre os Estados Unidos e a Europa, depois de um pré-acordo com a NATO sobre o Ártico, eis que Donald Trump voltou esta quinta-feira, 22 de janeiro, a incendiar as relações transatlânticas com uma ameaça de retaliação caso os países europeus comecem a desfazer-se de ações e obrigações norte-americanas por causa das políticas comerciais ou de segurança da Casa Branca. “Se o fizerem, farão. Mas se isso acontecesse, haveria uma grande retaliação da nossa parte, e temos todas as cartas na manga”, disse Trump à Fox Business. As autoridades norte-americanas têm minimizado as hipóteses de a Europa se desfazer de títulos do Tesouro dos EUA em retaliação às ameaças contra a Gronelândia, como o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, que esta semana em Davos classificou esta possibilidade de “narrativa completamente falsa”, referindo que o mercado de obrigações do Tesouro constitui a base do sistema financeiro global. “A Europa é dona da Gronelândia, e também possui muitos títulos do Tesouro norte-americano”, escreveu George Saravelos, chefe global de pesquisa cambial do Deutsche Bank, numa nota publicada no domingo. “Apesar de toda a sua força militar e económica, os EUA têm uma fraqueza fundamental: dependem de outros países para pagar as suas contas através de grandes défices externos”, acrescentou.Os países europeus detêm cerca de oito biliões de dólares (cerca de 6,8 biliões de euros) em obrigações e ações dos EUA, quase o dobro do que o resto do mundo em conjunto, segundo dados o Deutsche Bank, o representa uma vulnerabilidade para Washington, pois depende fortemente dos investidores estrangeiros para financiar a sua dívida. O maior detentor europeu de dívida dos EUA, segundo dados do Departamento do Tesouro relativos a novembro, é o Reino Unido (com 888, 5 mil milhões de dólares), apenas batido pelo Japão (1202 mil milhões). Na lista surgem ainda a Bélgica (481 mil milhões), o Luxemburgo (425,6), a França (376,1), a Irlanda (340,3), Suíça (300,3), Noruega (218,9) e Alemanha (109,8).Os EUA “estão numa trajetória de endividamento insustentável”, afirmou ao New York Times Richard Portes, professor de Economia na London Business School. “Esta é a principal fragilidade económica dos Estados Unidos neste momento”, prosseguiu, acrescentando que a maior alavancagem económica da Europa está no sector financeiro. Já Chris Weston, chefe de investigação da Pepperstone, numa nota que publicou na segunda-feira, referiu que “a dinâmica de mercado que estamos a observar com cada vez mais provas é que os ativos norte-americanos (incluindo o dólar) carregam agora um prémio de risco político muito mais elevado”. Mudança que, segundo Weston, poderá levar os investidores estrangeiros a reduzir a sua exposição aos EUA e a ajustar o nível de risco em relação ao dólar que detêm, pressionando a moeda. No início desta semana, o fundo de pensões dinamarquês AkademikerPension anunciou que vai vender títulos do Tesouro norte-americano - detêm 100 milhões de dólares -, explicando que “a decisão baseia-se na situação financeira precária do governo dos EUA, o que nos faz pensar que precisamos de encontrar uma forma alternativa de gerir a nossa liquidez e risco”. O gestor Anders Schelde referiu ainda que a decisão “não está diretamente relacionada com a atual disputa entre os EUA e a Europa, mas não tornou a decisão mais difícil”.Também o fundo de pensões sueco Alecta anunciou esta semana ter vendido a maior parte das suas participações em títulos do Tesouro dos EUA no último ano devido ao aumento do risco e da imprevisibilidade da política norte-americana, mas sem adiantar o valor envolvido. No entanto, segundo o jornal sueco Dagens Industri, a Alecta vendeu entre 7,7 mil milhões a 8,8 mil milhões de dólares em títulos do Tesouro dos EUA no último ano, de uma carteira total de 100 mil milhões.Maior presença no ÁrticoO secretário-geral da NATO afirmou esta quinta-feira que os aliados terão de aumentar a sua presença no Ártico, segundo o projeto de acordo que estabeleceu com o presidente dos EUA, levando Donald Trump a recuar na ameaça de tarifas comerciais contra oito países europeus. “Não tenho dúvidas de que podemos fazê-lo muito rapidamente. Certamente, espero que seja em 2026, talvez até no início de 2026”, referiu Mark Rutte em declarações à Reuters em Davos, acrescentando que agora os altos comandantes da NATO terão de definir os detalhes dos requisitos de segurança adicionais.O neerlandês declarou ainda que não discutiu a exploração de minerais, sublinhando que as negociações específicas sobre a Gronelândia terão de continuar a ser feitas entre os Estados Unidos, a Dinamarca e as autoridades da ilha. Contrariando o que foi explicado por Rutte, que fala apenas em Ártico e atira as discussões sobre a Gronelândia para um outro palco, Trump afirmou esta quinta-feira que garantiu o acesso total e infinito dos EUA à ilha no acordo com a NATO, dizendo à Fox Business que “os detalhes estão a ser negociados agora”. Apesar da suspensão das tarifas, o bloco dos 27 decidiu manter o Conselho Europeu extraordinário convocado para esta quinta-feira ao final do dia para discutir relação com os EUA. Falando à entrada, Emmanuel Macron afirmou que esta reunião mostra a unidade em apoio da Dinamarca e da sua integridade territorial. “Quando a Europa está unida, forte e reage rapidamente, as coisas voltam ao normal e à calma”, disse presidente francês, acrescentando que a Europa precisa de se manter “vigilante” e continuar a agir de “forma unida”, mostrando que tem “instrumentos à sua disposição” caso seja ameaçada. Uma opinião partilhada por outros líderes, como o chanceler alemão, Friedrich Merz. .Trump cancela tarifas à Europa após conseguir de Rutte princípio de acordo para o Ártico.PM dinamarquesa sobre Gronelândia. "Podemos negociar todas as questões políticas, mas não a nossa soberania"