“Ele não é fácil. Mas é isso que o torna extraordinário”, disse o presidente norte-americano, Donald Trump, sobre o líder israelita, Benjamin Netanyahu, num discurso no Knesset, em outubro. Um dos muitos elogios que tem tecido ao amigo “Bibi”, com quem diz trabalhar “muito bem” e que também apelidou de “primeiro-ministro formidável e decisivo em tempo de guerra”. Mas o cessar-fogo com o Irão e o conflito contra o Hezbollah no Líbano têm causado brechas nesta relação, com Trump a chamar Netanyahu de “maluco” num telefonema na semana passada. Após terem lançado juntos a guerra contra Teerão, cada um quer agora seguir por um caminho diferente - o norte-americano a via diplomática, o israelita a beligerante - diante de pressões opostas a poucos meses de eleições decisivas. ."És completamente louco". Trump irritado com Netanyahu em conversa telefónica.Para Trump, a subida do preço dos combustíveis e a participação em mais uma “guerra sem fim”, precisamente o que tinha prometido não fazer, pode custar-lhe votos (e eventualmente a maioria no Senado, na Câmara dos Representantes ou nas duas) nas intercalares de novembro. E também há pressão dos aliados no Golfo, que têm estado na mira de Teerão, para que haja um acordo.Mas, no caso de Netanyahu, é deixar que o Hezbollah e o Irão continuem a representar uma ameaça (e o grupo xiita libanês continua a atacar o norte de Israel com drones e rockets) que lhe pode custar apoio eleitoral nas legislativas (que ainda não têm data, podendo acontecer já em setembro ou, o mais tardar, até final de outubro). Na prática, Trump está à procura de uma saída diplomática para uma guerra que começou - num impulso, segundo alguns, após ser convencido por Israel (o presidente rejeita qualquer pressão) de que isso desencadearia uma rápida mudança de regime e ignorando os alertas em contrário. Já Netanyahu está a ser pressionado a intensificar as operações militares no Líbano, não só pela oposição, mas também pelos aliados mais à direita. O problema para o primeiro-ministro israelita é que isso choca diretamente com aquilo que o líder norte-americano quer. O Irão ameaça não negociar a paz ou a reabertura do Estreito de Ormuz (um problema que não havia antes de ser lançada a Operação Fúria Épica, a 28 de fevereiro) sem um cessar-fogo que inclua também o Líbano. Uma negociação de paz onde Israel não tem lugar à mesa, o que também não caiu bem junto dos israelitas, que começaram esta guerra ao lado dos EUA. Netanyahu, que fez carreira política precisamente vangloriando-se das boas relações com os presidentes dos EUA e tem tentado desvalorizar qualquer tensão com o “amigo” Trump, tem agora que conseguir o equilíbrio correto entre este e a pressão interna. Quando cancelou um bombardeamento a Beirute na semana passada, precisamente após o telefonema em que o líder norte-americano o apelidou de “maluco” - além de lhe ter dito que toda a gente o odiava e a Israel -, ficou debaixo de ataque por mostrar fraqueza. Um bombardeamento mais contido, contra um edifício em Dahiyeh, nos arredores da capital libanesa, acabou contudo por acontecer no domingo (7 de junho), após mais uma ronda de ataques do Hezbollah. O grupo xiita libanês recusou uma nova trégua, negociada entre Beirute e Israel com o apoio dos EUA a meio da semana, e Netanyahu respondeu - apesar da ameaça de Teerão de retaliar e, segundo algumas fontes, sem avisar Washington (outras fontes disseram que o fez). O Irão, como tinha ameaçado, respondeu lançando os primeiros mísseis contra Israel desde o cessar-fogo do início de abril. E quando Trump voltou a telefonar a pressionar para que o primeiro-ministro israelita não retaliasse - quando já corria a informação que ia “responder com força -, Netanyahu não podia repetir o erro passado e tinha que fazer algo.Mas a última coisa que quer é antagonizar o presidente norte-americano (e acabar sozinho a lutar contra o Irão ou qualquer uma das outras frentes em que os seus militares estão envolvidos), optando por ataques cirúrgicos. Mas sempre correndo o risco de ser visto como uma marioneta de Trump que, numa entrevista ao Financial Times, não hesitou em dizer que Netanyahu vai aceitar qualquer acordo que faça com o regime iraniano: “Ele não terá escolha”, disse Trump sobre Netanyahu. “Eu é que mando. Eu tomo todas as decisões.”