Em Washington, o jogo de apontar o dedo ao próximo para responsabilizar quem deixou os stocks de munições de mísseis em níveis baixos começou na presidência e terminou, para já, no vice-secretário, quando se tornou público que as forças norte-americanas também usaram "praticamente todos" os mísseis de ataque de alta precisão e que foi realizada uma reunião de emergência para responder ao problema. Se perguntarem ao presidente dos Estados Unidos sobre a falta de reservas de munições estratégicas, ele responderá em público, como o fez na segunda-feira: "Temos muito mais munições do que qualquer outro país no mundo, e muito mais do que precisamos", disse Donald Trump ao Wall Street Journal na segunda-feira. Poderá ser, mas não falta quem ligue os pontos entre o inventário reduzido e as recorrentes ameaças ao Irão que acabam por não se concretizar. Aconteceu pela última vez há uma semana. O presidente terá dado indicações ao secretário da Guerra para avançar e depois reverteu a ordem. Segundo o próprio, o "maior ataque desde a Segunda Guerra" não foi avante porque Teerão pedira a reabertura de negociações.Porém, contaram diversas fontes à Reuters, os países aliados dos EUA na região assustaram-se com a ameaça do ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, que prometeu retaliar contra as infraestruturas energéticas dos países do Golfo. Os seus líderes, com o saudita Mohammed bin Salman à cabeça, pressionaram Trump para prosseguir a via diplomática. No mês passado, um ataque à base aérea Muwaffaq Salti, na Jordânia, na qual morreram três militares dos EUA, expôs mais uma vez os limites das defesas aéreas para proteger os seus próprios homens e ativos militares, quanto mais dezenas ou centenas de possíveis alvos relacionados com o setor energético. .No próprio dia em que terá andado para a frente e para trás com o ataque ao Irão, Trump manteve uma discussão com o secretário da Guerra, Pete Hegseth, sobre a questão dos stocks dos mísseis, reporta o Washington Post. Segundo duas fontes, o presidente dos EUA disse a Hegseth ter a ideia que a questão das munições “tinha sido resolvida”. Ao que o secretário, ex-comentador da Fox News, passou as responsabilidades para o seu número dois, Stephen Feinberg, quer pela carência de munições e quer por não ter garantido que Trump estivesse totalmente a par da situação. Feinberg é um empresário de 66 anos que tem investido no complexo industrial-militar, como por exemplo em mísseis hipersónicos. Depois de Hegseth ter apontado para o seu vice, este terá recebido um telefonema de um enfurecido Trump, conta a NBC News. Em seguida, Feinberg terá reunido funcionários do Pentágono e altas patentes para uma reunião de emergência com o objetivo de acelerar o reabastecimento de mísseis.A porta-voz da Casa Branca Karoline Leavitt reagiu ao Post, afirmando que a notícia sobre a exasperação de Trump em relação ao secretário da Guerra é "100% fake news".Durante uma audiência no Senado, no mês passado, ao ser confrontado com o número de munições em baixo, Hegseth responsabilizou o ex-presidente Joe Biden pela situação. Mas nada disto é novo. Dias antes de ter decidido levar o seu país para uma nova guerra com o Irão, depois dos 12 dias de hostilidades no ano passado, em aliança com Israel, Trump foi advertido para os perigos em que incorria. Não foi Hegseth — um entusiasta da guerra —, mas o chefe do Estado-Maior das forças conjuntas, Dan Caine, quem fez o alerta para a questão das munições, bem como para a previsível falta de apoio dos aliados, como na altura noticiou o Axios.Se a situação era preocupante antes de 28 de fevereiro, pior ficou. Segundo o Center for Strategic and International Studies (CSIS), os EUA ficaram expostos a um risco de curto a médio prazo ao verem os mísseis intercetores Patriot reduzidos a um número estimado de 759 a 827 quando antes de 28 de fevereiro eram 2300, e os Terminal High Altitude Area Defense (THAAD), que eram 452, serão agora entre 234 e 278. Perante estes números, a doutrina dos EUA de estar em condições de sustentar a defesa em dois teatros de guerra em simultâneo está em xeque. Mas há mais: no que respeita às munições de ataque, o panorama também não é brilhante. Ao Senado, Hegseth disse que até 23 de junho os EUA tinham usado 13800 mísseis, num custo de 7,5 mil milhões de dólares (6,5 mil milhões de euros) num total de 37,5 mil milhões de gastos (32,5 mil milhões de euros). Na ocasião, reconheceu que a reposição dos mísseis levaria "meses e anos" e pediu aos congressistas — que, ao arrepio da lei, não autorizaram o presidente a iniciar a guerra — para aprovarem um pacote de financiamento suplementar de 67 mil milhões (58 mil milhões de euros). Até então tinham sido lançados de navios e submarinos cerca de mil Tomahawk, o que equivale a quase metade do total que a Marinha dispõe. Soube-se pela Reuters, na terça-feira, que o inventário de outros dois sistemas de mísseis, estes de superfície-superfície, Army Tactical Missile Systems (ATACMS) e Precision Strike Missiles (PrSM), está também "praticamente" exaurido, disseram três fontes. Porém, nenhuma adiantou dados concretos.Isto significa que os EUA estão sem poder de fogo? De modo algum. O que falta às forças norte-americanas são reservas de mísseis defensivos e mísseis de ataque de precisão. Como nota o CSIS, os Estados Unidos têm alternativas para bombardear adversários. Em grande número e mais baratas, caso da bomba guiada JDAM. Dotado da mesma precisão e potência explosiva que o Tomahawk, porém, como nota o think tank, o seu curto alcance obriga a sobrevoar território inimigo, expondo os aviões às defesas aéreas.Mulheres de militares deportadasNoutra guerra da administração Trump, contra a imigração, uma consequência inesperada dos raides da agência ICE são os efeitos produzidos nas forças militares. Uma investigação da Associated Press contabiliza mais de meia centena de mulheres e parentes diretos de militares no ativo detidos desde o início do mandato de Trump. Isto rompe com um consenso político que proporcionava proteção a essas pessoas. Entre os 52 detidos que a AP identificou, pelo menos seis foram deportados e um abandonou o país. Outros oito permanecem sob detenção nos serviços de imigração. Apesar de o total de envolvidos ser uma pequena minoria entre o total das forças armadas, especialistas ouvidos pela agência alertam para um problema de prontidão militar nas unidades em que estão destacados. Além da dimensão psicológica, parte significativa dos militares è obrigada a tirar licença para cuidar dos filhos. “Como é que eu consigo sequer focar na minha carreira militar se tenho de me preocupar com a minha mulher?”, disse à AP o sargento Hedar Juarez, cuja mulher foi detida no mês passado em frente da filha de seis anos..Trump nega escassez de mísseis e ameaça com prisão para quem divulgar informações sobre arsenais dos EUA