Troca de favores por dinheiro? Embaixadora Kimberly Guilfoyle, ex-noiva de Trump Jr, apanhada em nova polémica
A embaixadora dos EUA na Grécia, Kimberly Guilfoyle, antiga noiva do filho mais velho de Donald Trump, está debaixo de fogo depois de ter sido acusada de pedir a um doador republicano que lhe pagasse uma dívida de 100 mil dólares em troca de acesso privilegiado ao universo político do presidente. E esta não é a única polémica a envolver o seu nome.
O jornal The Wall Street Journal revelou, a 7 de outubro, que Guilfoyle contactou, em julho de 2025, o empresário e doador republicano Eric Deters, poucos dias antes da audição no Senado que deveria confirmar a sua nomeação para o cargo de embaixadora.
Nas mensagens divulgadas pelo jornal, Guilfoyle pedia-lhe que transferisse 100 mil dólares diretamente para a American Express, alegadamente para liquidar uma dívida de cartão de crédito.
"Não aparecerá em lado nenhum se fizeres uma transferência para a American Express", escreveu, de acordo com uma das mensagens reproduzidas pelo jornal. "Querido, por favor, preciso que resolvas isto por mim ainda hoje", dizia outra, acompanhada de um documento PDF com instruções para fazer o pagamento.
Deters alega que o pedido fazia parte de uma relação de troca de favores. Em declarações à CBS e à ABC News, afirmou não ter dúvidas de que se tratava de um esquema de “quid pro quo” e de “pay to play” -- literalmente "pagar para brincar ou para jogar".
Segundo o doador, que garante que nunca chegou a transferir o dinheiro (alegando que isso lhe custaria o casamento), Guilfoyle prometeu-lhe acesso a figuras influentes da administração Trump e ajuda para resolver problemas fiscais e judiciais.
A embaixadora nega qualquer pedido impróprio ou tentativa de troca de influência política por dinheiro. O seu advogado, Jesse Binnall, contestou a autenticidade das mensagens (apesar de terem sido divulgadas pelo próprio Deters).
Também alegou que qualquer valor mencionado poderia estar relacionado com reembolsos de despesas ou compromissos profissionais anteriores. Deters pagou a Guilfoyle, no passado, para falar em eventos contra o uso de máscaras durante a Covid, por exemplo.
Este episódio ocorreu antes de Guilfoyle assumir o cargo de embaixadora. A ex-mulher do atual governador democrata da Califórnia, Gavin Newsom, tornou-se apresentadora da Fox News já depois do divórcio, em 2006.
Depois disso, surgiu como uma das principais figuras do círculo de Donald Trump, tendo um papel importante na campanha presidencial de 2020, sobretudo na angariação de fundos e em eventos eleitorais.
Foi nomeada para a embaixada em Atenas em dezembro de 2024 (a confirmação só aconteceria em setembro de 2025), depois de terminar a relação que manteve durante vários anos com Donald Trump Jr. (tinham ficado noivos no final de 2020).
Houve mesmo comentadores norte-americanos que falaram de um "prémio de consolação", depois de terem sido reveladas fotos do filho mais velho do presidente com Bettina Anderson (com quem se casou já em maio deste ano).
Reação em Washington
A polémica com a embaixadora dos EUA na Grécia chegou em plena visita oficial do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, ao país.
Rubio recusou comentar diretamente as acusações. "O nosso trabalho não é reagir sempre que alguém decide entregar algo à comunicação social sem qualquer aviso prévio, sem nos dar oportunidade de o analisar e de perceber o que lá está", afirmou aos jornalistas já na despedida de Atenas.
"Por isso, não vou comentar uma notícia que foi publicada literalmente há apenas algumas horas", acrescentou o secretário de Estado.
"Obviamente, não gosto nada dessa ideia", afirmou por seu lado o vice-presidente dos EUA, JD Vance, quando um jornalista lhe perguntou se tinha alguma reação perante um cenário em que um embaixador norte-americano tentasse trocar acesso político por dinheiro. O jornalista não mencionou especificamente o nome de Guilfoyle.
"Claro que não gosto da ideia de alguém vender acesso a outro responsável governamental, especialmente a um responsável de alto nível", acrescentou Vance. "Imagino que esteja a referir-se a um caso concreto, mas não posso dizer com certeza que esse caso seja realmente como o está a descrever", concluiu na quinta-feira (8 de outubro).
Embora o caso não envolva diretamente o presidente norte-americano, surge num momento delicado para a equipa de Trump (a menos de um mês das eleições intercalares nos EUA) e alimenta críticas democratas sobre possíveis conflitos entre poder político, interesses privados e relações pessoais dentro do círculo presidencial.
O congressista democrata Gregory Meeks já pediu esclarecimentos formais ao Departamento de Estado e defendeu que Guilfoyle deve ser afastada caso as alegações sejam confirmadas.
Polémica anterior
Esta não é, aliás, a primeira polémica recente da embaixadora. Em setembro, outra investigação do Wall Street Journal relatou que Guilfoyle terá feito comentários controversos durante um jantar em Atenas, em março, perante responsáveis gregos e norte-americanos.
Segundo o jornal, ao discutir a crise política na Roménia (que culminaria semanas depois na queda do governo do primeiro-ministro Ilie Bolojan), a diplomata terá sugerido que os EUA tinham capacidade para influenciar mudanças políticas noutros países, acrescentando: "Podemos fazer isso a qualquer país que quisermos. Podemos fazê-lo aqui".
A alegada declaração foi prontamente contestada pelo ministro grego da Energia, Stavros Papastavrou, que, segundo a mesma investigação, respondeu que Washington não podia substituir um governo democraticamente eleito na Grécia.
As revelações suscitaram reações tanto na Grécia como na Roménia.
Em Atenas, os partidos da oposição exigiram esclarecimentos ao governo de Kyriakos Mitsotakis. O porta-voz do executivo, Pavlos Marinakis, afirmou que qualquer sugestão de interferência norte-americana seria inaceitável e sublinhou que as relações entre Atenas e Washington assentam no respeito mútuo.
Em Bucareste, a notícia também gerou preocupação, gerando interrogações sobre a eventual influência norte-americana nos acontecimentos políticos do país.
Os líderes dos dois partidos que acabaram por votar pela destituição do governo de Bolojan (que caiu a 5 de maio numa moção de censura), Sorin Grindeanu, dos Social-Democratas (PSD), e George Simion, da Aliança para a União dos Romenos (AUR), rejeitaram qualquer sugestão de envolvimento dos EUA.
Além das questões políticas, a mesma investigação levantou ainda dúvidas sobre a proximidade de Guilfoyle a interesses empresariais gregos, ao referir a sua relação com o lóbi ligado ao grupo de construção e energia Aktor Group.
Segundo o Wall Street Journal, um lobista da empresa acompanhou a embaixadora em várias reuniões oficiais, o que levou democratas no Congresso norte-americano a pedirem uma investigação também a esse caso. Guilfoyle e os restantes envolvidos negaram qualquer irregularidade.

