As previsões de forte contestação social ao congresso nacional da Alternativa para a Alemanha (AfD) confirmaram-se este sábado ao fim do dia nas ruas de Erfurt, no estado da Turíngia. O forte dispositivo policial que estava montado acabou por entrar em confronto direto com grupos de manifestantes para desimpedir os eixos rodoviários e as linhas de transporte público que dão acesso ao centro de convenções Messe Erfurt.Segundo dados oficiais avançados pela polícia local, a mobilização anti-AfD reuniu entre 20.000 e 31.000 pessoas, embora os movimentos integrados na aliança de protesto Widersetzen ("Resistir") apontem para mais de 50.000 participantes. A estratégia de contestação passou pelo bloqueio físico das artérias da cidade, com centenas de ativistas a realizarem "sentadas" no asfalto e alguns elementos a fazerem rappel a partir de pontes em autoestradas circundantes, paralisando o tráfego regional.Perante a recusa de desmobilização, as forças de segurança — reforçadas com contingentes de choque de vários estados federais — recorreram ao uso de bastões e gás pimenta para quebrar as barreiras humanas. Apesar das escaramuças e de momentos de maior tensão física, o comando operacional da polícia classificou o balanço geral do dia como maioritariamente pacífico, registando menos de 100 infrações penais por danos materiais e desobediência.Liderança reeleita sem contestação internaApesar da escala dos protestos no exterior, a comissão organizadora da AfD conseguiu antecipar-se aos bloqueios. A vasta maioria dos cerca de 600 delegados contornou as barreiras ao entrar no recinto ainda antes das 05h00 da manhã, garantindo que os trabalhos políticos arrancassem de forma normalizada.No plano interno, o congresso traduziu-se num reforço da atual liderança bicéfala do partido de extrema-direita. Alice Weidel foi reeleita copresidente federal com 81% dos votos dos delegados, enquanto Tino Chrupalla assegurou a sua continuidade no cargo com 70% dos votos. Ambos os dirigentes concorreram sem oposição interna.No seu discurso de vitória, Chrupalla criticou duramente os manifestantes que cercavam o edifício, acusando-os de tentarem subverter os processos democráticos. "Eles acreditam que detêm o monopólio da democracia", afirmou, sublinhando que os protestos de rua são "o último recurso" dos partidos tradicionais face ao crescimento da AfD. Por sua vez, Weidel declarou que o partido se transformou no "verdadeiro partido do povo na Alemanha" e reiterou a ambição de chegar ao governo federal.O peso do calendário e das sondagensA contestação em Erfurt foi amplificada por um forte simbolismo histórico. O início deste congresso coincide com o centenário de uma reunião crucial realizada pelo Partido Nazi em 1926 na cidade vizinha de Weimar, um paralelo histórico que os manifestantes fizeram questão de destacar nos seus cartazes. A liderança da AfD, contudo, rejeitou qualquer comparação, classificando-a como uma tentativa de diabolização por parte dos seus adversários.O partido lidera atualmente as sondagens de intenção de voto a nível nacional com cerca de 27%, posicionando-se à frente da aliança conservadora CDU/CSU. O congresso deste fim de semana serve de rampa de lançamento para as eleições estaduais da Saxónia-Anhalt e de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, marcadas para 6 de setembro, onde a extrema-direita ambiciona conquistar maiorias que forcem a rutura do "cordão sanitário" político imposto pelos restantes partidos alemães..Congresso da AfD: forte dispositivo policial em Erfurt sob ameaça de protestos massivos