A sensação é de déjà-vu, com o primeiro-ministro francês, François Bayrou, ameaçado por uma moção de censura um mês depois de tomar posse. O chefe do governo pronuncia esta terça-feira, a partir das 14.00 em Lisboa, o discurso de política geral na Assembleia Nacional. E já sabe que a esquerda radical vai pedir a sua censura - discutida provavelmente logo na quinta-feira. Para evitar o mesmo desfecho do antecessor, Michel Barnier, Bayrou poderá tentar apaziguar o resto da esquerda com a suspensão da polémica reforma das pensões de 2023. Mas, ao fazê-lo, corre o risco de alienar a direita. O discurso de política geral, como o nome indica, permite ao primeiro-ministro em início de mandato revelar as grandes linhas do seu programa em matéria política, económica, social e institucional. No final do discurso, o chefe do Governo pode pedir um voto de confiança à Assembleia Nacional, mas este não é obrigatório. Bayrou já anunciou que não o fará, como aliás os predecessores, mas a A França Insubmissa (LFI, na sigla original) já disse que vai avançar para uma moção de censura. Para evitar ter um mandato ainda mais curto que Barnier (91 dias), o primeiro-ministro está a tentar atrair os socialistas, os comunistas e os ecologistas - que, junto com a LFI, formam a Nova Frente Popular (NFP). Todos defendem a revogação da polémica mudança à lei das pensões que, entre outras coisas, aumentou a idade de reforma dos 62 para os 64 anos (previsto para acontecer de forma progressiva até 2030). Mas os primeiros parecem dispostos a aceitar uma suspensão que “congelasse” essa alteração nos atuais 62 anos e meio. Nas negociações para formar governo, Bayrou tinha proposto reabrir a discussão sobre a reforma das pensões até setembro. Findo esse prazo, e se não houvesse alternativa, a França voltaria à reforma de 2023. Agora, poderá estar em cima da mesa uma “pausa” para fazer essa discussão. A LFI critica a estratégia dos parceiros, com Jean-Luc Mélenchon a avisar que “aqueles que recusam a censura validam o golpe” de Emmanuel Macron. A NFP tem a maior bancada na Assembleia, mas o presidente recusou chamá-la a formar governo. O problema para Bayrou é que qualquer alteração à reforma de pensões poderá custar-lhe o apoio da direita. O líder d’Os Republicanos no Senado, Gérard Larcher, disse este fim de semana ao Le Parisien que o partido não quer “nem suspensão nem revogação” da reforma. A ex-ministra do Orçamento Valérie Pécresse foi mais longe ao avisar que se a reforma for suspensa “a direita não poderá mais participar no executivo, porque este irá contra os valores que defende”. Também o Horizontes se mostra contra a proposta, falando nos custos que isso terá. Suspender a reforma implicaria ter menos três mil milhões de euros nos cofres da Segurança Social em 2025 - um pesadelo para quem tem que acertar as contas públicas, após 2024 acabar com 6% de défice. Apesar de esta reforma ser um dos principais legados de Macron, o seu partido Renascimento parece agora disposto ao compromisso. Na extrema-direita, o Reunião Nacional (RN) nunca escondeu a sua oposição à reforma - o líder do partido, Jordan Bardella, considera-a “injusta no plano social e ineficaz no plano económico”. Mas o partido aproveita esta discussão para criticar os socialistas, considerando que fazem crescer as expectativas de uma possível suspensão da reforma que nunca acontecerá. E deixam o aviso ao governo, alegando que Barnier caiu (com o voto do RN) porque apresentou um “orçamento socialista” e que “as mesmas causas levariam aos mesmos efeitos”.Mesmo que consiga sobreviver à moção de censura após o discurso de política geral, Bayrou não se livra ainda do pesadelo. O próximo desafio será o projeto de lei das Finanças, ponto de partida para o orçamento deste ano. Precisamente o que fez cair o seu antecessor. susana.f.salvador@dn.pt