"Sublinho a coragem de Guterres ao dizer aos russos que o que tinham feito era violar a lei internacional"

Antigo alto funcionário das Nações Unidas, Victor Ângelo elogia a reação do secretário-geral à invasão da Ucrânia pela Rússia. E diz que quem em Portugal pensa que não deveríamos fazer parte da NATO ou da UE está completamente fora do quadro de pensamento que seria lógico.

José Victor da Silva Ângelo nasceu há 72 anos e já testemunhou o pior que o ser humano pode fazer. Estudou Sociologia em Évora e em Bruxelas, trabalhou no Instituto Nacional de Estatística e na Comissão Nacional de Eleições, mas dedicou mais de metade da vida de trabalho à Organização das Nações Unidas. Integrou diversas missões de paz, chefiou programas de desenvolvimento, foi o representante especial do secretário-geral das Nações Unidas Ban Ki-moon e, nessa qualidade, foi também aquilo a que se pode chamar um secretário-geral adjunto. Reformou-se da ONU há pouco mais de dez anos, é um observador atento do mundo, reflete sobre isso em diversas publicações e em grupos de reflexão, como o Centro Norte-Sul do Conselho da Europa.

Quem é que deveria ser o mediador das negociações entre a Rússia e a Ucrânia?


Gostava imenso de poder responder a essa pergunta porque, na realidade, a situação em que nos encontramos - que é uma situação extremamente grave e que se tem agravado de dia para dia -, precisa de uma mediação. Normalmente, o mediador deveria ser alguém nomeado pelo secretário-geral das Nações Unidas e que fosse aceite por ambas as partes. Mas, neste momento, não vejo essa possibilidade poder materializar-se. Não penso que seja possível por várias razões. Uma delas porque o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, é visto pela parte russa como estando muito próximo das posições ocidentais, nomeadamente das posições americanas, e, por outro lado, o próprio presidente da República da Rússia, Vladimir Putin, considera que o secretário-geral e o Secretariado das Nações Unidas são estruturas ao serviço dos Estados membros e não capazes de estar ao mesmo nível, em termos de facilitar uma mediação. Por isso, a hipótese mais recomendável seria encontrar um Estado membro das Nações Unidas que pudesse fazer essa mediação.

A China, por exemplo?

Falou-se da China, é verdade. Se me tivesse feito essa pergunta há dois ou três dias, diria que a China era, de facto, uma possibilidade. Simplesmente, nas últimas 24 horas, a posição chinesa tem-se radicalizado bastante no que diz respeito a ataques sucessivos aos interesses americanos na Europa e a aproveitar a crise que existe neste momento na Ucrânia para atacar os Estados Unidos. E, nesse caso, será muito difícil que os Estados Unidos aceitem a China como mediador. A China poderia ser um mediador possível se fosse aceite por ambas as partes, mas vejo muitas dificuldades nisso. A minha sugestão era que houvesse não só um país a fazer a mediação, mas que fosse um tandem de países, ou seja, a China e um outro país que não fosse nem europeu nem membro da NATO, mas que fosse aceite quer pelos russos quer pelos americanos e europeus. É nesta situação que nos encontramos, sobretudo tendo em conta que as negociações diretas entre a delegação russa e a delegação vinda de Kiev muito provavelmente não irão chegar a nenhuma conclusão. Por isso será, muito provavelmente, necessário preparar o terreno para que haja um acordo entre ambas as partes e esse preparar o terreno quer dizer trabalho de mediação.

"É inédito um secretário-geral ter a ousadia de dizer que um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança está a violar a lei internacional. É algo nunca visto na história das Nações Unidas."

Já afirmou que António Guterres é visto, neste momento, como alguém que quebrou a neutralidade. Num artigo do Diário de Notícias, logo muito em cima do início da guerra na Ucrânia, afirmou que Guterres teve uma frontalidade histórica como secretário-geral, erguendo a voz e criticando um dos países com direito de veto, algo praticamente inédito na história das Nações Unidas. Duas perguntas numa: por um lado, isso mostra a personalidade de António Guterres, que podemos aplaudir, por outro, dificulta esse tal papel mediador que poderia ter?
Exato. Sublinharia, primeiro, a coragem que António Guterres teve ao dizer claramente que o que os russos tinham feito era uma violação da lei internacional, atacava diretamente a soberania de um Estado membro das Nações Unidas e, por isso, era inaceitável. Penso que isso é, sobretudo, muito corajoso, até porque António Guterres estava a referir-se diretamente a um país que é membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Como disse, e como escrevi nessa altura, de facto é inédito um secretário-geral ter a ousadia de dizer que um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança está a violar a lei internacional. É algo nunca visto na história das Nações Unidas. Por outro lado, é evidente que uma tomada de posição desse género incompatibiliza, imediatamente, o Estado membro referido por António Guterres e torna mais difícil o seu papel de mediador. Apesar de tudo, penso que António Guterres deveria nomear um representante especial para acompanhar o processo da Ucrânia e tentar também uma função de bons ofícios, de modo a facilitar a comunicação entre a Ucrânia e a Rússia, por um lado, e também a comunicação entre a Rússia e os restantes membros permanentes do Conselho de Segurança, por outro, porque é fundamental que o diálogo volte a ser restabelecido. Neste momento, um grande problema que temos é que não há diálogo ao nível dos membros permanentes do Conselho de Segurança, e não havendo diálogo - mesmo que seja um diálogo de surdos -, é importante que haja diálogo, é importante que as pessoas se encontrem. E não havendo diálogo, é muito mais fácil chegar a uma situação de escalada permanente da crise.

Isso vem levantar a questão da eficácia do atual modelo e do próprio funcionamento do Conselho de Segurança, e a regra dos vetos e dos membros permanentes. Tivemos o tal tom de voz do secretário-geral das Nações Unidas, vimos a votação, os 11 votos em 15 do Conselho de Segurança, a condenar a invasão russa. Vimos a Assembleia Geral das Nações Unidas com uma maioria muito expressiva também na condenação. Nada acontece. Há forma de manter este modelo ou, de facto, é tempo de mudar? E o que é que mudaria primeiro?
Todos sabemos que o modelo está ultrapassado e que é um modelo que corresponde ao mundo em 1945. Não corresponde ao mundo em 2022, certamente. Já não correspondia ao mundo há 30 anos quando caiu o Muro de Berlim. Depois da queda do muro, houve alguma expectativa e otimismo de que seria, talvez, possível reformar o Conselho de Segurança e isto queria dizer, fundamentalmente, duas coisas: por um lado, rever a composição do Conselho de Segurança de modo que outros países pudessem também ter assento permanente no Conselho de Segurança e fazer que, por exemplo, o continente africano tivesse um representante permanente; que a Ásia tivesse - além da China - um outro representante permanente; a América Latina a mesma coisa. Portanto, uma das preocupações nessa altura e uma das razões para haver otimismo é que talvez fosse possível alterar a composição do Conselho de Segurança, o que não foi possível. Estive em várias reuniões e processos em que se tentou fazer isso e fui destacado para conversar com vários Estados membros que poderiam, eventualmente, vir a fazer parte do Conselho de Segurança de modo permanente, mas isso não deu qualquer resultado. E a segunda grande questão era a questão do veto, em que se procurou reduzir o número de situações em que veto podia ser utilizado e, sobretudo, fazer que o veto não fosse utilizado por um Estado membro permanente do Conselho de Segurança quando fossem as suas ações que estivessem em jogo. Quando fosse uma resolução, por exemplo, que dissesse respeito aos Estados Unidos ou à Rússia ou à China, que esse país não votasse na altura do voto da resolução. Tudo isto foi tentado. Houve uma certa esperança de que pudesse resultar, mas a verdade é que não se conseguiu e aquilo a que assistimos foi à continuação de um Conselho de Segurança que não corresponde de modo algum à relação de forças atual no mundo de hoje e, por outro lado, um Conselho de Segurança que está cada vez mais dividido. O Conselho de Segurança começou a dividir-se quando foi a primeira resolução sobre o Iraque, em 2003. Continuou a dividir-se quando foi a questão da Líbia e, depois, dividiu-se imenso com as discussões e a tentativa de fazer adotar resoluções sobre a Síria e, hoje, o Conselho de Segurança é um conselho partido ao meio. E um Conselho de Segurança dividido e que não consegue adotar resoluções em relação a conflitos que são de importância extraordinária para a paz internacional é um Conselho de Segurança que não funciona e isso tem, evidente e imediatamente, um grande impacto sobre o funcionamento do Secretariado das Nações Unidas.

Há alguma circunstância em que a Assembleia Geral das Nações Unidas possa puxar a si o poder e rever essas regras?
Não. O que a Assembleia Geral das Nações Unidas pode fazer foi o que fez nestes últimos dias e na votação de ontem, que é votar uma resolução que não tenha sido aprovada no Conselho de Segurança por causa de um veto de um dos membros do Conselho. Assim, esse projeto de resolução vai à Assembleia Geral que precisa de aprovar essa resolução com uma maioria de dois terços - que foi o que aconteceu também desta vez -, e essa resolução é aprovada, mas não tem força vinculativa, não tem aplicação como lei internacional. Tem apenas, e considero que isso é muito importante, uma autoridade moral muito grande, o que significa que a grande maioria dos países membros da Assembleia Geral das Nações Unidas não estão de acordo com aquilo que o Estado membro em causa fez ou está a fazer.

"Quando criticamos as Nações Unidas é preciso ter muito cuidado porque, em muitas áreas, as Nações Unidas não só desempenham um papel fundamental, como o desempenham de uma forma muito eficiente."

Muitas vezes falamos sobre esta incapacidade da ONU de resolver problemas, no sentido em que o Conselho de Segurança e o sistema de vetos paralisam tudo. Mas, ao mesmo tempo, temos a OMS, temos o Alto-Comissariado para os Refugiados, temos o Programa Alimentar Mundial, ou seja, mesmo neste momento na Ucrânia, várias dessas agências da ONU estarão já a trabalhar no terreno e no futuro ainda mais para minorar o sofrimento da população. Portanto, não está em causa que a ONU é uma organização extremamente útil?
Não, a ONU tem dimensões que funcionam perfeitamente e que são de grande utilidade. Aliás, a ONU é um sistema multidimensional. Quando estamos a falar do Conselho de Segurança e do facto de este ter imensas dificuldades em resolver conflitos, estamos a falar da área da paz e da segurança internacional. Nas áreas, por exemplo, da saúde, do apoio aos refugiados, do desenvolvimento, da alimentação, ou mesmo nas áreas mais técnicas como, por exemplo, da aviação civil, da meteorologia ou das telecomunicações, as Nações Unidas desempenham um papel fundamental e indispensável. Por isso, quando criticamos as Nações Unidas é preciso ter muito cuidado porque, em muitas áreas, as Nações Unidas não só desempenham um papel fundamental, como o desempenham de uma forma muito eficiente. E, por isso, as Nações Unidas como sistema são muito importantes e é através desse sistema que se faz a cooperação e que se estabelecem normas mundiais. Mas na área da manutenção da paz e da segurança internacional, quando os interesses de um dos membros permanentes estão em causa, aí é que encontramos imensas dificuldades em fazer avançar o trabalho das Nações Unidas. Na realidade, estamos a falar de um pilar importante que é o pilar da paz e da segurança. Foi o pilar inicial das Nações Unidas e foi para isso que foram criadas, mas fora esse pilar há todos os outros, desde os direitos humanos ao desenvolvimento, à ajuda humanitária e à questão das normas internacionais. Todos esses pilares funcionam bastante bem.

Na sua experiência ao serviço da ONU, África esteve muito presente. Viveu e trabalhou em muitos desses países africanos, tanto lusófonos como francófonos ou anglófonos, portanto, com uma diversidade enorme. Viu também muito o resultado de guerras e destruição, viu muita necessidade de refazer países. Quando imagina a Ucrânia depois desta guerra - dure ela muito ou pouco tempo -, quando imagina a necessidade de reconstruir um país e de sarar as feridas entre dois beligerantes, a sua experiência em África diz que isto é muito difícil?
É sempre muito difícil reconstruir. É mais fácil e rápido destruir do que reconstruir. Simplesmente, no caso da Ucrânia é um país que tem, à partida, duas grandes vantagens: a primeira é que tem uma população muito bem formada, com um nível educacional muito elevado e, por isso, o capital humano da Ucrânia é uma vantagem importantíssima na reconstrução do país. E a segunda grande vantagem - penso que não devemos ter ilusões em relação a isso - é que no dia em que a paz voltar à Ucrânia, a ajuda internacional e, nomeadamente, a ajuda vinda da União Europeia, será de tal maneira importante que isso permitirá uma recuperação relativamente rápida da situação na Ucrânia. Infelizmente, nos países africanos esses dois fatores não estão totalmente presentes. Temos na maior parte dos países africanos uma população que tem um nível educacional muito baixo, tem qualificações profissionais muito fracas e, por outro lado, a ajuda ao desenvolvimento a esses países - embora seja uma ajuda relativamente importante - não está, de maneira nenhuma, à altura das necessidades que esses países têm. Ou seja, vou continuar a ver, em relação aos países africanos, uma situação de diferença e de disparidade em relação àquilo que se passa nos países do norte. Continuamos a ter um mundo dividido entre aqueles que estão em situação de grande subdesenvolvimento e de grandes dificuldades e aqueles que, por várias razões, são hoje países desenvolvidos.

Antes de rumarmos para outros temas, deixe-me perguntar-lhe outra coisa: conseguimos imaginar nesta altura que essa reconstrução seja feita num país com a integridade territorial que tem agora ou está mais tentado a antever alterações até ao nível das fronteiras?
Penso que um dos objetivos de Vladimir Putin é alterar as fronteiras da Ucrânia e penso que um dos objetivos claros é conquistar todo o Donbass. Portanto, não se limitar apenas ao território que, neste momento, é controlado pelos separatistas que são apoiados pelos russos.

"Penso que um dos objetivos de Putin é alterar as fronteiras da Ucrânia e penso que um dos objetivos claros é conquistar todo o Donbass. Portanto, não se limitar apenas ao território que, neste momento, é controlado pelos separatistas que são apoiados pelos russos."

Quando diz conquistar é integrar na Rússia ou manter as tais repúblicas populares?

Ter uma situação de aparência, digamos assim, em que se criam duas repúblicas aparentemente independentes, mas que na verdade são totalmente subordinadas ao poder do Kremlin e que, para sobreviver, precisarão da ajuda maciça do Kremlin e da Rússia. Mas esse é um dos objetivos, fazer que o Donbass do futuro coincida com aquilo que são as fronteiras constitucionais definidas pela Ucrânia, ou seja, passar de uma situação em que os separatistas controlam apenas um terço do território para uma situação em que passarão a controlar todo o território. Um outro objetivo que parece ser cada vez mais claro é transformar a Ucrânia num país sem acesso ao mar. Aparentemente, os russos querem conquistar toda a parte da Ucrânia que liga o Donbass à Crimeia, ao longo da costa, e da Crimeia até Odessa, também ao longo da costa. Isso significaria que a Ucrânia deixaria de ter acesso ao mar de Azov e deixaria de ter acesso ao mar Negro.

Voltando um pouco à sua experiência em África em que lidou com líderes fortes como o zimbabweano Robert Mugabe, por exemplo, a personalidade de um líder consegue definir o rumo que esse país segue? Ou seja, esta Rússia é muito a Rússia de Putin?
Sempre considerei a liderança uma questão fundamental. O líder marca o país, sobretudo se se trata de uma situação de alguma autocracia, ou seja, se estamos numa situação em que o poder absoluto é possível. E é o caso da Rússia neste momento. Aliás, as fotografias que vemos em relação à Rússia, em que o presidente se encontra, por exemplo, com o seu ministro da Defesa e com o seu chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, são fotografias que mostram claramente quem é que manda e quem é que obedece. E mostram, claramente, que o presidente da República está num patamar muito acima dos outros. Temos aqui uma situação em que Vladimir Putin é o líder incontestável da Rússia e a personalidade de Putin é determinante na tomada de decisões e na orientação que é dada à política interna e externa do país. Por isso, a questão da liderança é muito importante. Muitas vezes não temos isso em linha de conta e pensamos que nestes países são as instituições do Estado que tomam as decisões e que asseguram o funcionamento da democracia e do Estado, mas na realidade tudo é definido ao nível central e tudo é definido, sobretudo, pela pessoa que detém o poder. Ou, quando não é decidido pela pessoa que detém o poder, é decidido por pessoas que procuram tomar decisões pondo-se na situação do líder, ou seja, acabam por ser mais radicais e mais excessivos do que o próprio líder.

"Aparentemente, os russos querem conquistar toda a parte da Ucrânia que liga o Donbass à Crimeia, ao longo da costa, e da Crimeia até Odessa, também ao longo da costa."

E viu esse traço em alguns dos líderes com que teve de lidar?
Vi esse traço em vários líderes. O primeiro líder com que tive de lidar e de quem, provavelmente, muita gente já não se lembrará, foi Jean-Bédel Bokassa, o imperador da que é hoje a República Centro-Africana. E Bokassa era um líder extremamente original, por um lado, mas por outro extremamente vivo na maneira como se exprimia e na maneira como conseguia fazer passar as mensagens. E a verdade é que dominava completamente o círculo à volta dele e através desse círculo dominava completamente o país. Era uma pessoa que tinha qualidades pessoais excecionais no sentido de liderança. Tinha carisma e conseguia através desse carisma e dessa maneira de se relacionar com os outros impor tudo aquilo que queria e que lhe passava pela cabeça, incluindo o facto de querer ser coroado imperador.

E neste caso como compara Vladimir Putin com Volodymyr Zelensky? Estamos aqui a falar de ex-espião e de um ex-ator cómico.
Estamos a falar, sobretudo, de dois líderes de países. Estamos a falar de Putin como líder de um país que não é democrático e estamos a falar de Zelensky como líder de um país em que foi eleito com mais de 70% dos votos.

Portanto, o passado dele já está apagado?

Penso que a partir do momento em que alguém é eleito com mais de 70% dos votos, e temos de acreditar na democracia e no voto popular, essa pessoa tem toda a legitimidade para ser presidente. Parece um erro insistir em dizer que essa pessoa era comediante ou coisa assim. Ele era aquilo que era na altura, mas a verdade é que conseguiu ser eleito e conheço muitos políticos muito sérios que nunca conseguem ser eleitos para nada e, sobretudo, nunca conseguem ser eleitos presidentes da república. Ele conseguiu e com uma margem que não deixa qualquer tipo de dúvida. Por isso, estamos a falar de dois presidentes, um que não é democrático e outro que foi eleito democraticamente.

E já que estamos a falar de personalidades e de lideranças, Joe Biden tem sido aquilo que se esperava dele nos Estados Unidos e no mundo?
Pessoalmente, tenho uma opinião positiva sobre Joe Biden e espero que muitos dos meus amigos e das pessoas com quem falo também tenham essa opinião. Mas a verdade é que os Estados Unidos estão muito divididos e há muita gente nos Estados Unidos que crítica Joe Biden e que transforma essa crítica numa campanha de desilusão, digamos assim, sobre a sua presidência. Mas penso que tem estado à altura do desafio e é preciso ver que Joe Biden vem para a presidência depois de uma situação de quatro anos absolutamente irrealista e absurda. Vem para a presidência da república de um país extraordinariamente dividido, até no sentido em que não se compreende como é que determinados líderes do Partido Republicano aceitam a liderança de Donald Trump sendo ele o que é. Por isso, Joe Biden tomou conta de uma situação num país extremamente dividido, um país muito radicalizado. Devo dizer-lhe que é um país que me preocupa bastante, na medida em que não sabemos o que vai acontecer dentro de três anos quando tiverem lugar as novas eleições presidenciais.

E não sabemos o que vai acontecer daqui a sete ou oito meses quando houver uma espécie de teste do algodão.
Exato. Quando houver as eleições de meio termo, em novembro deste ano, ficaremos certamente com algumas preocupações. Mas a maior preocupação vai ser, de facto, o que vai acontecer quando for a próxima eleição presidencial. Imaginemos, por exemplo, que Donald Trump ou alguém como ele é eleito. Isso significará novamente uma rutura entre os Estados Unidos e a Europa, o que significa, nomeadamente, que a Europa tem três anos para tentar reforçar a sua autonomia face aos Estados Unidos e, nomeadamente, autonomia em matéria de segurança e defesa.

"A NATO durante vários anos estava com outro tipo de focos e a Rússia era apenas um deles, mas neste momento praticamente todas as atenções no interior da NATO estão viradas para a ameaça que é a Rússia de Vladimir Putin."

Para terminar esta ronda pelos líderes com mais protagonismo nesta altura, Emmanuel Macron tem também um teste nos próximos tempos que são as eleições presidenciais francesas e há um novo protagonista que é o chanceler alemão, Olaf Scholz. Acha que são personagens que têm carisma e as tais características de liderança?
Em relação a Olaf Scholz, teria muitas dificuldades em falar em carisma. Penso que a sua comunicação ao parlamento alemão, no último domingo, foi bastante positiva e que alterou a política interna e externa da Alemanha. Foi bastante corajoso ao tomar determinadas decisões, nomeadamente o reforço do setor da defesa na Alemanha, e penso que isso é muito importante. No entanto, é evidente que Scholz está na chancelaria apenas desde o início de dezembro e ainda é muito cedo para se fazer um julgamento sobre ele. Mas, à partida, e sobretudo tendo em conta o que aconteceu nos últimos dias, diria que o balanço neste momento será positivo. No que diz respeito a Macron, possivelmente será reeleito. Não vejo que haja outro candidato que possa ser eleito neste momento. Falava-se, a determinada altura, que Valérie Pécresse teria muitas possibilidades, mas a verdade é que a sua campanha eleitoral não tem corrido muito bem. Na extrema-direita, Marine Le Pen e Éric Zemmour vão roubar eleitores um ao outro e isso significará que, provavelmente, um deles terá muitas dificuldades em passar à segunda volta e, provavelmente, os dois terão muitas dificuldades em passar à segunda volta. Tradicionalmente, os franceses em situações destas votam moderadamente e votam pelo presidente que está no poder e não por uma pessoa de extrema-direita. Portanto, penso que vamos continuar a contar com Macron na presidência da república francesa e, pessoalmente, considero que é uma presidência positiva.

Desta crise do Ocidente com a Rússia, sai reforçada a União Europeia ou sai, sobretudo, reforçada a NATO?
Penso que sai reforçada a União Europeia, fundamentalmente. Não só por ter tomado medidas concretas de sanções contra a Rússia e de as ter tomado rapidamente e sem divergências entre os líderes europeus, mas também pela maneira como tem narrado, digamos assim, a sua maneira de apoiar a Ucrânia e pelas posições que tem tomado em relação à violação da soberania da Ucrânia pela Rússia. Penso que a União Europeia sai certamente reforçada desta crise e a NATO sai, sobretudo, novamente focalizada na questão russa. A NATO durante vários anos estava com outro tipo de focos e a Rússia era apenas um deles, mas neste momento praticamente todas as atenções no interior da NATO estão viradas para a ameaça que é a Rússia de Vladimir Putin - e é sempre bom dizer que é a Rússia de Vladimir Putin, porque não é a Rússia do povo russo, que é um grande povo e que tem demonstrado grande coragem -, porque a liderança de Putin e a sua maneira de fazer política tem levado a NATO a considerar, novamente, a Rússia uma grande ameaça para a paz e segurança no espaço europeu.

Putin está no poder, mais ou menos, desde 2000. A Guerra Fria acaba, vamos dizer, em 1991 com o fim da União Soviética. Não acha que o alargamento da NATO a leste, logo a seguir ao fim da Guerra Fria, condicionou o relacionamento entre o ocidente e a Rússia, propiciou o surgimento de Putin e propiciou este conflito atual?
Penso que não. Primeiro, não houve alargamento da NATO a leste. Houve vários países de leste que decidiram aderir à NATO, o que é diferente de um alargamento. Foram decisões soberanas de Estados soberanos que decidiram que, para sua segurança, era importante fazer parte da Aliança Atlântica. E foi isso que aconteceu, por exemplo, em relação aos bálticos, em relação à Polónia e assim sucessivamente. Por outro lado, penso que convém sempre frisar que essa adesão à NATO era uma adesão com uma preocupação de defesa e não de ataque a qualquer outro país, incluindo à Rússia. Isto eram países que tinham conhecido profundamente a mentalidade soviética, a política soviética e que tinham receios históricos que os levaram certamente a tomar a decisão de aderir à Aliança Atlântica. É evidente que do lado russo isto foi visto e aproveitado como uma oportunidade para criar um nacionalismo russo e, nomeadamente, para permitir à classe dirigente russa dizer que havia aqui uma ameaça crescente à Rússia vinda da NATO quando, na realidade, essa ameaça não existe.

"A Europa sempre foi um grande teatro de guerras, como se sabe. É verdade que a última grande guerra terminou há mais de 75 anos, mas o certo é que toda a história da Europa foi de conquistas e de guerras."

Este choque Ocidente-Rússia é quase como uma pausa naquilo que será um grande choque previsível entre Estados Unidos e China pela supremacia mundial? Ou podemos considerar, para já, que esse cenário ainda está demasiado distante no tempo?
É difícil de dizer porque na Europa sempre houve um problema de rivalidade entre nações. A Europa sempre foi um grande teatro de guerras como se sabe. É verdade que a última grande guerra terminou há mais de 75 anos, mas o certo é que toda a história da Europa foi de conquistas e de guerras. Quando se criou a União Europeia e quando se criou também a NATO, em certa medida a ideia era fazer que a paz voltasse à Europa de maneira permanente. Não está a acontecer neste momento. A Europa continua relativamente dividida. Falamos muito da Ucrânia, mas nunca falamos do que se passa, por exemplo, nos Balcãs e a situação aí também é relativamente problemática. Ou seja, a Europa ainda tem problemas internos e históricos de rivalidades e de tensões entre os seus povos. Até mesmo dentro da NATO notei várias vezes que havia rivalidades entre países membros que tinham a ver com a história. Por exemplo, rivalidades entre as forças armadas da Alemanha e as forças armadas da Polónia porque, tradicionalmente, estes países tinham tido vários confrontos ao longo da história. Comparar isto com o que se poderá passar em relação à China é relativamente difícil, porque o que se irá passar em relação à China, provavelmente, será um grande confronto na Ásia e, sobretudo, na zona marítima, à volta de Taiwan, mas também da ocupação do mar do Sul da China pela China. E isso é um outro tipo de conflito que implicará diretamente os Estados Unidos. Espero que não aconteça, mas se houver uma confrontação direta entre os Estados Unidos e a China penso que é melhor que nos abriguemos imediatamente.

Para terminar e pegando precisamente nesse cenário, Portugal alinhou agora com sanções à Rússia mas, durante muitos anos, tentou mesmo ter laços estreitos com a Rússia. Nesse cenário futuro, como é que fica a relação de Portugal, mesmo a nível do entendimento diplomático e das relações comerciais, com a China? Antevê aí um problema?
Portugal tem uma relação relativamente próxima com a China, mais próxima do que a maioria dos países europeus, o que será, certamente, uma vantagem. Mas também é muito criticado em certas reuniões e em certos fóruns da Aliança Atlântica ou na Europa, porque há quem pense que Portugal está demasiado próximo da China. Tudo isso depende um pouco da perspetiva. A verdade é que Portugal tem procurado seguir as diretrizes que vêm das reuniões em que participa em Bruxelas e Portugal tem sido um país cumpridor das decisões coletivas que são tomadas nessas assembleias. Por isso, em certa medida e apesar de uma relação relativamente próxima com a China, Portugal tem sido um país que colabora e que está dentro do quadro que é definido coletivamente, quer pela União Europeia quer pela NATO. Por isso, aí não vejo qualquer tipo de problema.

Não acha que vá chegar o momento em que tem de escolher o lado?
Penso que não, porque aí não há escolha possível. Estamos na Europa, a nossa geografia é esta, a nossa geopolítica também tem de ser esta e seria um erro ignorarmos a nossa situação geopolítica e a nossa geografia, por isso penso que não. Quem em Portugal pensa que não deveríamos fazer parte da NATO ou da União Europeia está completamente fora do quadro de pensamento que seria lógico.

leonidio.ferreira@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG