Sérvia prepara funeral com honras de Estado para Ratko Mladic, o ‘carniceiro da Bósnia’ condenado por genocídio
A Sérvia prepara-se para receber de volta Ratko Mladic como um general destacado. O antigo comandante militar dos sérvios da Bósnia, condenado à prisão perpétua por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade, terá um funeral com honras militares e de Estado, anunciou esta sexta-feira, 28 de agosto, o ministro da Justiça sérvio, Nenad Vujic, um dia após a morte de Mladic, aos 84 anos, no centro de detenções da ONU em Haia.
“É certo que o general Mladic receberá todas as honras militares e de Estado a que tem direito”, disse Vujic à televisão K1, acrescentando que cabe agora à família a decisão quanto ao local do enterro. O Governo sérvio, por seu lado, assume a organização da trasladação do corpo desde os Países Baixos. Vujic afirmou ter falado com o Presidente Aleksandar Vucic e que a Sérvia está disponível para assegurar todos os procedimentos necessários, incluindo o transporte do corpo para Belgrado num “avião especial”. “Provavelmente viajarei também com a família, para podermos completar as formalidades relacionadas com a transferência do corpo”, afirmou.
Mladic foi o comandante do Estado-Maior do Exército dos Sérvios da Bósnia durante a guerra da Bósnia e Herzegovina, entre 1992 e 1995. Nesse período, as forças que liderava participaram numa campanha de perseguição e limpeza étnica contra populações não sérvias. O episódio que lhe valeu definitivamente a alcunha de “carniceiro” aconteceu em Julho de 1995, quando as forças sérvias da Bósnia comandadas por Mladic mataram mais de oito mil muçulmanos bósnios em Srebrenica, massacre que foi posteriormente classificado como genocídio pelos tribunais internacionais.
O massacre de Srebrenica é, de resto, considerado a pior atrocidade cometida em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial. Ao todo, a guerra da Bósnia deixou cerca de 100 mil mortos e 2,2 milhões de deslocados.
Ratko Mladic fugiu durante quase 16 anos antes de ser detido, em 2011, na Sérvia. Em 2017, o Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia condenou-o a prisão perpétua, sentença confirmada em recurso em 2021, tornando definitiva a condenação por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra. O “Carniceiro da Bósnia”, contudo, continuou a ser visto por setores nacionalistas sérvios como um herói e como símbolo da resistência sérvia durante a guerra.
Nos últimos meses, a Sérvia tinha pedido a libertação humanitária de Mladic, alegando o agravamento da sua condição física. Desde 2024, o antigo general encontrava-se internado numa unidade hospitalar psiquiátrica e, segundo os relatos divulgados, estava acamado há cerca de um ano e meio. As autoridades internacionais rejeitaram os pedidos de libertação, considerando que continuava a receber os cuidados médicos necessários, incluindo cuidados paliativos.
Agora, o governo sérvio resolve assinalar a morte de Mladic, um criminoso de guerra condenado em Haia por genocídio, com honras de Estado. “Esta morte é uma notícia triste para todos nós, para todo o povo sérvio”, afirmou o ministro Vujic à emissora pública da República Sérvia.


