Somália enfrenta novo desastre alimentar
Save the Children

Somália enfrenta novo desastre alimentar

"A crise é o resultado de uma combinação desastrosa do conflito prolongado e impactos climáticos acelerados, exacerbada pela decisão de cortar a ajuda para níveis historicamente baixos em 2025", diz a Save the Children
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A Somália enfrenta um novo desastre alimentar, 15 anos depois de ter sofrido uma das piores situações de fome no país, que fez quase 260 mil mortos, metade dos quais crianças, alertou esta terça-feira, 28 de abril, a organização Save the Children.

Num relatório intitulado "Quando a ajuda desaparece, a infância também desaparece", a organização não-governamental (ONG) revelou como o colapso do financiamento internacional para a Somália em 2025 poderá levar em breve a "resultados catastróficos" nunca vistos desde a fome de 2011.

"A crise é o resultado de uma combinação desastrosa do conflito prolongado e impactos climáticos acelerados, exacerbada pela decisão de cortar a ajuda para níveis historicamente baixos em 2025", disse o diretor da Save the Children na Somália, Mohamud Mohamed Hassan, em comunicado.

Hassan lamentou as consequências "previsíveis e devastadoras" da redução do financiamento num país onde mais de 6,5 milhões de pessoas - quase um em cada três habitantes - enfrentam uma insegurança alimentar aguda.

Mais de 1,84 milhões de crianças com menos de cinco anos correm o risco de subnutrição aguda, de acordo com a Classificação Integrada das Fases da Segurança Alimentar (IPC), uma ferramenta que mede a gravidade das situações de segurança alimentar em cinco fases, da melhor à pior.

O número de pessoas que sofrem de insegurança alimentar aguda duplicou desde 2025, quando as projeções da IPC indicavam que 3,4 milhões de pessoas enfrentavam esta situação.

Enquanto em 2024 o Plano de Resposta Humanitária da Somália contava com 57,7% de financiamento, em abril de 2026 essa percentagem desceu para 15%.

Consequentemente, os serviços alimentares foram drasticamente reduzidos, incluindo o encerramento de mais de 300 centros de nutrição em todo o país.

"Quando a ajuda aumenta, salvam-se vidas; quando desaparece, perde-se a infância", enfatizou Hassan.

O relatório destacou ainda a “extraordinária resiliência” das crianças e das suas famílias face às repetidas crises alimentares, secas, conflitos e surtos de doenças. Graças à ajuda humanitária, raparigas como Fazia, de 15 anos, gozam agora de educação gratuita, embora os cortes orçamentais a tenham deixado a ela e à sua família “a lutar contra a fome nos últimos três anos”, disse à ONG.

“Agora a água é escassa e a seca é extrema. O gado está a morrer por falta de água. A comida também é escassa e a seca afetou-nos profundamente”, acrescentou.

A situação é agravada pelos recentes surtos de diarreia aquosa aguda, cólera, sarampo e difteria em zonas do sul e do centro do país, juntamente com o aumento dos preços dos combustíveis provocado pela guerra no Médio Oriente.

Para além da crise humanitária, a Somália vive em estado de conflito e caos desde 1991, quando o ditador Mohamed Siad Barre foi deposto, deixando o país sem um governo eficaz e nas mãos de milícias islamitas e senhores da guerra.

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