A 26 de março de 1812, quando os relógios marcavam as 16h37, um sismo de magnitude superior a 7 abalou Caracas. Pelo menos dez mil pessoas morreram só na capital venezuelana, o que seria equivalente a um quarto da população, mas o impacto foi para lá da mortandade. Menos de um ano depois da Declaração de Independência e em plena revolta independentista, o abalo naquela Quinta-Feira Santa foi aproveitado pelos leais ao rei espanhol Fernando VII para falar num “castigo divino”o que contribuiu para a queda da Primeira República. Não seria a única vez que tragédias naturais teriam um impacto político na Venezuela. A 15 de dezembro de 1999, chuvas torrenciais causaram inundações repentinas que destruíram milhares de casas e fizeram dezenas de milhares de mortos (entre10 mil e 30 mil) no então estado de Vargas (atual La Guaira). A Tragédia de Vargas, como ficou conhecida, coincidiu com o referendo constitucional impulsionado pelo presidente Hugo Chávez (que tinha tomado posse em fevereiro). E ajudou a acelerar a consolidação do seu projeto político, fortalecendo o papel das Forças Armadas na gestão de crises e redefinindo as prioridades governamentais.O duplo sismo desta quarta-feira (24 de junho) surge num momento político também complicado para a Venezuela, seis meses depois de uma operação militar dos EUA ter levado à detenção do presidente Nicolás Maduro e da mulher, Cilia Flores, e subsequente acusação de narcotráfico em Nova Iorque. A queda de Maduro não resultou contudo na queda do regime, com o líder norte-americano, Donald Trump, a apoiar a então vice-presidente Delcy Rodríguez como presidente interina, em detrimento da oposição liderada por María Corina Machado e Edmundo González (que muitos venezuelanos consideram ter sido o verdadeiro vencedor das eleições de há dois anos). “Chegámos a esta catástrofe após décadas de destruição institucional. As equipas de socorro, o sistema de saúde e as infraestruturas de comunicações chegaram a esta emergência em estado de colapso. O que deveria ter sido um investimento na proteção de vidas não o foi”, denunciou nas redes sociais González. .E apelou ao apoio das “nações amigas”, assim como das organizações humanitárias e dos milhões de venezuelanos que vivem no estrangeiro. “Por favor, apoiem o nosso povo nestes tempos difíceis. Estou convencido de que, juntos, encontraremos forças para nos reerguermos”, acrescentou, tendo dito noutra mensagem que o Estado “abandonou” os venezuelanos, queixando-se da pouca informação sobre o que se passa. Rodríguez só falou mais de duas horas após a tragédia, ao lado do irmão e presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, e do ministro do Interior, Diosdado Cabello. Apelou à “união” e declarou o estado de emergência. O sismo já fez pelo menos 188 mortos e mais de 1500 feridos, havendo ainda mais de 150 desaparecidos, segundo os números oficiais comunicados pelas entidades do país. .Ajuda a caminhoA ajuda humanitária já está a chegar à Venezuela. Trump foi o primeiro a dizer que os EUA estavam “prontos, dispostos e aptos a ajudar”, ativando equipas de busca e salvamento e equipas médicas. O secretário de Estado, Marco Rubio, confirmou o apoio, faltando ainda saber o impacto que as sanções económicas que ainda existem pode ter. .Deste lado do Atlântico, o Mecanismo Europeu de Proteção Civil também foi acionado. Espanha vai enviar equipas militares de emergência e unidades com cães e equipamento para ajudar nas buscas entre os escombros. França vai enviar 85 especialistas, enquanto a Alemanha prepara seis aviões de transporte de ajuda. Portugal prometeu enviar uma equipa de emergência de 50 elementos..Sismos na Venezuela. O que se sabe sobre os portugueses atingidos pela tragédia.Os países da América Latina também enviaram meios para ajudar no resgate dos sobreviventes, enquanto China e Rússia mostraram a disponibilidade de ajudar conforme as necessidades. O papa Leão XIV anunciou um donativo de 100 mil euros em ajuda humanitária. As Nações Unidas, que já estão no terreno, ofereceram-se para coordenar a ajuda.