Um dos argumentos para o presidente norte-americano, Donald Trump, avançar para a guerra no Irão foi para impedir o país de desenvolver uma bomba nuclear. Algo que Teerão, apesar de continuar a enriquecer urânio a níveis muito acima do necessário para alegado uso civil, sempre disse que não queria fazer, citando uma fatwa do líder supremo, Ali Khamenei. Que pode entretanto já ter expirado.“A questão já não é se o Irão possui a capacidade técnica para construir uma arma nuclear. A questão é se ainda existe algo que o impeça de o fazer”, resumiu a investigadora iraniana Sara Ghavimi, que vive no exílio na Turquia, num texto que escreveu para o site de notícias The Times of Israel. A palavra fatwa significa “opinião” em árabe e traduz um pronunciamento legal emitido por um especialista em lei religiosa (um mufti) ou um clérigo. Na década de 1990, Khamenei terá emitido uma fatwa oral que proibia o desenvolvimento, armazenamento e uso de armas nucleares, que dizia serem “haram“ (pecado). A fatwa só foi tornada pública em outubro de 2003, havendo especialistas que alegam que nunca existiu, surgindo apenas como parte da narrativa de Teerão para negociar com o Ocidente. Uma análise de Michael Eisenstadt, publicada pelo The Washington Institute (think tank norte-americano pró-israelita) em 2011, lembra que o “engano” e a “dissimulação” em casos de vida ou morte é permitido na tradição xiita do Islão. E que o antecessor de Khamenei e fundador da República Islâmica, Ruhollah Khomeini, “formalizou a supremacia da razão de Estado sobre os princípios do Islão como o princípio central que orienta a tomada de decisões de política interna e externa no Irão”.Real ou não, esta fatwa nunca impediu Teerão de continuar a enriquecer urânio. Estima-se que tenha cerca de 400 quilos de urânio enriquecido a 60%, sendo o salto para os 90% considerado mais fácil e rápido, o que abriria a porta a desenvolver dez ou 12 bombas. E a fatwa pode ter desaparecido de vez com a morte de Khamenei logo no primeiro dia da guerra do Irão, num ataque de Israel. Não é claro que uma fatwa morra com quem a decretou, mas há quem alegue que a sua autoridade depende da reafirmação do sucessor. Mojtaba Khamenei, que sucedeu ao pai como líder supremo, ainda não se pronunciou sobre o tema - na realidade ainda não foi visto em público, sabendo-se que terá ficado ferido no mesmo ataque que matou o progenitor e outros membros da família. Numa entrevista à Al Jazeera, o chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, foi questionado sobre se a política do Irão podia mudar. “Pelo que percebi, não será diferente da nossa política anterior, mas precisamos de esperar até termos conhecimento das suas posições”, disse no mês passado, referindo-se a Mojtaba.Em Teerão, crescem as vozes que defendem que a fatwa não deve ser renovada, alegando que só a dissuasão nuclear será suficiente para proteger o país de futuros ataques. A nova liderança é vista como pertencente a uma linha mais dura do que a anterior, que foi sendo morta pelos ataques israelitas.A Assembleia Consultiva Islâmica já está a debater a saída do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP, ao qual o Irão aderiu em 1970). “O parlamento está a considerar seriamente a questão de permanecer ou não no TNP. Isto significa que não seremos membros do tratado internacional e não estaremos obrigados a conduzir atividades nucleares exclusivamente para fins pacíficos ou a evitar o desenvolvimento de uma bomba atómica”, disse o deputado Alaeddin Boroujerdi, da Comissão de Segurança Nacional e Política Externa, insistindo que esse não é o objetivo.As autoridades iranianas já consideraram no passado, como parte da tática negocial com o Ocidente, rever a adesão ao TNP. Mas nunca concretizaram essa ameaça. Mas uma proposta de lei nesse sentido deu agora entrada na Assembleia Consultiva Islâmica, com caráter de urgência..Irão diz que afirmações de Trump sobre programa nuclear de Teerão são "grandes mentiras"