Samantha DeCorte vai a meio da conversa sobre os antepassados portugueses quando puxa do telemóvel e mostra uma imagem de um brasão em tons de vermelho e dourado, onde sobressaem as cabeças de águia. “É o brasão dos Medeiros. Pertencia ao meu avô materno”, diz a senadora estadual do Havai, que visita Portugal pela segunda vez. “O meu avô Manuel, pai da minha mãe, que me ajudou a criar, era 5O% português. Acredito que a minha família portuguesa veio da Madeira, mas não tenho muitas certezas, preciso de investigar mais. Isto estava numa moldura na casa desse meu avô, nunca soubemos exatamente o que era, mas agora entendi que é o brasão dos Medeiros, da família”, acrescenta a luso-americana, entrevistada durante um intervalo do Legislators’ Dialogue, que a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) organiza todos os verões e traz políticos com origens portuguesas a Lisboa, para conhecerem um pouco da realidade portuguesa e também se conhecerem uns aos outros. Por exemplo, no momento em que a encontrei, na sede da FLAD, Samantha estava com Tony Cabral, congressista do Massachusetts, um açoriano que emigrou do Pico com a família quando tinha 14 anos.A senadora é da Big Island ou Hawai’i, a Ilha Grande, a maior do Havai, mesmo que seja em Oahu que fica Honolulu, a capital. E toda a sua carreira política foi feita com base na ideia de que é uma nativa-havaiana, que defende os valores e os interesses dos habitantes originais do arquipélago, desde 1898 parte dos Estados Unidos. “Cresci na Big Island, e a maior parte da minha cultura foi baseada na cultura tradicional havaiana desde a infância. As comidas, os costumes, as tradições, esse tipo de coisas, tudo havaiano. Só recentemente comecei a conhecer a cultura portuguesa e é muito inspirador”. Acrescenta que foi só depois de conhecer Miguel Vaz, da FLAD, que começou a pesquisar a história familiar, “motivada a descobrir a minha linhagem”. Já tem uma árvore genealógica, onde surgem vários manuéis. O avô nasceu já no Havai, mas os primeiros Medeiros terão chegado no século XIX, quando o então Reino do Havai começou a receber açorianos e madeirenses, muitos para trabalhar nas plantações de açúcar.Hoje uns 5% dos habitantes do Havaí ainda se identificam como de origem portuguesa, mas calcula-se que um quinto tem algum tipo de origem nas ilhas atlânticas portuguesas. Elementos distintivos da cultura havaiana atual, como as malassadas e o ukulele, têm raízes em Portugal, com o famoso instrumento musical a ser o cavaquinho.“Aos poucos vou percebendo o muito que se deve aos portugueses no Havai. O ukulele ser de origem portuguesa foi uma surpresa. Não sabia até há pouco tempo”, explica. “E também é portuguesa a melhor sobremesa do mundo, que pensava ter sido aqui criada”. Na sua ilha, como noutras no Havai, não é raro que haja famílias que sejam nativas-havaianas, e assim se identifiquem, mas tendo mistura em vários níveis com outros povos, como os portugueses, explica. Diz que o apego à família é comum aos dois ramos familiares.Republicana num estado que nas últimas décadas tem votado mais nos democratas, Samantha explica que escolheu o partido que hoje é o do presidente Donald Trump “por ser um pouco mais tradicional, com fundamentos mais religiosos. A região que represento tem a maior população nativa-havaiana do mundo e, portanto, grande parte da nossa cultura e das nossas raízes está baseada na fé, em crenças religiosas, valores familiares e coisas do género”.Fez carreira como funcionária pública, na administração de transportes, e pertence a uma igreja que está muito envolvida no apoio à sociedade e assim antes de entrar na política já se tinha feito conhecer por ajudar jovens em risco, apoiar à reintegração de mulheres que saiam da prisão, dar aconselhamento familiar.Sobre alguns estereótipos sobre o Havai, em desenhos animados como Lilo & Stitch ou o mais recente Vaiana, Samantha diz, a sorrir, tratar-se “da parte teatral do Havai”. E diz que quem não visitou nunca as ilhas “pensa que somos todas bailarinas de hula e que vivemos em cabanas de palha. A parte boa desses filmes é despertar o interesse das pessoas para virem ao Havai e nos conhecerem pessoalmente”.Convidada uma primeira vez pela FLAD a vir a Portugal, gostou de imediato de Lisboa, “cidade com tanta história, que se vê nas ruas, por todo o lado”, e este ano está a descobrir mais a cidade. Diz dar muito valor às relações “muito antigas” entre os Estados Unidos e Portugal, um dos primeiros países a reconhecer a Declaração de Independência, que agora celebrou 250 anos.Prefere não comentar as divisões de hoje na sociedade americana, mas destaca que nos dias que dura o Legislators’ Dialogue, que inclui visitas a instituições portuguesas e contactos com académicos e governantes, há uma concórdia muito especial. “É muito bom estarmos juntos numa oportunidade como esta, porque quando nos põem a todos numa sala aqui em Lisboa, não se consegue saber quem é republicano e quem é democrata. Apenas sabemos que temos em comum a ascendência portuguesa. E isso derruba fronteiras. Não há partidos. Ninguém pergunta. E se perguntarem, tudo bem”, afirma Samantha, a republicana do Havai. Tony, o democrata do Massachusetts, concordaria se estivesse a ouvir. Sei porque já tivemos uma conversa parecida sobre como Portugal oferece este espaço de diálogo aos políticos luso-americanos.."Malassadas, pão doce e salsichas portuguesas são hoje em dia gastronomia típica do Havai"