Tudo sobre o Irão é um título ambicioso. Como é que o descreveria?Diria que tudo o que está aqui é sobre o Irão, ou relacionado com o Irão, ou das relações com o Irão com o mundo e principalmente com as principais potências, e em concreto com os Estados Unidos. Mas obviamente que isto não é tudo que pode ser dito ou escrito sobre o Irão. É fruto das leituras e de reportagens em dois momentos, lamentavelmente não foi em três. Tinha visto pedido para ir em junho do ano passado, mas foi rejeitado em maio. Voltei a reformular [o pedido] para tentar uma segunda vez em junho, e em junho aconteceu a Guerra dos Doze Dias, com a utilização da base das Lajes por parte da aviação americana, e isso não foi dito oficialmente, mas informalmente consegui apurar que pode ter prejudicado a concessão de visto, que era um visto de jornalista. Acho que é o livro possível, gostava de ter voltado ao terreno. Foi com base em leituras, nas reportagens anteriores, e em muitas entrevistas a gente de lá, gente de cá com ligações ao Irão, gente portuguesa que estava lá, iranianos que estão aqui. Foi um retrato o mais abrangente possível. Procurei, sobretudo, que tivesse muita história, enquadramento histórico e cultural persa, e depois que procurasse compreender o presente politicamente, mas também que fosse a outras áreas da sociedade.E está bastante atual porque trata o início do atual conflito.Até ao dia seguinte à morte de Khamenei. Há sempre aquele momento em que os editores dizem agora tens de parar que o livro precisa de ir para a máquina, porque de outra forma o livro não sai. E havia esta questão da atualidade e houve um grande esforço da parte de editora por antecipar prazos também, por pôr as coisas a rolar e o livro sair com mais atualidade. Como refere em mais de um ponto, a ideia feita de quem não conhece o Irão não condiz com aquela de quem conhece uma sociedade bastante culta, pouco religiosa, enfim...Pouco religiosa, mais ou menos.Ou não tão religiosa como a imagem que faz passar.Eu acho que nós temos uma ideia muito simplificada, muito a preto e branco daquilo que é a realidade no Irão. Com poucas nuances, com poucas camadas. Vemos as mulheres vestidas de preto na rua e achamos que é tudo assim. Vemos os aiatolas vestidos com os seus trajes e achamos que é tudo assim. E não, é uma sociedade muito diversa. Há, de facto, um certo desajustamento entre o que é o mundo atual e a realidade que os iranianos querem viver e uma interpretação mais conservadora da religião. Esse desajustamento prova-se na dimensão que os protestos de janeiro alcançaram, que foram violentamente reprimidos. E prova-se também na forma já absolutamente à vontade com que as mulheres, principalmente nas grandes cidades, não cobrem a cabeça com o véu..Felipe Pathé Duarte: "A guerra no Irão vai continuar porque tem de haver uma vitória política".Foi uma concessão do regime?De certa forma, sim. Eu acho que é um regime que se sente confortável com o facto de ter uma lei que pode impor em termos mais restritos quando quer e quando convém, mas, ao mesmo tempo, não faz tábua rasa, mas fecha os olhos a essa mesma lei. Uma válvula de escape. Sim, que é usada para aumentar a pressão interna quando interessa ao regime, e desanuviar quando também o entende. Acaba por ser quase um instrumento político. As leis de caráter mais religioso ao serviço da política, num Estado onde essas coisas não podem ser dissociadas, num Estado fundado com essa base. A revolução islâmica é a união entre o Estado e a religião.Passando para a atualidade, no livro prevê uma saída possível que passa pelo fim do regime tal como é, para uma versão mais nacionalista, mais controlada pelos guardas da revolução.Acho que já está a começar a acontecer. É aquilo que se vai percebendo, e curiosamente isso parece ser confortável para a saída que Donald Trump precisa para a embrulhada em que se meteu. É continuar a dizer, como já começou a dizer nos últimos dias, que foram todos eliminados e, portanto, como as principais figuras foram eliminadas, na cabeça do presidente americano isso quer dizer mudança de regime. Obviamente que não há uma mudança de regime, há uma transformação e uma adaptação. É natural que o regime como o conhecemos, enquanto sistema político, seja agora mais fechado, mais residual, se quisermos, e mais coordenado pelos quadros superiores da guarda revolucionária que foram naturalmente substituídos quando foram alguns eliminados e que é uma estrutura que não só garante a segurança nacional, como é um potentado económico dentro do país, gere os principais setores da atividade económica. E, no fundo, isso preocupa muito mais a população civil do que propriamente as interpretações mais religiosas da lei. Portanto, creio que sim, no futuro vamos caminhar para uma figura que seja minimamente consensual para esses setores, para um setor mais teocrático e para um setor mais pragmático. Aliás, os pragmáticos existem enquanto conceito na classe política iraniana, dentro de ala conservadora. Esta guerra vai fazer com que se torne mais difícil a vida daqueles que queriam transformar democraticamente o Irão. Aqueles que têm as visões mais progressistas, as políticas mais moderadas, mais pró-ocidentais, com as nuances que isto possa ter. Vão ter necessariamente um espaço muito mais reduzido, porque vão ser, pelo menos no curto e médio prazo, muito conotados com aqueles que bombardearam o país.. Aqueles cenários do regresso do xá, por um lado, ou das milícias curdas a fazer uma espécie de levantamento, por outro, parecem bastante longínquos neste momento.Diria que sim, parece-me pouco plausível, mas gostaria de fazer aqui uma ressalva. Nós não sabemos como é que esta guerra vai acabar. E não estando lá e carecendo de verificação independente, não sabemos até que ponto o próprio regime não estará mesmo enfraquecido. Imaginemos um cenário menos provável, mas também não o podemos retirar completamente da equação, de uma invasão com tropas terrestres, e os Estados Unidos a tomarem conta das principais estruturas, ou aquilo que entendam que é essencial para o seu triunfo, e comecem a controlar o país e ponham lá um governo fantoche, aí sim, admito que possa ser o Reza Pahlevi, embora o próprio admitiu que não tinha vida para estar no Irão o tempo inteiro, que tinha vida organizada nos Estados Unidos. Acho difícil, não tem qualquer apoio nacional, não tem apoio político, não tem apoio de massas, mas... Os curdos é uma coisa um bocadinho mais perniciosa, que é fomentar divisões étnicas, que na verdade não existem, ou seja, existem, factualmente, há várias etnias, mas o Irão não é um país com problemas de identidade nacional, ou de fraturas étnicas como tivemos na Jugoslávia na Europa, ou como tivemos na Síria com a guerra civil, ou mesmo no Iraque, é um país muito mais homogéneo a esse nível. Mas percebe-se a intenção de fomentar essas divisões étnicas a partir dos territórios divididos do Curdistão, para criar instabilidade no país.E o papel de Israel nisto tudo? Nós temos um governo extremista de Israel, que arrastou um presidente e um governo extremista dos Estados Unidos para uma guerra para tentar acabar com o regime extremista da República Islâmica do Irão, portanto, são vários extremismos em confronto. Creio que sobretudo para o Netanyahu é uma questão de sobrevivência política. Temos eleições em Israel a 27 de Outubro, que é a data que está a ser mais apontada. Além dos casos pessoais judiciais relacionados com a corrupção, há a questão da comissão independente de inquérito ao 7 de Outubro, à forma como o Estado foi negligente em prever tudo aquilo, e isso é algo que pode incomodar bastante Netanyahu, e pode inclusive levá-lo à cadeia, assim que deixar de ser primeiro-ministro. Mas sobretudo, juntou-se uma espécie de coligação dos astros para lhe permitir aquilo que determinados setores da política israelita pretendiam há muito tempo, que é uma grande Israel, e um Estado de Israel que domine todo o Médio Oriente. A guerra dos 12 dias e esta vêm provar que Israel tem uma supremacia em termos tecnológicos, militares, e do serviço de informações, que é incomparavelmente superior com qualquer Estado da região. Esta guerra é prova e acentua essa tendência. E depois há a ambição política, já assumida pelos setores mais extremistas de uma grande Israel que ultrapassa as fronteiras atuais, que aniquila de vez as expectativas dos palestinianos de terem um Estado.E que inclui também o Líbano.Inclui o Líbano até quase Beirute, tudo o que for ao sul do rio Litani ser ocupado por Israel.Para Israel não há interesse em parar agora?De todo. Acho que haverá interesse dos Estados Unidos. Quando falamos de Israel, estamos a falar deste governo de Israel. O interesse do povo israelita seria certamente diferente. Israel também está a sofrer, também houve já locais bombardeados, já houve vítimas, etc. A economia de Israel não é imune ao que se passa no resto do mundo. Mas, politicamente, a Netanyahu só lhe interessa continuar. Curiosamente, a Arábia Saudita, que estava a fazer uma aproximação muito interessante ao Irão, promovida pela China nos últimos anos, e que permitiria estabilizar, de outra forma, as relações entre xiitas e sunitas no Médio Oriente, está a arrepiar caminho. Está a dizer a Trump que o melhor é continuar a guerra, porque isso também está relacionado com a forma como o Irão decidiu responder aos bombardeamentos. A estratégia de disseminar a guerra pela região como forma de pressionar para que ela acabe não está a traduzir-se em resultados para o Irão. Porque os israelitas não estão propriamente com vontade de parar. E, por outro lado, está a comprometer, pelo menos no curto, médio e prazo, as relações do Irão com a vizinhança regional.Voltando à questão do futuro do regime iraniano. Se de facto tender para essa forma mais nacionalista e menos religiosa, como é que ficará a questão da exportação da revolução, dos grupos apoiados na região?Seriamente comprometida. Aliás, é um dos pontos que está no plano que os Estados Unidos terão entregue ao governo paquistanês, e que os paquistaneses já fizeram chegar esta quarta-feira ao Irão. É um dos pontos, é acabar com o apoio aos grupos regionais. Se isso é possível, se é exequível, tenho sérias dúvidas, porque os apoios não são formalmente declarados. O Irão, como potência regional que é, há de continuar a querer ter os seus apoios na região, que estão, nesta altura, muito debilitados. Quer o Hamas, quer o Hezbollah, menos os Houthis no Iémen, quer na Síria. A Síria mudou de ordem política e, portanto, tudo isto também apanha o Irão numa fase de vulnerabilidade como nunca teve. O que acentua a determinação de Israel em tentar mudar de vez o xadrez daquela região. Principalmente o papel de Israel enquanto potência determinante. Por outro lado, por mais que agora possa estar a ser destruído e debilitado do ponto de vista militar, o Irão será sempre um grande país naquela região. E com o que aconteceu desde o 7 de outubro não se vislumbra que possa haver propriamente alguma hipótese de relacionamento minimamente amistoso entre o Irão e o Israel nos próximos anos. Israel vai ter sempre ali um inimigo.Como é que o Irão poderá querer uma nova fase de relações com os países vizinhos mantendo esses grupos?Obviamente que não pode. Havia internamente muita contestação, principalmente da opinião pública mais jovem, mais qualificada, a esse tipo de abordagem política no país. O Irão, também fruto do bloqueio das sanções internacionais, tem tido muitos problemas económicos e, portanto, as pessoas estranhavam como é que o governo continuava a apoiar, com somas avultadíssimas, os grupos militares da região. Era algo que caía muito mal em vários setores da opinião pública iraniana.Qual a história que mais o surpreendeu ao fazer o livro?Por um lado, as histórias de pessoas e de casais, seja de dois iranianos que vivem no norte de Portugal, Atena e Mohamed, pelo valor que ele dá à necessidade que tiveram de sair do país para ela poder crescer mais profissionalmente. Rompe um bocado com aquela ideia da mulher oprimida pelos maridos no Irão. Por outro lado, uma história belíssima de amor entre uma iraniana Ghazal e o Pedro Queirós, português. E depois, as relações históricas entre os Estados Unidos e o Irão. Há 200 anos havia um encantamento mútuo, com os americanos a admirarem imenso o Império Persa e e os iranianos encantados por haver um país que respeitava a soberania dos outros, que respeitava a ideia de liberdade, que se tinha sublevado contra o domínio colonial europeu e que poderia ser, para o Irão, uma espécie de terceira via que ajudasse o Irão a combater as tentativas de interferência dos impérios coloniais, nomeadamente os britânicos e os russos. E percebermos o quanto o mundo mudou em tão pouco tempo, e ao mesmo tempo, dá-nos algum sinal de esperança de que não é absolutamente insuperável o mau relacionamento entre americanos e iranianos..Tudo sobre o IrãoRicardo AlexandreIdeias de Ler448 páginas