Após quase meio século de regime e com uma oposição muito fragmentada, Reza Pahlavi, filho do último xá do Irão, tem surgido a incitar os manifestantes a continuarem com aqueles que são os maiores protestos contra o governo dos últimos anos, procurando apresentar-se como um líder nacional, apesar de saído do país antes da Revolução Islâmica de 1979.“Vamos colocar completamente a República Islâmica e o seu desgastado e frágil aparelho de repressão de rastos”, disse Pahlavi num recente vídeo publicado no X a partir da sua casa nos Estados Unidos. Nas redes sociais surgiram vídeos de manifestantes a darem o seu apoio a Reza Pahlavi, de 65 anos, com alguns a entoar cânticos de “Viva o Xá“, numa demonstração de que as suas mensagens estão ter algum efeito mobilizador.“Embora as manifestações de 8 de janeiro não tenham atingido a mesma escala das que se verificaram durante o movimento de protesto de 2022, e apesar do cenário de protestos no Irão se manter fragmentado em várias frentes, o teste de popularidade de Reza Pahlavi parece ter atingido o seu objetivo”, nota Luigi Toninelli, do Centro do Médio Oriente do think tank italiano Instituto para o Estudo de Política Internacional (ISPI). “O filho do antigo xá continua a ser uma figura controversa e divisiva tanto dentro como fora do Irão. Contudo, ao longo do último ano, ele conseguiu posicionar-se como a principal voz política da diáspora iraniana e agora desfruta de crescente apoio também dentro do país. Os cânticos a seu favor entre os jovens e os estudantes universitários, a par da escalada qualitativa das manifestações, representam uma importante fonte de legitimidade política”.Mas este aumento de popularidade não é suficiente para apontar o filho do último xá do Irão como a escolha óbvia para subir ao poder em caso da queda do regime. Começando por Donald Trump, que recusou encontrar-se com Pahlavi - a quem chamou de “boa pessoa” - sugerindo que os EUA não estão preparados para apoiar um sucessor do governo iraniano. “Acho que devemos deixar toda a gente ir lá para fora e ver quem se destaca”, disse Trump num podcast.“Ele [Trump] está a enviar uma mensagem aos centros de poder em Teerão”, escreveu Randa Slim, diretora do programa para o Médio Oriente do Stimson Center, no X. “Vejam a Venezuela. Livrem-se de Khamenei [o líder supremo do Irão]. Estou pronto para um acordo”, prosseguiu esta analista. Após a divulgação da entrevista de Trump, Pahlavi pediu na manhã de sexta-feira ao presidente dos EUA que “interviesse” nos protestos no Irão.A juntar a isto, segundo Luigi Toninelli, “o legado da sua família é marcado pela repressão, modernização forçada e políticas económicas imprudentes”, mas também “o seu historial político e as suas capacidades de governação ainda têm de ser comprovadas, para além de não contar com uma equipa bem preparada capaz de o apoiar eficazmente.”Mesmo assim para Niloofar Gholami, do serviço persa da Deutsche Welle, “considerando a sua base de apoio e a situação atual no Irão, sim: hoje, qualquer pessoa que possa influenciar os protestos tem peso. Portanto, Reza Pahlavi tem o apoio de uma parte significativa da população dentro do Irão. Mas é importante realçar que nem todos os manifestantes são seus apoiantes”. A jornalista nota ainda que Pahlavi se destaca porque “os monárquicos têm uma figura pública, enquanto outras forças da oposição não”.Entre estas outras forças da oposição estão os antes poderosos Mujahidin, conhecidos por Organização dos Mujahidin do Povo Iraniano, a quem muitos iranianos, incluindo inimigos do atual regime, não perdoam por se ter aliado ao Iraque contra o Irão na guerra de 1980-88. O grupo é a principal força do Conselho Nacional da Resistência do Irão, que tem uma presença ativa em muitos países ocidentais - a viver no exílio, o líder Massoud Rajavi não é visto há mais de 20 de anos, tendo a mulher, Maryam Rajavi, assumiu o controlo.Existem minorias étnicas que se têm oposto ao regime xiita, com destaque para os grupos curdos que fazem oposição na zona ocidental do Irão, onde são maioria, ou no Baluchistão, região na fronteira com o Paquistão, onde se encontram apoiantes de clérigos sunitas e jihadistas armados ligados à Al-Qaeda.Uns protestos diferentesEstes protestos, iniciados a 28 de dezembro em Teerão e que já terão feito mais de 500 mortos segundo a Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos (HRANA) , estão longe de ser os primeiros de que o regime islâmico é alvo desde que assumiu o poder, mas não mostram sinais de abrandamento, tendo-se já alargado a todo o país. No entanto, esta onda de manifestações apresenta algumas diferenças em relação às anteriores, tendo em conta que os problemas que o Irão enfrenta hoje são mais abrangentes. Os iranianos começaram a sair à rua para protestar contra a grave crise económica, marcada pelo colapso do rial e pela inflação descontrolada, causada pelas sanções internacionais, nomeadamente dos EUA. Paralelamente, o país está a atravessar a sua pior crise hídrica em décadas, causada pela seca e uma má gestão destes recursos, que tem levado ao corte noturno do abastecimento de água em várias cidades, incluindo Teerão. De tal forma que o presidente Masoud Pezeshkian já considerou a possibilidade de transferir a capital. Depois há o facto de a influência do Irão no Médio Oriente ter diminuído desde os ataques de 7 de outubro de 2023, com a resposta de Israel a enfraquecer os grupos aliados de Teerão, como o Hamas e o Hezbollah. O próprio Irão foi alvo de ataques israelitas, e dos EUA, expondo as suas vulnerabilidades de segurança. A juntar a isto deu-se a queda do regime de Bashar al-Assad na Síria, um importante aliado iraniano.Por fim, a ação dos EUA na Venezuela também tem impacto na situação do Irão, como explica o investigador Farzan Sabet, numa análise para o ISPI. “O sucesso de Trump neste episódio pode tentá-lo a recorrer a outro adversário de longa data dos EUA para consolidar o seu legado: a República Islâmica do Irão. Na sexta-feira, estabeleceu uma linha vermelha: o assassinato de iranianos inocentes que participam em protestos contra o regime por parte do sistema governativo, o que já aconteceu, desencadearia uma resposta militar dos EUA”. “Isto intensifica o dilema de Teerão sobre a melhor forma de lidar com os protestos: a violência em grande escala para conter a agitação acarreta o risco de ataques de Washington contra a liderança iraniana ou outros alvos importantes num momento de vulnerabilidade. Mas a pressão de Trump para reduzir a repressão vai encorajar os protestos, que ganharam força esta semana dando-lhes mais espaço para crescer”, nota ainda Sabet. .Quem é Reza Pahlavi, por quem os iranianos clamam nos protestos?.Procurador do Irão avisa que protestos passam a ser puníveis com pena de morte