O choque da operação militar norte-americana que levou à detenção de Nicolás Maduro deu lugar a uma corrida aos supermercados em Caracas, com os venezuelanos na incerteza do que vem a seguir e os “coletivos” armados a patrulhar as ruas. O líder caiu - “Feliz Ano Novo”, disse aos agentes quando chegou algemado a Nova Iorque -, mas o regime continua de pé. O presidente Donald Trump diz que os EUA vão “governar” até ser possível uma “transição” justa, deixando de lado a oposição liderada por María Corina Machado, e não exclui novos ataques ou enviar militares para proteger o petróleo que quer explorar.“Todos queremos ver um futuro brilhante e uma transição pacífica para a Venezuela”, insistiu este domingo, 4 de janeiro, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, numa entrevista à NBC, explicando que trabalha nisso há 15 anos - Maduro sucedeu em 2013 a Hugo Chávez, eleito desde 1999. Mas o que Washington quer ver agora são “mudanças imediatas”, nomeadamente o fim do alegado narcotráfico e a expulsão dos agentes do Hezbollah e de Cuba do país, acreditando que quem agora está no poder - por enquanto a vice-presidente Delcy Rodríguez - será “mais complacente” com Washington. “Estamos a falar no que acontece nas próximas duas e três semanas ou dois ou três meses. E o que esperamos é ver maior cooperação do regime venezuelano, que não víamos com Maduro”, referiu Rubio, dizendo que Rodríguez será “julgada” pelo que fizer a partir de agora. Mas nas primeiras declarações após a queda de Maduro, a vice-presidente rejeitou a ideia imperialista de a Venezuela se tornar numa colónia dos EUA e insistiu que Maduro é o único presidente.“Sempre soubemos que a chave era o dia seguinte. A operação militar sempre foi algo viável. O complicado é o depois”, disse ao DN o investigador Andrés Malamud, do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa. “As transições são complicadas e há três maneiras de as fazer: por negociação, por rutura ou por tutela. A negociação é quando aqueles que saem combinam as condições da sua sobrevivência com aqueles que entram. Seria se o regime tivesse negociado com a oposição. Rutura é como em Portugal ou na Argentina, uma revolução social ou uma derrota militar. E finalmente tutela é como na Alemanha ou no Japão, quando as eleições são impostas desde fora por outro país”, explicou.Os EUA apostaram na tutela e, apesar das declarações de Rodríguez, parecem manter essa aposta. “Ela tem que demonstrar aos venezuelanos que está no controlo e que não é tutelada por uma potência estrangeira”, lembrou Malamud, dizendo que pode estar, na prática, a colaborar. Pode até ter colaborado antes, para a queda de Maduro. Ela é, afinal, também ministra do Petróleo. Se o regime não se mostrar aberto, os militares dos EUA continuam a manter o cerco naval ao país e Trump não exclui novas operações militares - tendo também este domingo avisado Delcy de que pode pagar preço mais alto do que Maduro se não colaborar.E o que é que isso significa para os venezuelanos, desejosos de mudança após quase 13 anos de governo Maduro, que deixou a economia num caos e levou oito milhões a emigrar (muitos festejaram no estrangeiro)? Aqueles com quem o investigador falou este domingo estavam mais otimistas do que no sábado, falando na ideia de uma transição tutelada por dois anos (os EUA não estabeleceram prazos) que dê lugar a eleições em que María Corina Machado possa entrar (não foi autorizada em 2024, apoiando Edmundo González). “Não é verdade que não tenha apoio, como Trump alega”, referiu Malamud, que considera que foi a forma de o presidente se “vingar” de ela ter ganho o Prémio Nobel da Paz que ele queria. “Ele está despeitado”, resumiu. Rubio lembrou contudo que María Corina Machado não está na Venezuela (os EUA ajudaram-na a sair do país para tentar ir à cerimónia em Oslo, que acabou por falhar) e há “questões de curto prazo que têm que ser endereçadas de imediato”. Corina Machado tem apoio popular, mas não tem o apoio militar, explicou o professor do ICS. “Com esta transição, compram dois anos de apoio militar, compram arrumar os negócios”, disse Malamud, lembrando que Trump nunca falou em democracia. “A administração está interessada agora em fazer negócios e contratos, que fará com o governo de transição, que é o que ainda reconhece Maduro como presidente e controla os militares.” Este domingo, 4 de janeiro, as Forças Armadas denunciaram as “ambições colonialistas” dos EUA e houve manifestações a favor do regime. Hoje será dia de trabalho e a ordem é que tudo decorra normalmente. Narcotráfico ou petróleo O argumento para deter Maduro e levá-lo para Nova Iorque é o tráfico de droga. O ex-líder venezuelano é acusado de se associar a “alguns dos narcotraficantes e narcoterroristas mais violentos e prolíficos do mundo” para introduzir toneladas de cocaína nos EUA. Mas, na conferência de imprensa de Trump, ficou claro que o narcotráfico era a desculpa, o petróleo o objetivo . E o presidente não excluiu colocar militares no terreno para proteger o investimento que terá que ser feito para recuperar as infraestruturas que permitem a sua exploração. A Venezuela tem as maiores reservas mundiais de petróleo (18%), mas tira apenas cerca de um milhão de barris por dia. Anos de desinvestimento e sanções estrangeiras causaram o problema, mas o petróleo venezuelano também não é barato de refinar. E os preços têm estado a cair: cerca de 60 dólares o barril na sexta-feira, quando já chegou a ultrapassar os 100 dólares. “Não precisamos do petróleo venezuelano. Temos muito petróleo nos EUA. O que não vamos permitir é que a indústria petrolífera da Venezuela seja controlada por adversários dos EUA”, afirmou Rubio, questionando porque é que China, Rússia ou Irão precisam deste petróleo. “Não vamos permitir que o Hemisfério Ocidental seja uma base de operações para os adversários, concorrentes e rivais dos EUA”, referiu, dizendo também querer que os dividendos beneficiem os venezuelanos.Na sua última estratégia de segurança nacional, publicada no mês passado, os EUA deixaram claro o desejo de voltar a exercer o poder sobre o Hemisfério Ocidental, voltando a uma ideia da América Latina como “pátio das traseiras” dos EUA e à doutrina Monroe (na nova versão que Trump já rebatizou “Donroe”, usando o seu próprio primeiro nome). Mas há quem questione se a contrapartida é deixar o terreno livre para a Rússia na Ucrânia e noutros países europeus e até à China em Taiwan. “Esse é um argumento bem intencionado europeu, de que agora russos e chineses podem fazer o que querem. Eles já estão a fazer, não precisam dos EUA para se legitimar”, referiu Malamud. Pode Cuba ser o próximo?Mas a postura dos EUA deixa outros países da região preocupados, como Nicarágua ou Cuba (ou até a Gronelândia). Mesmo sem o argumento do narcotráfico e sem as reservas de petróleo da Venezuela, Cuba continua a ser um espinho a menos de 150 quilómetros da costa da Florida. “Se vivesse em Havana e estivesse no governo estaria preocupado pelo menos um pouco”, disse o secretário de Estado dos EUA, cujos pais deixaram o país anos antes da revolução liderada por Fidel Castro. A operação em Caracas tem a mão de Rubio, que na luta pela sucessão de Trump ganhou este fim de semana pontos ao vice-presidente J.D. Vance (que não estava no palco em Mar-a-Lago para a conferência de imprensa do presidente). “Isto foi 100% Rubio”, disse Malamud, falando numa vitória do também conselheiro de Segurança Nacional, mas alertando que a situação ainda pode virar.“Há muitos rounds deste combate pela frente e esta operação é muito impopular nos EUA, Entre os democratas, claro, mas também no movimento MAGA”, afirmou o investigador. Afinal, Trump foi eleito com a promessa de pôr fim à intervenção americana em conflitos sem fim à vista. Mas também entre os eleitores, mais preocupados com o custo de vida. Em novembro há eleições intercalares e se Trump perder as maiorias no Congresso, ficando como um lame duck, pode decidir culpar Rubio e apostar em Vance para 2028.Congresso não foi ouvidoPara já, a questão nos EUA é sobre a legalidade da operação, sendo que o Congresso não foi nem consultado nem informado previamente - só eles podem declarar “guerra”. Rubio insistiu na entrevista que a captura de Maduro “não era uma ação que requeria aprovação do Congresso, porque não se tratava de uma invasão”, mas uma “ação policial para capturar um traficante de droga”. Mas esse argumento não convence muitos. A operação militar, na qual participaram 150 aeronaves, foi planeada ao longo de vários meses. Apesar de ter contado com a presença de agentes da DEA (a agência antidroga), foi levada a cabo pela Força Delta. Esta unidade de elite também já foi responsável pela captura, precisamente 35 anos antes da de Maduro, do general Manuel Noriega (então o líder de facto do Panamá) igualmente por suspeita de narcotráfico, e também a captura do líder iraquiano Saddam Hussein, em 2003. Se no primeiro caso a interferência dos EUA na queda de um regime teve resultado, no segundo foi catrastrófica. Como será agora?Quem também questiona a legalidade da operação é a comunidade internacional. Esta segunda-feira, 5 de janeiro, o Conselho de Segurança das Nações Unidas vai discutir esta ação dos EUA. “Não servirá absolutamente para nada, como já não servia antes”, explicou Malamud, falando num mundo onde as instituições multilaterais já não existem. China e Rússia estão entre os aliados de Maduro que condenaram a ação dos EUA, com os europeus a tentarem distanciar-se das ações de Washington sem criticar abertamente, apostando n a ideia de transição democrática para a Venezuela..Força Delta, a unidade de elite que capturou Maduro, Saddam e Noriega