O Irão indicou este domingo, 8 de março, que já tinha escolhido o nome do sucessor do ayatollah Ali Khamenei como líder supremo do país, mas até ao final do dia a única indicação que havia é que “o nome de Khamenei vai continuar”, avançou Hosseinali Eshkevari, membro da Assembleia de Peritos, conselho clerical encarregado de eleger um novo líder, num vídeo publicado nos meios de comunicação iranianos e citado pela Reuters. O que poderá indicar que o escolhido será Mojtaba, filho de Ali Khamenei, morto no primeiro dia dos ataques de Estados Unidos e Israel contra a República Islâmica. Certo é que Washington e Telavive voltaram ontem a ameaçar a longevidade da liderança iraniana. “Ele [o novo líder supremo] terá de obter a nossa aprovação”, afirmou este domingo o presidente dos Estados Unidos à ABC News. “Se ele não obtiver a nossa aprovação, não vai durar muito tempo. Queremos garantir que não temos de voltar a cada dez anos, quando não há um presidente como eu que o permita”. Donald Trump admitiu, porém, estar disposto a aceitar alguém com ligações ao atual regime “para escolher um bom líder”. “Há inúmeras pessoas que se poderiam qualificar”, acrescentou.O que mereceu uma resposta pronta por parte de Teerão. “Não permitimos que ninguém interfira nos nossos assuntos internos. Cabe ao povo iraniano eleger o seu novo líder”, disse o líder da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, ao Meet the Press, da televisão norte-americana NBC. “Isto diz respeito apenas ao povo iraniano e a mais ninguém”.Trump voltou a recusar comentar a duração das operações militares que os EUA estão a levar a cabo com Israel, adiantando apenas que “estamos adiantados em relação ao calendário, tanto em termos de letalidade como em termos de tempo”.Por outro lado, indicou estar disposto a enviar tropas norte-americanas para garantir um armazenamento de cerca de 460 quilos de urânio enriquecido que o Irão supostamente possui e que poderá estar enterrado nas instalações de enriquecimento de Natanz, Isfahan e Fordow, bombardeadas pelos EUA em junho. “Está tudo em cima da mesa”.Também Israel afirmou que vai “perseguir todos os sucessores” de Ali Khamenei e continuar a visar figuras importantes do Irão, como Abolqasem Babaian, o recém-nomeado chefe do gabinete militar do líder supremo, morto num ataque no sábado, tendo o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, sublinhando que o seu governo pretende atacar os governantes do Irão “sem piedade”.Telavive voltou este domingo a atacar o Irão - mas também o Líbano, com o balanço de mortos a chegar aos 400 - tendo atingido instalações de armazenamento de petróleo em Teerão, deixando um denso fumo negro a pairar na capital do país. Para o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, Esmaeil Baghaei, este ataque em grande escala marcou uma “nova fase perigosa” do conflito, sendo um crime de guerra. “Ao atacar depósitos de combustível, os agressores estão a libertar materiais perigosos e substâncias tóxicas para o ar”, escreveu no X. Israel, através do porta-voz militar tenente-coronel Nadav Shoshani, respondeu a esta acusação, dizendo que os depósitos abasteciam o esforço de guerra do Irão, incluindo a produção ou o armazenamento de propelente para mísseis balísticos. “São um alvo militar legítimo”.Agressão hedionda Uma onda de ataques do Irão atingiu este domingo o Golfo, com países como a Arábia Saudita - que reportou as suas duas primeiras vítimas mortais após um projétil militar cair numa zona residencial -, os Emirados Árabes Unidos, o Qatar, o Bahrein e o Kuwait a reportarem ataques. O Ministério da Defesa dos EAU declarou estar a responder às ameaças de mísseis e drones provenientes do Irão, tendo a sua diplomacia, horas depois, afirmado que estavam “a agir em legítima defesa contra a brutal e injustificada agressão iraniana, que incluiu o lançamento de mais de 1400 mísseis balísticos e drones contra infraestruturas e locais civis, resultando em vítimas civis”.“Os EAU sublinham que não procuram envolver-se em qualquer conflito ou escalada, mas afirmam o seu pleno direito de tomar todas as medidas necessárias para proteger a sua soberania, segurança nacional e integridade territorial, e para garantir a segurança dos seus cidadãos e residentes”, referiu ainda o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Abu Dhabi.Também a diplomacia do Kuwait, condenando “uma agressão iraniana hedionda”, adiantou que o país detetou 234 mísseis e 422 drones desde o início da guerra. “Esta agressão resultou em várias vítimas entre cidadãos e residentes, incluindo uma jovem, e levou ao martírio de dois membros das Forças Armadas do Kuwait e de dois membros do Departamento Geral de Segurança das Fronteiras Terrestres, ligado ao Ministério do Interior, enquanto desempenhavam as suas funções, além de ferimentos em vários civis e militares”, revelou um comunicado publicado no X. Um edifício do governo do Kuwait foi este domingo consumido pelas chamas depois de ter sido atacado por drones iranianos.No Bahrein, o Irão atacou uma instalação de dessalinização, expandindo-se o conflito para novo tipo de alvos em toda a região. Esta infraestrutura é fundamental para o abastecimento de água potável no Golfo Pérsico e o ataque ocorreu após o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, ter revelado, no sábado, que um ataque aéreo norte-americano danificou uma instalação de dessalinização iraniana na ilha de Qeshm, alertando que, ao fazer isso, “os EUA criaram esse precedente, não o Irão”.O Conselho da Liga Árabe realizou este domingo uma reunião extraordinária para discutir a escalada da crise após os ataques do Irão a países do Golfo, com o secretário-geral da organização a acusar Teerão de ser “imprudente” e pedindo às autoridades iranianas para pôr fim a “um grave erro estratégico”. Ahmed Aboul Gheit afirmou que os ataques “não podem ser justificados sob qualquer pretexto ou desculpa” e que os esforços de paz dos países do Golfo foram retribuídos com “rockets traiçoeiros e ataques com drones”.O presidente do Irão pediu no sábado desculpas pelos ataques a “países vizinhos”, mas acrescentou que Teerão poderá continuar a retaliar contra ataques com origem em Estados da região. Masoud Pezeshkian voltou este domingo a adotar um tom conciliador, chamando os vizinhos do Irão de amigos e irmãos, ao mesmo tempo que acusou os EUA e Israel de usarem “manipulação” para semear discórdia entre eles. “Não vamos ceder à intimidação, à injustiça ou à intromissão”, afirmou..Trump avisa: "Não haverá acordo com o Irão, exceto a rendição incondicional"