Rixi Moncada, Nasry 'Tito' Asfura e Salvador Nasralla.
Rixi Moncada, Nasry 'Tito' Asfura e Salvador Nasralla.Montagem fotos EPA

Presidenciais nas Honduras: Trump complica o cenário com declaração de apoio a candidato conservador

Há três nomes na corrida à sucessão de Xiomara Castro, com as sondagens a darem um empate técnico entre eles. Entre denúncias de fraude, receio é que se repita a violência de 2017.
Publicado a
Atualizado a

A última vez que as presidenciais hondurenhas estiveram tão renhidas e a tensão era assim elevada, em 2017, a noite eleitoral terminou com acusações de fraude, manifestações violentas e um recolher obrigatório imposto pelo exército, que não impediu que mais de 20 pessoas tenham morrido. O receio é que o cenário se possa repetir neste domingo, 30 de novembro. E a interferência de Donald Trump só veio complicar ainda mais as coisas.

Mais de 6,3 milhões de eleitores estão inscritos para votar nas eleições gerais, onde além do presidente, que é escolhido por maioria simples sem direito a segunda volta, se elegem os 128 deputados ao Congresso Nacional (e os respetivos suplentes), os 20 deputados do Parlamento Centro-americano, os 298 autarcas do país e os 2168 vereadores.

Na corrida à sucessão de Xiomara Castro, a antiga primeira-dama que foi a primeira mulher a assumir a presidência das Honduras e não pode concorrer a um segundo mandato, estão cinco candidatos. Mas o foco está em apenas três: Rixi Moncada, a ex-ministra das Finanças escolhida pela própria presidente para liderar a candidatura do Liberdade e Refundação (ou Livre); o conservador Nasry Asfura, do Partido Nacional, que se destacou enquanto autarca da capital e recebeu o apoio do presidente norte-americano, Donald Trump; e o ex-apresentador de televisão e antigo vice-presidente de Xiomara Castro, Salvador Nasralla, que se candidata pela quarta vez, agora pelo Partido Liberal (centro).

Os três estão num empate técnico nas sondagens pouco fiáveis.

A entrada em jogo de Trump só tornou mais tensa a situação. Numa longa mensagem nas redes sociais, publicada na última quarta-feira, o presidente norte-americano veio dizer que "a democracia está em jogo" nas eleições hondurenhas, fazendo eco de uma acusação da oposição de que uma eventual vitória de Rixi Moncada colocará as Honduras ao lado dos "narcoterroristas" do venezuelano Nicolás Maduro e dos aliados de Cuba e Nicarágua.

"O homem que está a lutar pela democracia é Tito Asfura", indicou, usando o nome pelo qual também é conhecido o candidato do Partido Nacional, lembrando que Rixi Moncada considera o ex-líder cubano "Fidel Castro o seu ídolo". Trump alega ainda que Nasralla, que foi vice-presidente de Xiomara Castro, "não é amigo da liberdade" e a sua candidatura é só um "truque" dos "comunistas", que só estão a querer dividir os votos da oposição. De nada serviu a sua mulher andar em campanha com um boné do movimento MAGA de Trump.

"O povo das Honduras não deve ser enganado novamente. O único verdadeiro amigo da liberdade nas Honduras é Tito Asfura. O Tito e eu podemos trabalhar juntos para combater os narcocomunistas e levar a ajuda necessária ao povo das Honduras", escreveu Trump, que com a eventual eleição do candidato conservador espera ganhar mais um aliado na região – isto apesar de a própria Xiomara Castro, de crítica do presidente norte-americano, ter passado a colaboradora, aceitando os voos de deportação enviados pelo republicano.

Asfura agradeceu nas redes sociais: "Muito obrigado pelo seu apoio, presidente Trump", escreveu. "Mantemo-nos firmes na defesa da nossa democracia, da nossa liberdade e dos valores que tornam o nosso país grandioso", acrescentou.

Entretanto, o oficialismo denunciou tentativa de fraude de parte da oposição, depois de serem reveladas em final de outubro gravações entre uma conselheira do Conselho Nacional Eleitoral, um deputado do Partido Nacional, que apoia Asfura, e um membro das Forças Armadas. O procurador-geral, que como outras instituições está controlada pelo Livre, fala numa "associação criminosa" para "alterar a vontade do povo". Já nas primárias de maio tinha havido problemas com o material eleitoral.

Tanto Nasralla como Asfura consideram que a atual presidente pode usar as Forças Armadas para cometer fraude (os militares serão responsáveis pelo material eleitoral, antes, durante e depois das eleições), enquanto Moncada avisa que os seus rivais têm o apoio do poderoso setor económico que em 2009 derrubou Manuel Zelaya, o marido de Xiomara Castro que tinha sido eleito em finais de 2005 e tomou posse em 2006.

A presidente das Honduras, Xiomara Castro, ao lado da homóloga do México, Claudia Sheinbaum.
A presidente das Honduras, Xiomara Castro, ao lado da homóloga do México, Claudia Sheinbaum. EPA/JOSE MENDEZ

Desafios

No rescaldo das eleições, seja qual for o resultado, o próximo presidente que está previsto tomar posse a 27 de janeiro terá que lidar com o crescimento moderado da economia, com uma inflação perto dos 5%, forte dependência das remessas e dos investimentos estrangeiros e uma dívida pública que supera os 18 mil milhões de dólares. Isto num país com elevado grau de pobreza e uma taxa elevada de emprego informal.

Em relação ao crime, a taxa de homicídios caiu significativamente durante o mandato de Xiomara Castro: era de 38,14 por cada cem mil habitantes em 2022 e, no ano passado, foi de 25,4. Mas a população ainda não se sente segura, com casos de extorsão ligados ao narcotráfico e, alegadamente, o conluio das forças de segurança.

Os pontos chave da campanha foram precisamente a economia, a segurança e a luta contra a corrupção.

Candidatos:

Rixi Moncada (Liberdade e Refundação, Livre)

Rixi Moncada no encerramento da campanha, em Tegucigalpa.
Rixi Moncada no encerramento da campanha, em Tegucigalpa.EPA/GUSTAVO AMADOR

A advogada (que já foi procuradora e juíza), professora universitária e política progressista de 60 anos é a aposta na continuidade. Foi ministra das Finanças e da Defesa durante o Governo da atual presidente, Xiomara Castro, tendo ocupado cargos também durante o Executivo de Manuel Zelaya em 2006 (foi secretária do Trabalho e Segurança Social e depois esteve na área da Energia – em 2009 ficou sob suspeita de corrupção, mas o caso foi fechado sem acusação um ano depois).

Na área económica, a candidata de esquerda defende acabar com o modelo neoliberal do país, controlado "por 25 grupos económicos e dez famílias" que se "apropriaram" de "80% do PIB". Quer "democratizar a economia", dando "oportunidades reais para todos", com especial destaque para pequenos produtores, mulheres e jovens. Quanto à corrupção, defende uma reforma da justiça, pedindo para isso uma maioria no Congresso.

Nasry 'Tito' Asfura (Partido Nacional)

Nasry Asfura com a mulher, Lissette del Cid Fernández de Asfura, no encerramento da campanha, em Tegucigalpa.
Nasry Asfura com a mulher, Lissette del Cid Fernández de Asfura, no encerramento da campanha, em Tegucigalpa.EPA/Gustavo Amador

O empresário da construção de ascendência palestiniana, de 67 anos, ganhou popularidade enquanto presidente da câmara do Distrito Central (a capital, que inclui Tegucigalpa e Comayagüela). Foi eleito em 2013 e reeleito em 2017, graças ao programa de infraestruturas que lhe valeu a alcunha de "Papi, ao seu dispor".

Depois de ter falhado a eleição presidencial em 2021 (foi segundo, atrás de Xiomara Castro), volta a tentar a sua sorte. Representa a direita conservadora neoliberal, defendendo os investimentos público-privados e uma economia de livre mercado, e tem um plano para construir 550 mil casas sociais nos próximos dez anos. Em matéria de segurança, quer reforçar as capacidades das autoridades para a luta contra a extorsão, crime organizado e narcotráfico.

Asfura recebeu o apoio do presidente norte-americano, Donald Trump, que disse que ele era "o homem que defende a democracia".

Salvador Nasralla (Partido Liberal)

Salvador Nasralla, ao centro, junto à mulher Iroska Elvir e ao candidato a câmara de Tegucigalpa, Eliseu Castro.
Salvador Nasralla, ao centro, junto à mulher Iroska Elvir e ao candidato a câmara de Tegucigalpa, Eliseu Castro. EPA/Gustavo Amador

É a terceira vez que o engenheiro e apresentador de televisão de 72 anos, também descendente de palestinianos, concorre às presidenciais. Em 2013 foi quarto à frente do Partido Anticorrupção e em 2017, como candidato da Aliança da Oposição contra a Corrupção, foi segundo numas eleições marcadas por acusações de fraude (e protestos pós-eleitorais que causaram 23 mortos).

Ficou a apenas 50 mil votos do vencedor, o presidente Juan Orlando Hernández (do Partido Nacional de Asfura), que depois de terminar o segundo mandato seria detido e extraditado para os EUA, sendo condenado por conspiração para traficar drogas e outros crimes.

Em 2021, Nasralla desistiu de uma nova candidatura presidencial a favor de Xiomara Castro, tornado-se em 2022 no seu vice-presidente. Deixou o cargo em julho de 2024, para poder candidatar-se a estas eleições pelo Partido Liberal.

A sua campanha centra-se num apelo a restaurar o Estado de Direito e lutar contra a corrupção, propondo para isso uma comissão internacional para investigar sem interferência política. A nível económico, além de defender uma reativação do setor agrícola, quer atrair investimento estrangeiro para gerar emprego, reduzir a burocracia e modernizar as infraestruturas, além de apoiar os pequenos e médios empresários.

Rixi Moncada, Nasry 'Tito' Asfura e Salvador Nasralla.
Trump avisa que espaço aéreo venezuelano está "totalmente fechado"
Rixi Moncada, Nasry 'Tito' Asfura e Salvador Nasralla.
Your Party: arranque atribulado para o partido de Corbyn no meio de lutas pelo poder

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt