Porque é que o Japão vai a eleições antecipadas no próximo domingo, 8 de fevereiro?No passado dia 23 de janeiro, a primeira-ministra Sanae Takaichi anunciou a intenção de dissolver o parlamento e convocar eleições antecipadas. O próximo domingo será a terceira vez que os japoneses vão às urnas em 15 meses. A decisão de Takaichi, que a 21 de outubro de 2025 se tornou na primeira mulher a chefiar um governo nipónico, foi vista como uma tentativa de jogar com a sua popularidade alta - na altura em que dissolveu o parlamento andava nos 70%, entretanto baixou mesmo assim para uns impressionantes 60% - para recuperar a maioria que escapa ao seu Partido Liberal Democrata (LDP, na sigla em inglês) no Parlamento. Quais as razões que a primeira-ministra alegou para dissolver a Dieta?Para que um chefe do governo japonês possa dissolver o Parlamento tem de ou ter sido sujeito a uma moção de confiança ou querer submeter ao escrutínio popular uma mudança crucial nas suas políticas. No caso de Takaichi, a líder do executivo, de 64 anos, argumenta que pretende impulsionar uma grande mudança na direção da política fiscal para a tornar mais “agressiva e responsável”, o que passaria por cortes nos impostos. Outra razão é procurar a aprovação da nova coligação que formou com o Partido da Inovação do Japão, ou Ishin no Kai, desde a sua nomeação como primeira-ministra. A coligação surgiu porque o LDP perdeu a maioria tanto na Câmara dos Representantes, a câmara baixa do Parlamento, como na câmara alta. Depois da posse de Takaichi, o partido Komeito, parceiro de longa data do PLD, decidiu deixar a coligação, o que levou a primeira-ministra a procurar um novo parceiro para garantir a maioria na câmara baixa, permitindo-lhe avançar com as suas políticas. Caso contrário, Takaichi ficaria condenada a negociações difíceis e a formar parcerias com diferentes formações políticas sempre que precisasse de fazer passar uma lei no Parlamento.Mas quem é Sanae Takaichi e como é que chegou ao poder?Aos 64 anos, Takaichi conquistou primeiro, a 4 de outubro, a presidência do PLD, a formação conservadora de direita no poder, quase ininterruptamente desde 1955 no Japão, mas que nos meses anteriores perdera a maioria nas duas câmaras do Parlamento devido, nomeadamente, a escândalos financeiros. Quinta chefe do governo noutros tantos anos, Takaichi sucedeu a Shigeru Ishiba. Nestes pouco mais de três meses, esta amante de heavy metal, que gosta de tocar bateria para descontrair (como provou durante a visita do presidente sul-coreano Lee Jae Myung, num dueto que se tornou viral online), fez subir a tensão na região ao admitir uma intervenção japonesa se a China atacasse Taiwan, a ilha que Pequim vê como província rebelde e que esteve sob ocupação japonesa entre 1895 e 1945. A discípula de Shinzo Abe, o ex-primeiro-ministro assassinado em 2022, é uma defensora da mudança da Constituição japonesa para rever o artigo 9, que determina a renúncia do país à força militar. E defende o reforço da aliança com os EUA, tendo recebido o presidente Donald Trump em Tóquio apenas uma semana após ter tomado posse. .Dueto de bateria traz novo ritmo às relações nipo-coreanas.O que está exatamente em causa neste escrutínio?Os cerca de 104 milhões de eleitores japoneses vão às urnas no domingo para eleger todos os 465 membros da Câmara dos Representantes. Destes, 289 serão eleitos em circunscrições uninominais. Os restantes 176 serão eleitos através de um sistema de representação proporcional. São necessários 233 lugares para obter a maioria.Qual a principal questão que marca estas eleições?A economia parece ser a grande questão nestas eleições. Após anos em que nem os preços nem os salários aumentaram, o Japão tem tido nos últimos meses de lidar com uma situação de inflação, em que a subida dos salários não acompanha a dos preços. Uma realidade que afeta todas as camadas da sociedade, mas sobretudo os mais jovens e pessoas de meia idade, que procuram estabilizar as suas vidas profissionais, casar e formar família. Mas mesmo os mais velhos, se dependerem das pensões, também são afetados. Por isso todos os partidos têm nos seus programas a affordability - ou seja, a acessibilidade - como prioridade, começando por propor abolir a taxa de consumo sobre os alimentos, atualmente de 8%. Uma medida que não parece convencer os economistas. Nesse sentido, a política fiscal “agressiva e responsável” que a primeira-ministra promete promover pode ser enfrentar obstáculos. Embora Takaichi queira injetar dinheiro na economia para promover a inovação e o crescimento, os gastos com a segurança social estão a aumentar, num país onde a média de idades está acima dos 50 anos e onde, com uma taxa de fertilidade de 1,15 filhos por mulher a população deve baixar dos atuais 122 milhões para 105 milhões em 2050, se se mantiver este ritmo. Além disso, os gastos com defesa, que até há pouco tempo eram limitados a 1% do PIB, estão a aumentar rapidamente, com o objetivo de chegar a 2% do PIB até 2027. Outro desafio será lidar com o défice fiscal do Japão que já ultrapassa 200% do PIB, tornando-o o mais alto entre os países desenvolvidos..Além da economia, que outras questões estão em cima da mesa durante a campanha?A crescente presença de estrangeiros no Japão - seja turistas ou residentes - tem subido na lista de preocupações dos japoneses nos últimos anos. E o Sanseito, um partido ultraconservador, de extrema-direita e anti-imigração, fundado em 2020 e liderado por Sohei Kamiya, tem sabido aproveitar esse desconforto, tendo-se tornado no fenómeno das eleições do ano passado para a câmara alta do Parlamento ao conseguir 14 lugares graças à sua mensagem “o Japão Primeiro”, segundo a qual a influência de visitantes e residentes estrangeiros está a sobrepor-se aos interesses dos japoneses. Em 2025, o Japão recebeu 42,7 milhões de turistas, uma subida de 15,8% em relação ao ano anterior. A própria Takaichi abordou a questão durante a campanha, dando o exemplo do impacto do excesso de turistas na sua região natal de Nara. Também o número de residentes estrangeiros está a aumentar no Japão - eram 3,9 milhões em 2025, mais 5% do que no ano anterior -, respondendo à falta de mão-de-obra local. As sondagens confirmam esta preocupação. Um estudo do Asahi Shimbun mostra que 56% dos inquiridos acham que o Japão precisa de menos turistas e de menos imigrantes. .Por falar em sondagens, que resultado é que estas preveem?A acreditar num estudo publicado também no Asahi Shimbun, o LDP de Takaichi deverá conseguir uma vitórias esmagadora, sendo previsível que ultrapasse a maioria de 233 lugares na Câmara dos Representantes. Juntamente com o seu parceiro de coligação, o Ishin no Kai, a coligação no poder deverá atingir 300 assentos, segundo o mesmo estudo. O maior partido da oposição, a Aliança Reformista Centrista (CRA, que junta o Partido Democrático Constitucional do Japão, de Yoshihiko Noda, e o Komeito, antigo parceiro de coligação do LDP, liderado por Tetsuo Saito), está em dificuldades e poderá perder metade dos seus 167 assentos, de acordo com o Asahi Shimbun. .Depois dos pandas e do pingue-pongue, a diplomacia das baquetas