Como é que um jovem militante de extrema-direita foi linchado por um grupo de extrema-esquerda em Lyon?No dia 12, o Instituto de Estudos Políticos (SciencesPo) de Lyon recebeu Rima Hassan, eurodeputada da França Insubmissa, para uma conferência sobre a Palestina. Sete militantes do grupo “feminino e feminista” Némésis, que tem no centro do discurso acusar os imigrantes de violências sexuais, reuniram-se nas imediações, exibindo uma faixa contra a realização da conferência de Hassan. Segundo o procurador Thierry Dran, as militantes que ganharam notoriedade em 2024 quando se infiltraram numa manifestação em Paris contra a extrema-direita, “tinham pedido previamente a diversos amigos que as ajudassem em caso de violência”. O clima era de tensão e a violência materializou-se, segundo o procurador, quando indivíduos que foram arrancar a faixa “estrangularam” uma manifestante e atiraram outra ao chão. Ainda segundo o procurador de Lyon, os referidos amigos não só não intervieram em sua defesa como mais tarde foram “atacados violentamente por um grupo de vinte indivíduos mascarados, encapuzados”, que conseguiram isolar três pessoas. Uma delas, Quentin Deranque, acabou por morrer no hospital, dois dias depois de ter sido pontapeado na cabeça.Quem era Quentin Deranque?Estudante de ciência de dados com 23 anos, Quentin Deranque era um católico versão integrista, muito ativo na sua paróquia. Fazia parte de dois grupúsculos neofascistas (ou de extrema-direita, consoante os meios de comunicação franceses), Allobroges e Audace, e pertenceu à Action Française. Foi enquanto membro do primeiro grupo que desfilou sob cruzes celtas nas ruas de Paris, no ano passado, na reunião anual de grupos de extrema-direita. Os seus amigos descrevem-no como um “rato de biblioteca” e não um “rato negro”, a designação dada aos militantes de um grupo violento entretanto dissolvido, GUD, o qual manteve relações com a Frente Nacional, hoje Reagrupamento Nacional.Como é que este crime se relaciona com a Frente Insubmissa, para lá da conferência da sua eurodeputada Hassan?Segundo o partido liderado por Jean-Luc Mélenchon, em nada. Segundo quase todos os outros partidos, em parte ou muito. Não é uma questão de opinião: na quarta-feira, a justiça anunciou a detenção de duas pessoas, elevando o número para 11. Entre elas figuram os assistentes parlamentares Jacques-Elie Favrot e Robin Chalendar. Este último é suspeito de ter dado guarida a Adrian B., também detido, suspeito de ter participado diretamente no crime. Os três trabalharam para o deputado Raphäel Arnault, fundador do grupo de extrema-esquerda Jeune Garde, que recebeu ordem de dissolução devido ao seu histórico de violência. . Numa dessas ações, o próprio deputado esteve envolvido, o que o levou a ser condenado, em 2022, a quatro meses de prisão, com pena suspensa. A agressão a um jovem de 18 anos deu-se na sequência de uma manifestação LGBT em Lyon que foi alvo de um raid de militantes de extrema-direita. A Jeune Garde foi reiteradamente elogiada pelos insubmissos por fazer o trabalho que cabia à polícia, no seu entender. Dias antes da morte de Deranque, o partido de Mélenchon mostrava-se contra a dissolução do grupo: “Dizemo-lo com orgulho: a Jeune Garde é essencial, precisamente porque desde a sua criação tem a missão de lutar contra a extrema-direita, contra grupos fascistas e neonazis cada vez mais violentos em toda a França.” A violência entre os extremos políticos está espalhada pelo hexágono?Em 2013, um recontro em Paris entre um grupo de skinheads e de redskins terminou com a morte do militante antifascista Clément Méric, de 18 anos. Mas é em Lyon, a terceira maior cidade francesa, que há uma maior história de violência política. Entre 1986 e 2017 contabilizaram-se 69 atos de violência da extrema-direita, um “nível fora do normal”, segundo o historiador Nicolas Lebourg, em declarações ao Libération. De acordo com as autoridades, existem cerca de 400 a 500 militantes de grupos extremistas de direita em Lyon. Foi aí que nasceu, em reação, a Jeune Garde. Segundo as autoridades, terá cerca de 100 militantes. Como é que os outros partidos reagiram aos acontecimentos?Em plena campanha para as eleições municipais, o ex-presidente socialista François Hollande disse que o seu partido não se pode aliar à França Insubmissa na segunda volta, porque não é um partido mas “um movimento de extrema-esquerda”. Isto porque, diz, “abriga grupos no seu seio que fazem mais do que participar no escrutínio”. O ministro da Justiça Gérald Darmanin, que acusou os insubmissos de “complacência” com a violência política, discorda do líder do seu partido macronista, Gabriel Attal, que defendeu o cordão sanitário ao Reagrupamento Nacional, o que inclui o voto, na segunda volta, em candidatos da França Insubmissa. Já o líder do partido de extrema-direita Jordan Bardella aproveitou para apelar a um cordão sanitário à volta da França Insubmissa, tentando virar o jogo e tirar o seu partido do isolamento a que tem estado votado. Refira-se ainda que a ecologista Marine Tondelier, ao ver uma “corrida à apropriação, à manipulação e ao acerto de contas”, lamentou “não ver as pessoas da direita a questionarem a extrema-direita, que também é extremamente violenta”.