P&R. Da autonomia ao sonho (minoritário) da independência do País de Gales
O que é o Acordo de Cardiff?
Na segunda-feira, os líderes dos partidos nacionalistas da Escócia, Irlanda e País de Gales, bem como a líder do governo da Irlanda do Norte, assinaram um memorando de entendimento na capital galesa que defende o direito à autodeterminação de cada povo. O documento nasce da inédita coincidência de os três partidos (SNP, Sinn Féin e Plaid Cymru, respetivamente) se encontrarem no poder em Edimburgo, Belfast e Cardiff, e expressa a vontade dos respetivos executivos cooperarem para cada qual traçar o seu caminho para a independência do Reino Unido. As irlandesas Mary Lou McDonald e Michelle O’Neill, o escocês John Swinney e o galês Rhun ap Iorweth também apontaram como metas a adesão à União Europeia, a aposta num modelo de governação que promova o mesmo tempo o crescimento e combata as desigualdades, e o investimento nas energias renováveis.
Isto significa que os três países estão à beira da independência ou da reintegração, no caso irlandês?
Nem por sombras. O acordo é uma tomada de posição e um instrumento de pressão para acenar a Londres, mas só por si não vai desencadear um processo de ruptura com Westminster. E, como está lavrado no documento de uma página, os partidos em questão “têm diferentes posições constitucionais” e sobretudo “cada nação vai determinar o seu próprio futuro no seu caminho e através do seu calendário”.
A luta pela unificação da Irlanda e a independência da Escócia são processos políticos conhecidos. E quanto a Gales?
Não há dúvida de que o país de 3,1 milhões de habitantes tem uma cultura e identidade distintas da inglesa, apesar de anexado há séculos. Mas o sentimento nacionalista e a luta política pela independência não são tão marcados como nos outros países signatários do Acordo de Cardiff. O Plaid Cymru (Partido de Gales) nasceu em 1925 com o duplo objetivo de salvar a língua local e pôr fim à dependência de Londres. Se o galês não está ameaçado (apesar de continuar minoritário, falado por cerca de 18% da população), a questão da independência ainda está por materializar. Em 2019, uma sondagem da ITV concluía que apenas 12% apoiava a ideia; em 2022, a percentagem duplicou. Já neste ano, um estudo de opinião para a BBC revela que quase um em três galeses (32%) quer cortar as amarras com o Reino Unido. Ainda assim, mesmo entre os eleitores do Plaid Cymru, uma maioria não esmagadora (56%) defende o grito do Ipiranga em galês. Apesar de a ideia ganhar popularidade, sobretudo entre os mais jovens, subsiste uma maioria consistente contra e uma percentagem considerável de indecisos. O próprio chefe do governo saído das eleições de maio - que pôs fim a um monopólio trabalhista -, Rhun ap Iorwerth, afastou do programa de governo a obtenção da independência; primeiro quer apresentar um livro branco e levar o tema a debate e só depois, numa segunda legislatura, avançar para um referendo. “Não considero que seja agora o momento adequado para realizar esse referendo, pois o povo do País de Gales não nos indica que esta seja a altura apropriada”, disse Rhun ap Iorwerth, citado pela BBC.
O Senedd pode convocar um referendo?
Não. A mais recente lei que proporciona mais poderes a Gales (Wales Act 2017) estabelece que “a união das nações de Gales e Inglaterra” é uma “matéria reservada”, ou seja, na qual a assembleia galesa não tem poderes. Em 2022 o Supremo Tribunal decidiu, por unanimidade, que linguagem semelhante na Scotland Act impedia o Parlamento escocês de legislar sobre a criação de um referendo sem consentimento de Westminster. Qualquer referendo galês carece de legislação burilada na Câmara dos Comuns, como aconteceu com o referendo escocês de 2014.
Qual foi o ponto de viragem para uma maior consciência nacional?
Até 1999, Gales não gozava de autonomia. Um ministro não eleito representava o território, situação para a qual os galeses tiveram papel determinante ao reprovar de forma clara, em 1979, a criação de uma assembleia nacional, através de um plebiscito. O sentimento geral mudou e, em 1997, perante a mesma questão, os eleitores disseram sim à devolução de poderes. Ainda assim, os poderes do Senedd eram menores do que o parlamento escocês.
O que fez subir a temperatura política?
O Brexit — para o qual, diga-se, os galeses contribuíram, com o voto maioritário favorável à saída da União Europeia. À medida que a ruptura com Bruxelas alimentou o descontentamento no Reino Unido, a ideia de independência entrou no debate público, deixando de estar restrito aos nacionalistas. Em maio de 2019, a primeira marcha pela independência reuniu cerca de 2 mil pessoas em Cardiff. Três anos depois, a adesão à marcha quintuplicou e foi reproduzida em Wrexham. Também em 2019, há um episódio revelador. Nesse ano foi destruído um mural à polémica submersão do vale de Tryweryn para construir uma barragem para servir a inglesa Liverpool — um processo decidido em Londres e que levou, em 1965, a que os aldeões fossem deslocados. Símbolo maior da prepotência inglesa e da impotência política galesa, a frase que constava no mural, “Cofiwch Dryweryn” (Lembrem-se de Tryweryn”) apareceu replicado um pouco por todo o país.

