Mette Frederiksen, primeira-ministra da Dinamarca, anunciou ter “recomendado” ao rei Frederico X a realização de eleições legislativas antecipadas. O ato eleitoral, previsto para o final de outubro, terá lugar no dia 24 de março. A social-democrata pretende aproveitar a recuperação da sua popularidade, bem como do seu partido, em resultado das ameaças de Donald Trump relativas à Gronelândia.O anúncio de Frederiksen decorreu no Parlamento (Folketing), onde aproveitou para lançar a candidatura para um novo mandato, tendo traçado, ou antes, confirmado as prioridades. “Embora agora haja uma campanha eleitoral na Dinamarca, o mundo lá fora não está à espera. Como todos sabem, o conflito sobre a Gronelândia ainda não terminou. O governo, obviamente, continuará a proteger os interesses da Dinamarca”, referindo-se ao executivo de gestão que passou a encabeçar. “Esta será uma eleição decisiva, porque será nos próximos quatro anos que nós, como dinamarqueses e como europeus, teremos realmente de nos manter independentes”, prosseguiu. Disse que o seu país deve continuar a rearmar-se e a contribuir para a proteção da Europa ao ajudar a Ucrânia contra a Rússia, e também “contra ameaças vindas do ocidente”, leia-se EUA, e contra o risco de terrorismo vindo do sul”. Em resumo, “a política de segurança é e continuará a ser o alicerce da política dinamarquesa por muitos anos” para a afirmação plena da Dinamarca, que terá de “redefinir” a relação com os EUA e “manter a unidade da Europa”. Questionada pela estação pública DR sobre a decisão de ir a votos em março, quando a pressão dos EUA se mantém, afirmou: “Também se poderia colocar desta forma: Trump não deveria decidir sobre a Gronelândia, e também não deveria decidir quando há eleições na Dinamarca.”Eleita pela primeira vez em 2019, tendo então sido a pessoa mais nova a assumir o cargo, o seu mandato a partir da eleição de 2022 fez-se em coligação com os Moderados do ministro dos Negócios Estrangeiros Lars Lokke Rasmussen e com o Partido Liberal do ministro da Defesa Troels Lund Poulsen. A forma como liderou o país perante crises exógenas (pandemia, guerra na Ucrânia, ameaça de anexação da Gronelândia) valeu-lhe elogios generalizados. Outro tema em que recolhe mais créditos do que críticas é o da imigração. No discurso aos deputados, afirmou querer manter uma rigorosa política migratória. A sua linha dura - que inclui comentários politicamente incorretos - ganhou nova dimensão em outubro, quando o até então ministro dos Impostos transitou para a pasta da Imigração e Integração. Rasmus Stoklund, de 41 anos, crítico do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, foi um dos artífices, já nas novas funções, do acordo em sede do Conselho da União Europeia, a que a Dinamarca presidia, sobre o regresso de cidadãos de países terceiros e em situação irregular aos países de origem, uma matéria que faz parte do Pacto de Imigração e Asilo e que deverá entrar em vigor em junho. Stoklund lembrava que “três em cada quatro migrantes irregulares a quem foi emitida uma decisão de regresso na UE continuam a permanecer aqui”. No entanto, Frederiksen e os sociais-democratas são acusados de não atenderem às questões que mais preocupam os cidadãos: o custo crescente da habitação, o aumento do custo de vida em geral e as pressões sobre os serviços da segurança social. Em outubro, os sociais-democratas receberam um sério aviso do eleitorado nas eleições locais: pela primeira vez perderam a câmara de Copenhaga (para os socialistas) num quadro de quebra generalizada. O partido está agora com 22% nas sondagens, mais cinco pontos do que em dezembro, mas a cinco pontos e meio do resultado alcançado em 2022. Os socialistas (ou Esquerda Verde, nome adotado para o estrangeiro) surgem em segundo, com 12%. Nas últimas eleições legislativas ficaram em quarto lugar. Na entrevista à DR, Frederiksen disse que tanto poderá retomar a atual coligação com o centro-direita como aliar-se à esquerda. "Não estou a descartar nada antecipadamente. Nos tempos em que vivemos, vou abster-me de fazer exigências definitivas."