Oitenta dias foi o tempo de que dispôs Phileas Fogg e o seu ajudante Passepartout para darem a volta ao planeta plena de aventuras e ganharem uma aposta - no mundo ficcional de Júlio Verne. Oitenta dias volvidos do início da guerra desencadeada pelos Estados Unidos e Israel ao Irão e as consequências do conflito congelado agravam-se não só para o país visado, mas para todos os restantes devido ao duplo bloqueio do estreito de Ormuz. E, se hoje as apostas são cada vez mais populares, inclusive sobre o destino de guerras como esta, ninguém consegue prever como e quando se dará o desfecho do que Teerão designou de “aventureirismo militar” de Donald Trump. “Não há solução fácil”, disse a vice-ministra da Defesa francesa Alice Rufo sobre o bloqueio do estreito de Ormuz. “Este conflito dura e vai continuar. Depende da capacidade dos iranianos e dos norte-americanos para voltarem à mesa de negociações.”Resposta de TeerãoO Irão respondeu no domingo aos Estados Unidos com a sua própria versão de 14 pontos do plano de paz, mas a parte norte-americana não vê progressos suficientes. Isto quando Israel e EUA voltam a desenvolver contactos para a eventualidade de se regressar às hostilidades. “É hora de os iranianos darem um gesto de boa vontade. Precisamos de uma conversa real, sólida e detalhada [sobre o programa nuclear]. Se isso não acontecer, teremos uma conversa através de bombas, o que seria lamentável”, disse uma fonte da administração dos EUA ao Axios. Na véspera, ao mesmo site, Donald Trump voltou a ameaçar o regime iraniano. “O tempo está a passar. É melhor que se mexam rapidamente ou não lhes restará nada.” O presidente dos EUA repetiu que quer chegar a acordo, mas que os iranianos estão longe de um ponto comum e que, se não houver entendimento, os EUA iria atingir o Irão “muito mais duramente do que antes”. A mesma ideia foi repetida na rede Truth Social, onde acrescentou em maiúsculas: “O tempo é essencial!”, depois de há três semanas ter dito ter “todo o tempo do mundo”. A mediação paquistanesa, ao informar que passou a mensagem para Washington, também se referiu ao tempo, ou à falta dele. “Não têm muito tempo”, disse uma fonte à Reuters, referindo-se às duas partes, as quais, criticou ainda, “continuam a mudar os seus objetivos”. À agência noticiosa iraniana Tasnim, uma fonte junto da equipa de negociações descreveu a proposta focada nas negociações e nas medidas de reforço da confiança. Ou seja, Teerão quer negociar o fim da guerra na região - incluindo o Líbano - e deixar outras questões, caso do programa nuclear, para uma segunda fase. Em conferência de imprensa na segunda-feira, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão disse terem sido transmitidas as “preocupações” à parte norte-americana..Irão ameaça Emirados após suposta visita secreta de Netanyahu.Esmaeil Baghaei defendeu as exigências do Irão, o que inclui o descongelamento dos ativos congelados no estrangeiro, a suspensão de sanções, e o pagamento de indemnizações por parte dos EUA. “Os pontos levantados são exigências iranianas que têm sido firmemente defendidas pela equipa iraniana de negociação em cada ronda de negociações”, afirmou.Segundo a fonte da administração dos EUA citada pelo Axios, a nova proposta iraniana detalha mais sobre o compromisso de não desenvolver uma arma nuclear, porém não se compromete sobre a suspensão do enriquecimento de urânio ou a entrega do seu stock de urânio altamente enriquecido. Na sexta-feira, na China, o presidente dos EUA disse estar aberto a um acordo desde que o Irão concordasse com uma pausa de 20 anos na atividade nuclear e desse em troca uma “garantia real”. No domingo, a agência iraniana Fars noticiou que a lista de exigências de Washington incluía a de que o Irão mantivesse em operação apenas uma instalação nuclear e transferisse o stock de urânio para os EUA. Porém, disse, os EUA recusaram-se a libertar “nem sequer 25%” dos ativos congelados do Irão ou a pagar indemnizações por danos de guerra, e que só cessariam as hostilidades quando Teerão se envolvesse em negociações de paz formais.Segundo a PressTV, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros Kazem Gharibabadi, em reunião com os deputados da comissão de segurança nacional, listou os pontos essenciais das exigências iranianas, o que inclui ainda a retirada das forças dos EUA em torno do Irão e o levantamento do bloqueio naval norte-americano. Este será o ponto de atrito central: os EUA querem que as negociações incidam de início na questão nuclear para poderem manter o bloqueio naval e o Irão deseja levantar o bloqueio e adiar as conversações sobre o programa nuclear. “Esta é uma lacuna estrutural profunda: o Irão procura uma apólice de seguro a longo prazo após a retirada dos EUA do acordo nuclear em 2018, enquanto Washington pretende usar a pressão militar e as sanções para obter o máximo de concessões”, comentou o analista Javad Heiran-Nia à Al Jazeera.Opções de TrumpNa segunda-feira, ao tabloide New York Post, o presidente dos EUA mostrou-se prudente. Disse mais do que uma vez que não podia falar e rejeitou a abertura anunciada na sexta-feira sobre a moratória do programa nuclear. “Neste momento não estou aberto a nada.” Disse também que o regime iraniano vai “em breve saber o que vai acontecer”.Corriam notícias de que Trump deveria reunir-se nesta terça-feira com os seus conselheiros e com as chefias militares e dos serviços de informações para avaliar as opções em cima da mesa. Mas, mais tarde, numa mensagem no Truth Social, este disse ter suspendido “um ataque militar” que estaria previsto acontecer hoje em resultado de um apelo do emir do Qatar, do príncipe da Arábia Saudita e do presidente dos Emirados Árabes Unidos - ao qual acedeu devido ao respeito “pelos mencionados líderes”. Disse ainda que, na opinião de Tamim bin Hamad al Thani, Mohammed bin Salman e Mohamed bin Zayed, um acordo será concluído e incluirá a proibição de armas nucleares ao Irão.“Não faremos o ataque programado ao Irão amanhã [esta terça-feira], mas instrui [secretário da Guerra Pete Hegseth e chefe do Estado-Maior conjunto Dan Caine] a estarem preparados para avançar com um assalto total e em grande escala ao Irão, num instante, caso não seja alcançado um acordo aceitável”, escreveu Trump.Na sexta-feira, o New York Times avançou com a notícia de que EUA e Israel estão em preparações intensas tendo em vista o fim do cessar-fogo. As opções incluem lançar uma campanha de bombardeamento mais intensa contra alvos militares e infraestruturas, invadir a ilha de Kharg, o principal terminal de exportação de petróleo iraniano, e enviar equipas de operações especiais para extrair material nuclear. Esta última opção é tida como a mais arriscada, disseram fontes militares ao NYT. Pressão em OrmuzO Irão formalizou na segunda-feira a criação da Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico, tendo o anúncio sido partilhado nas redes sociais pelo regime. Segundo a agência Fars, Teerão vai fornecer seguros para navios que atravessem o estreito de Ormuz e as águas circundantes do Golfo, com os pagamentos a serem efetuados em criptomoeda. Teerão acredita que a iniciativa pode render mais de 10 mil milhões de dólares por ano, uma forma de ajudar a pagar pelas reparações aos bombardeamentos dos EUA e de Israel.No mesmo dia, os Guardas da Revolução ameaçaram cobrar pelo uso dos cabos submarinos que atravessam o estreito de Ormuz, tendo lembrado que, caso deixem de funcionar, representam uma perda de até “centenas de milhões de dólares por dia” à economia mundial. Numa mensagem no Telegram, os Guardas invocaram a “soberania absoluta” do Irão sobre as suas águas territoriais, o que pode incluir “declarar que todos os cabos de fibra ótica que atravessam a via marítima estão sujeitos a licenças, vigilância e portagens”.Isto enquanto o tráfego no estreito de Ormuz aumentou na semana passada, tendo regressado a níveis da média registada desde o início do conflito no Médio Oriente, após ter atingido um mínimo em tempo de guerra. Entre 11 e 17 de maio, 55 navios transportaram carregamentos de matérias-primas pela via marítima entre 11 e 17 de maio, segundo os dados da empresa de monitorização marítima Kpler, atualizados até segunda-feira de manhã. Um forte aumento em relação à semana anterior, quando 19 navios tinham atravessado o estreito.Repressão acentua-se.Enquanto a Prémio Nobel da Paz Narges Mohammadi saiu do hospital de Teerão e pôde regressar a casa, depois de ter sido libertada sob caução no dia 10 e transferida para a unidade de cardiologia de um hospital em Teerão, o regime apertou ainda mais a malha repressiva, quer nas detenções, quer nas execuções. Entre o primeiro dia de guerra e dia 9 de maio, a Agência de Notícias de Ativistas dos Direitos Humanos Hrana documentou 4023 encarceramentos sob acusações de espionagem, ameaças à segurança nacional ou partilha de informações com meios de comunicação estrangeiros. No que respeita às execuções, estão identificados 26 prisioneiros políticos enforcados desde 28 de fevereiro, 14 dos quais em consequência das manifestações de janeiro. Na segunda-feira, um relatório da Amnistia sobre a pena de morte afirma que 2159 iranianos foram executados em 2025, o maior número desde 1981.Israel impede furo ao bloqueio a Gaza Militares israelitas abordaram várias embarcações em águas internacionais junto de Chipre na segunda-feira, enquanto a flotilha tentava navegar para a Faixa de Gaza, informou o movimento internacional de ativistas Flotilha Global Sumud. Mais de 50 embarcações partiram na semana passada de Marmaris, na Turquia, no que foi descrito pelos organizadores como a última etapa da viagem destinada a desafiar o bloqueio de Israel ao enclave palestiniano. A operação militar, que foi supervisionada pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e pelo ministro da Defesa Israel Katz, foi elogiada pelo primeiro, segundo o qual “frustrou eficazmente um plano malicioso destinado a quebrar o isolamento imposto aos terroristas do Hamas em Gaza”. Foram detidos dezenas de ativistas e levados para o porto israelita de Ashdod. Em comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Turquia condenou a “intervenção das forças israelitas em águas internacionais contra a Flotilha Global, o que constitui um novo ato de pirataria”. A flotilha foi liderada pela ONG turca IHH, que é designada organização terrorista em Israel.