O papa Leão XIV vai reunir-se esta segunda-feira (8 de junho), em Madrid, com algumas das vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica. O encontro, previsto para as 16h15 locais (segundo a agência EFE), não estava na agenda inicial do papa, que admitiu que a pedofilia é “uma ferida que ainda está aberta” na Igreja. A reunião vai realizar-se depois de, durante a manhã, proferir um discurso histórico para as duas câmaras do Parlamento - é o primeiro papa a fazê-lo - e um dia após celebrar missa para mais de 1,2 milhões de pessoas na praça de Cibeles. O encontro com as vítimas de abusos não é isento de polémica. Isto porque as principais associações de vítimas e sobreviventes não foram convidadas, temendo que só sejam incluídas pessoas que participaram no projeto Repara da diocese de Madrid (em 2025 atenderam 95 vítimas, segundo o relatório anual) - eventualmente alinhadas com uma postura de negação do escândalo que a igreja espanhola tem mantido ao longo dos anos. Mas as vítimas dos abusos são muito mais - um especial do jornal El País documenta a existência de pelo menos três mil, enquanto um relatório do Defensor do Povo (equivalente ao Provedor de Justiça em Portugal) admite mais de 400 mil.Quando em novembro de 2025 reuniu no Vaticano com a cúpula da Conferência Episcopal espanhola, o papa admitiu que um dos problemas era a gestão do tema dos abusos sexuais. Em janeiro deste ano, a Igreja espanhola assinou um acordo com o Governo referente à reparação das vítimas. A questão é saber se o papa deixará o tema para falar em privado ou se o abordará nalguns dos discursos públicos que fará em Espanha. PolarizaçãoDepois de no sábado (6 de junho), à chegada a Madrid, ter apelado aos espanhóis - em especial aos líderes políticos - que deixassem de lado as polémicas, Leão XIV deverá voltar a repetir essa ideia num discurso inédito diante dos deputados e senadores. “Hoje, a tentação de ganhar popularidade atiçando o fogo das polarizações parece crescer, em vez de diminuir”, disse o papa, avisando que, enquanto isso, “a dignidade humana continua a ser violada”. O Congresso espanhol é um dos palcos dessa polarização de que Leão XIV falava, com os socialistas no poder abalados pelos escândalos de corrupção, sob pressão para que antecipem as eleições, e uma direita (não apenas extrema) a reclamar das políticas migratórias do governo - Sánchez anunciou, em abril, a legalização de 500 mil migrantes e o tema marcará a visita do papa às ilhas Canárias, a partir de quinta-feira. No discurso de boas-vindas, o papa agradeceu também a Espanha “o compromisso ativo com a paz e a solidariedade entre os povos”, numa referência ao “não à guerra” que o executivo de Sánchez também tem defendido. Leão XIV lamentou que “a mensagem de paz seja infelizmente percebida por uns como ingénua e, por outros, como provocadora”, quando deveria encontrar “acolhimento em quem não se fecha em ideologias pré-fabricadas, mas se abre à verdade”. Missa em CibelesO dia de domingo (7 de junho) ficou marcado pela missa para mais de 1,2 milhões de pessoas na praça de Cibeles, em Madrid. O papa deixou uma “recomendação para a Espanha de hoje e de amanhã”, pedindo que “não seja a religiosidade que anima este país há séculos um museu do passado para ser visitado, mas uma escola de fé da qual ainda hoje se pode beber”. Isto no dia da tradicional procissão do Corpo de Deus.Leão XIV disse ainda que “ninguém pode ajoelhar-se perante o Senhor e desprezar o irmão”, convidando todos os presentes a deixarem para trás “o egoísmo, a indiferença e uma fé confortável e privada” e abrirem-se “aos seus irmãos e irmãs, às famílias, aos pobres, aos que sofrem e aos que perderam a esperança”. E reiterou: “Também nós somos chamados a estar presentes nas situações e nos desafios da sociedade, a não fugir, a comprometer-nos pessoalmente na construção do bem comum”.Ao final da tarde, num encontro com personalidades do mundo da cultura, da educação, da economia e do desporto, na Movistar Arena, o papa deixou recados para cada uma destas áreas. Leão XIV exortou as empresas “a não verem os colaboradores apenas como mais um fator ao serviço dos seus próprios interesses”, pediu às universidades que “não virem as costas ao mundo do trabalho nem renunciem à verdade”, apelou ao mundo da arte para não estar virado só para “as elite” e apelou a que o desporto “não seja reduzido a mero entretenimento ou transformado num simples negócio”. .Papa visita Espanha e garante que continuará combate aos abusos sexuais na Igreja, "uma chaga ainda aberta".Mais de 1,2 milhões de pessoas acompanharam missa de Leão XIV na Praça Cibeles, em Madrid.P&R. Discurso no Congresso, Sagrada Família e migrantes: o que espera o papa em Espanha?