O papa defendeu esta segunda-feira (20 de abril), em Luanda, que “todos os angolanos, sem exceção, têm o direito de construir o país, beneficiando dele de modo equitativo”. No terceiro dia de visita a Angola, Leão XIV lembrou num encontro com os bispos, sacerdotes e outros membros da Igreja Católica como foram “corajosos em denunciar o flagelo da guerra”, lembrando-lhes que esse trabalho não acabou e pedindo-lhes que não desistam de “denunciar injustiças”. Meses depois de Angola assinalar os 50 anos da independência, o papa falou da missão de construir uma “sociedade angolana livre, reconciliada, bela e grande” num encontro na Igreja de Nossa Senhora de Fátima. Cerca de 50 mil pessoas seguiram nas ruas a chegada do papa, saudando-o como em todas as outras etapas da sua viagem. “Noutros tempos, fostes corajosos em denunciar o flagelo da guerra, em suportar as populações flageladas permanecendo a seu lado, em construir e reconstruir, em apontar caminhos e soluções para pôr fim ao conflito armado”, disse Leão XIV na sua mensagem aos membros da Igreja.“O vosso contributo é commumente reconhecido e apreciado. Mas este trabalho não acabou! Promovei, pois, uma memória reconciliada, educando todos para a concórdia e prezando, no meio de vós, o testemunho sereno daqueles irmãos e irmãs, que depois de passarem tormentos dolorosos, tudo perdoaram”, referiu. “Não desistais de denunciar injustiças”, referiu também.Durante a manhã, o papa esteve em Saurimo, onde visitou um lar de idoso e deu missa, falando sempre em português. Na homilia, o papa criticou aqueles que veem Jesus como “um instrumento para atingir outros fins”, como um “prestador de serviços”, dizendo que nesses casos “a fé autêntica é substituída por um comércio supersticioso, no qual Deus se torna um ídolo que se procura apenas quando nos serve e enquanto nos serve”..Leão XIV deixou claro que há “motivos errados” para procurar Cristo - “sobretudo quando é considerado um guru ou um amuleto da sorte”. A multidão não procura “um mestre a quem amar, mas um líder a reverenciar por interesse”, explicou, dizendo que Jesus “não rejeita esta procura insincera, mas incentiva à sua conversão” e alegando que ele não quer “servos, nem clientes” mas procura “irmãos e irmãs”. O papa lamentou ainda que “muitos desejos das pessoas” sejam hoje “frustrados pelos violentos, explorados pelos prepotentes e enganados pela riqueza”. Não é a primeira vez nesta viagem apostólica que usa uma linguagem mais forte. No sábado (18 de abril), já em Angola, diante do presidente João Lourenço, criticou os “déspotas e tiranos”, assim como aqueles que olham para a terra só “para tirar algo”. .As mensagens de Leão XIV em Angola, no “coração do cristianismo africano”.Também não foi a única vez que criticou a exploração dos recursos naturais, defendendo que “é necessário quebrar esta cadeia de interesses que reduz a realidade e a própria vida a uma mera mercadoria”. Na quinta-feira (16 de abril), ainda no Senegal, denunciou um mundo “devastado por um punhado de tiranos” - tendo explicado depois que não era uma mensagem para o presidente norte-americano, Donald Trump, que o tem criticado, e lembrando que os discursos já estavam escritos há semanas. .Papa Leão XIV denuncia mundo “devastado por um punhado de tiranos”.O papa foi eleito líder da Igreja Católica e dos 1,4 mil milhões de fiéis em maio do ano passado, sucedendo a Francisco - que morreu faz precisamente esta terça-feira (21 de abril) um ano (será celebrada uma missa na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, onde foi sepultado). Os primeiros meses do pontificado de Leão XIV foram marcados pelo Jubileu em Roma, cuja agenda herdou do antecessor. Desde então, tem estado a encontrar a sua própria voz, que se tornou mais clara nesta viagem a quatro países africanos - onde tem sido mais crítico com as guerras e a desigualdade. .O papa despede-se esta terça-feira (21 de abril) de Angola, seguindo para a última etapa da sua viagem: Guiné-Equatorial. Aí vai encontrar-se com o presidente Teodoro Obiang, que está há mais de 45 anos no poder, antes do habitual encontro com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático. Segue-se um encontro cultural, no recém batizado Campus Leão XIV da Universidade Nacional, antes de visitar um hospital psiquiátrico. .“Que Deus abençoe Angola”: Papa apela à reconciliação, ao diálogo e à esperança