O casal Clinton aceitou depor sobre o caso Epstein perante uma investigação da Câmara dos Representantes depois de terem recusado, numa primeira instância, e sido ameaçados com a instauração de um processo por desrespeito ao Congresso. Os termos das audições ainda não terão sido concluídos. A divulgação de 3,5 milhões de documentos relacionados com a investigação ao traficante de menores Jeffrey Epstein, na sexta-feira passada, foi acompanhada por declarações do procurador-geral adjunto de que não havia mais nada para mostrar ao público e que aquele conteúdo não continha material passível de investigação. Ainda assim, são várias as figuras públicas que estão a encarar as consequências da sua ligação a Epstein.O republicano James Comer, presidente da Comissão de Supervisão da Câmara dos Representantes, disse que Bill e Hillary Clinton, antigos presidente e secretária de Estado, não adiantaram uma data para os depoimentos. “O advogado dos Clinton disse que concordam com os termos, mas esses termos ainda carecem de clareza e não forneceram datas para os seus depoimentos”, afirmou Comer.O casal havia comunicado estar disponível para cooperar, mas não queria comparecer no Congresso, tendo alegado estarem a ser vítimas de uma jogada política e que o testemunho presencial não fazia sentido, porque já tinham prestado declarações sob juramento sobre o caso. “Não há explicação plausível para o que estão a fazer, que não seja política partidária. Dizer que não conseguem concluir o vosso trabalho sem falar connosco é simplesmente bizarro”, escreveram os Clinton numa carta endereçada à comissão em meados de janeiro, quando explicaram a sua recusa. Os representantes do casal tentaram negociar um limite de quatro horas de entrevista com Bill Clinton sobre “questões relacionadas com as investigações e processos contra Jeffrey Epstein” e que Hillary Clinton apresentasse uma declaração sob juramento. Mas a proposta foi rejeitada. “Os Clinton não têm o direito de ditar os termos de intimações legais”, disse Comer. Perante a hipótese de serem condenados por desrespeito a penas de prisão – como aconteceu a aliados de Donald Trump durante a investigação do ataque ao Capitólio –, os Clinton cederam. Uma vez fora da presidência, Bill Clinton viajou várias vezes no avião privado do homem que morreu quando estava preso, em 2019. No entanto, não há qualquer prova de ter cometido qualquer ilícito. O democrata do Arkansas disse estar arrependido pela relação que manteve, mas que desconhecia as atividades criminosas de Epstein.Os representantes que obrigaram por lei a que o processo Epstein saísse a lume discordam do Departamento de Justiça e prometem continuar a trabalhar para que nada fique oculto, até porque Todd Blanche, o ex-advogado pessoal de Trump promovido a procurador-geral adjunto, disse existirem 6 milhões de ficheiros e foram até agora divulgados 3,5 milhões. “Por incompetência, não conseguiram apagar os nomes das vítimas, enquanto, ao mesmo tempo, retinham intencionalmente documentos e editavam documentos que continham nomes de pessoas que provavelmente deveriam ser investigadas”, disse o republicano Thomas Massie ao Washington Post. Algumas vítimas contactaram Massie e o democrata Ro Khanna, autores da lei que obrigou o Departamento de Justiça à divulgação dos ficheiros, tendo afirmado que os seus casos não estão entre o que foi publicado. Além disso, o advogado das vítimas James Marsh põe em causa a publicação do material sem qualquer contexto de suporte e de forma desorganizada. Este diz que mais diligências deveriam ser conduzidas, entrevistando os agentes do FBI que conduziram as investigações. “Por que é que Epstein tinha tanto poder? Por que é que era tão difícil resistir-lhe? Não vamos saber isso nos documentos. Os humanos que estão a escrever os documentos é que podem responder a essas perguntas.”Consequência da publicação dos ficheiros, o ex-embaixador britânico Peter Mandelson abdicou do seu lugar na Câmara dos Lordes e está sob investigação policial, suspeito de ter passado informações confidenciais a Epstein. Também em Inglaterra, a ex-mulher do ex-príncipe André, Sarah Ferguson, viu-se na contingência de encerrar a sua instituição de caridade, Sarah’s Trust, depois de novos e-mails comprovarem a sua relação com Epstein, já depois da sua condenação. Em França, questões se levantam sobre a ligação do ex-ministro da Cultura Jack Lang e da sua filha Caroline ao milionário através de uma sociedade off-shore. Caroline passou a ser beneficiária de 5 milhões de dólares no último testamento de Epstein, redigido dois dias antes da sua morte. Mas a produtora de cinema disse ao site Mediapart desconhecer a existência do testamento.