Orelha, um cão de rua cuidado pela comunidade da Praia Brava, bairro de Florianópolis, no sul do Brasil, logrou o que nem a pandemia de covid-19 conseguiu: unir o muito polarizado país, da esquerda à mais radical das direitas. A tortura e morte do animal, supostamente por um grupo de adolescentes a cumprir um desafio macabro de internet, chocam os brasileiros desde a divulgação do caso, em meados de janeiro. Mário Motta, um deputado do PSD, partido que se intitula de centro, de direita e de esquerda, avançou com um projeto de lei para endurecer a punição a envolvidos em crimes de maus-tratos contra animais chamado informalmente de “Lei Orelha”. Humberto Costa, um dos mais vocais senadores do PT, de Lula da Silva, pediu urgência na votação. E os deputados Capitão Alden e Rosana Valle, do PL, de Jair Bolsonaro, redigem outros projetos sobre o caso. Por uma vez, a parlamentar trans Erika Hilton, do PSOL, o mais à esquerda dos partidos brasileiros, e Nikolas Ferreira, espécie de menino prodígio do bolsonarismo já condenado na Câmara dos Deputados por discurso transfóbico, tiveram intervenções convergentes no parlamento. De Fabiano Contarato, deputado gay do PT, a Júlia Zanatta, parlamentar acusada de associação ao nazismo, todos se revoltaram com o episódio, incluindo o senador Flávio Bolsonaro, o mais conservador candidato à presidência da República em 2026, e a primeira-dama Janja da Silva, mulher do candidato à reeleição Lula. No domingo, 1 de fevereiro, a Avenida Paulista, em São Paulo, palco de tantas manifestações de bolsonaristas e algumas de lulistas nos últimos anos, foi cenário de um ato a exigir justiça por Orelha. Belo Horizonte, Vitória, Porto Alegre, Caxias do Sul, Manaus, Rio Branco, Campinas, São José do Rio Preto, Araçatuba, Belém, Fortaleza e Rio de Janeiro também organizaram protestos. Cidades do estado de Santa Catarina, como Balneário Camboriú, Blumenau, Criciúma e São José, reuniram manifestantes indignados, assim como Florianópolis, a capital catarinense, onde aconteceu o crime, que reuniu amigos do próprio cão, a empunhar cartazes, a gritar palavras de ordem e a caminhar com animais de estimação ao colo. Nas redes sociais, os abaixo-assinados chegaram a mais de 200 mil assinaturas a pedir punição exemplar aos responsáveis. Mas o que aconteceu, afinal, na Praia Brava, a casa do popular Orelha? No dia 5 de janeiro, o cão, com 10 anos, alimentado pelos moradores e comerciantes do bairro e considerado uma mascote pelos frequentadores da praia, foi encontrado gravemente ferido, levado a uma clínica veterinária e submetido a eutanásia dada a gravidade dos ferimentos, sobretudo na cabeça, provavelmente cometidos por objetos como paus ou garrafas. Os suspeitos da agressão são quatro adolescentes, cujos nomes não foram divulgados, à luz do Estatuto da Criança e do Adolescente, dois dos quais alvos de operação policial em Florianópolis no dia 26 de janeiro. Os outros foram apreendidos ao regressar de uma viagem à Disney World, nos EUA, pré-programada. Segundo Mardjoli Valcareggi, a delegada de polícia encarregada do caso, a identificação dos suspeitos foi feita com base em depoimentos de testemunhas, entre eles o de um porteiro insultado pelos adolescentes na noite do crime que os viu vandalizarem um quiosque de praia, e na análise do registo de câmaras de vigilância na região no mesmo período num total de mais de mil horas. As investigações apuram também se há relação com o afogamento semanas antes de outro cão de rua, o Caramelo, na mesma praia. Além dos quatro adolescentes, três adultos, os pais e um tio dos jovens, são suspeitos de coação e ameaça àquele porteiro, entretanto afastado do trabalho por razões de segurança. A polícia trabalha com a possibilidade de os criminosos terem agido movidos por um sinistro jogo online.Para o pediatra Daniel Becker, colunista do jornal O Globo, “violência extrema não surge do nada”. “Meninos aprendem observando, e o primeiro espelho é a família. Pais que expressam racismo, xenofobia e desprezo aos mais pobres, ensinam violência e intolerância. Pais permissivos, que não impõem limites e responsabilidade, que relativizam desvios, que confundem proteção com acobertamento, que usam dinheiro, influência ou intimidação para garantir impunidade – como parece ter acontecido neste caso – ensinam o privilégio, a ausência de empatia, mostram que a lei não se aplica a todos. Isso cria pequenos monstros”.“O segundo espelho é o mundo digital”, acrescenta o articulista. “Mergulhados sem limites nas redes sociais, Discord, Telegram e certos jogos, meninos são expostos diariamente a conteúdos de violência absoluta e brutal. Moradores de rua incendiados, linchamentos, execuções policiais. No Discord, animais são brutalmente torturados ao vivo. A banalização do crime e a naturalização da violência vai dessensibilizando as suas almas”..Varginha. O ET brasileiro completa 30 anos