O opositor venezuelano Juan Pablo Guanipa, próximo da Nobel da Paz María Corina Machado, passou menos de 12 horas em liberdade, voltando a ser detido depois de as autoridades considerarem que violou as condições da sua libertação. Em causa terão estado as muitas declarações públicas que fez, além do périplo pelas várias prisões de Caracas para animar as famílias de outros presos políticos. “Aqui estou, a ser libertado depois de um ano e meio. Dez meses escondido, quase nove meses detido. Hoje estou a ser libertado”, disse Guanipa num vídeo partilhado no X após sair de um centro de detenção em Caracas, na tarde de domingo. Foram as primeiras de muitas declarações ao longo do dia. 12 horas depois, o filho denunciou que tinha sido “sequestrado” por uma dezena de pessoas não identificadas. .O Ministério Público da Venezuela confirmou, durante a madrugada, que tinha “solicitado ao tribunal competente revogar a medida cautelar” de Guanipa, “por se ter verificado o incumprimento das condições impostas” para a sua libertação. Segundo um comunicado, partilhado pelo procurador-geral Tarek William Saab, foi pedido que passasse ao regime de “prisão domiciliária”. Mas 12 horas depois do “sequestro” a família continuava sem notícias de Guanipa, de 61 anos, exigindo uma “prova de vida”..Durante o seu tempo em liberdade, o antigo vice-presidente da Assembleia Nacional, do partido Primeiro Justiça, percorreu Caracas numa caravana de motos, em apoio a outros presos políticos. E defendeu que era o momento de falar “sobre o presidente e o futuro da Venezuela”, depois de um processo marcado por meses de “perseguição, clandestinidade e prisão”. À agência de notícias francesa AFP, Guanipa denunciou a fraude eleitoral que permitiu reeleger Nicolás Maduro em 2024, pedindo “respeito pela vontade do povo venezuelano” e novas eleições.O caso de Guanipa - que, em 2017, foi eleito governador do estado de Zulia mas recusou prestar juramento diante de uma Assembleia Nacional que considerava ilegítima e acabou destituído - é uma chamada de atenção para todos os presos políticos que já saíram em liberdade desde a queda de Maduro. Mas que não estão realmente livres, estando sujeitos a proibição de falar e obrigatoriedade de se apresentarem regularmente às autoridades, entre outras medidas.Uma situação que poderá mudar com a aprovação de uma Lei da Amnistia, que esta terça-feira (10 de janeiro) será votada novamente na Assembleia Nacional (passou a primeira leitura na quinta-feira, 5 de fevereiro). Parte da oposição aceitou dialogar sobre a proposta, assim como organizações de direitos humanos, como o Foro Penal, que sugeriram várias alterações ao projeto defendendo sempre que, enquanto prossegue o debate, continuem as libertações. Desde a queda de Maduro, na operação militar dos EUA a 3 de janeiro, o governo interino de Delcy Rodríguez (pressionado pela administração de Donald Trump) já libertou 426 presos políticos, segundo as contas do Foro Penal. Caracas fala em mais de 900. Mas, de acordo com a organização não governamental, ainda haverá cerca de 650 nas várias prisões venezuelanas. Guanipa é um dos mais emblemáticos, tendo entrado para a clandestinidade depois de a 9 de janeiro de 2025 surgir ao lado de María Corina Machado num protesto da oposição e sido detido em maio. Foi acusado de conspiração eleitoral e, mais tarde, terrorismo, branqueamento de capitais e incitamento à violência e ao ódio. No domingo, além de Guanipa, tinham sido libertados outros dois opositores de relevo: o ex-deputado Freddy Superlano e o advogado da própria líder opositora, Perkins Rocha. Ambos tinham sido presos após as eleições de 2024. .‘El Helicoide’: símbolo da tortura do chavismo vai dar lugar a complexo desportivo e cultural?