Lavrov garante na ONU que Rússia "não vai interromper" a guerra na Ucrânia
A Rússia "não vai interromper" a sua guerra com a Ucrânia, garantiu esta quarta-feira, 23 de setembro, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, acusando a Europa de estar a tentar sabotar os esforços de paz.
"Gostaria de reiterar que não vamos interromper a nossa operação militar especial", disse Lavrov, numa reunião do Conselho de Segurança sobre a Ucrânia, convocada pelos membros europeus desse órgão da ONU.
"A Europa só quer uma pausa e quer usá-la para encher o regime de Kiev com armas", acrescentou.
ONU alerta para nova e perigosa fase da guerra na Ucrânia
A ONU alertou esta quarta-feira, 23 de setembro, que a guerra na Ucrânia está a entrar numa “nova e perigosa fase da guerra”, com a intensificação dos ataques, o aumento das baixas civis e o risco de um alastramento regional crescente.
"As consequências fazem-se sentir muito além do campo de batalha. Não se deixem enganar. Não se trata simplesmente de uma escalada nos combates. Trata-se de uma escalada no sofrimento humano, no risco regional e nos danos causados aos princípios da Carta da ONU e à ordem internacional", disse esta quarta-feira Rosemary DiCarlo, subsecretária-geral da ONU para Assuntos Políticos e de Consolidação da Paz.
Numa reunião de alto nível do Conselho de Segurança da ONU sobre a Ucrânia, convocada pelos membros europeus do órgão e presidida pelo ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noel Barrot, DiCarlo afirmou que o corrente ano tem sido particularmente devastador para os civis.
Só nos primeiros oito meses, foram mortos ou feridos mais civis na Ucrânia do que durante todo o ano de 2025, realçou.
Desde fevereiro de 2022, pelo menos 17.257 civis, incluindo 835 crianças, foram mortos na Ucrânia e outros 53.693 ficaram feridos.
As baixas civis decorrentes de ataques ucranianos dentro da Federação Russa também aumentaram significativamente, com as autoridades russas relatando 443 mortos e 2.932 feridos de janeiro a agosto.
Contudo, são os incidentes com drones transfronteiriços e atividades militares em torno de instalações nucleares que estão a aumentar os temores de um maior impacto regional do conflito, segundo a ONU.
"A preocupação continua a crescer relativamente às consequências da guerra nos países vizinhos da Ucrânia e ao perigo de uma maior expansão. As incursões transfronteiriças de drones que afetam ou se aproximam do espaço aéreo dos Estados vizinhos tornaram-se cada vez mais frequentes, aumentando as preocupações sobre o perigo de um maior alastramento regional", disse DiCarlo.
Os ataques a passagens fronteiriças e a infraestruturas de transporte e logística junto das fronteiras internacionais agravam estes riscos, acrescentou.
Nas últimas semanas, foram relatados incidentes envolvendo drones nas zonas fronteiriças da Ucrânia com a Moldova e a Polónia, bem como na Lituânia e na Roménia.
"A atividade militar relatada dentro e em redor das instalações nucleares da Ucrânia, bem como das instalações nucleares na Federação Russa, continua também a ser uma séria preocupação. Qualquer incidente que ponha em perigo a segurança de qualquer instalação nuclear pode ter consequências catastróficas", advertiu a representante da ONU.
Com a aproximação do inverno, ataques à infraestrutura energética da Ucrânia podem deixar milhões de pessoas sem aquecimento e eletricidade, alertou DiCarlo, pedindo uma moratória imediata nos ataques contra centros populacionais.
Reafirmando a soberania e a integridade territorial da Ucrânia, a subsecretária-geral instou à intensificação da diplomacia rumo a um cessar-fogo imediato, completo e incondicional.
"O envolvimento diplomático deve ser acompanhado por uma desescalada significativa", enfatizou, alertando que, sem isso, os riscos para os civis, para a região e para a paz e segurança internacionais só aumentarão.
EUA tentam travar ataques a instalações energéticas
Um acordo para interromper os ataques contra infraestruturas energéticas na Ucrânia e na Rússia é precisamente aquilo que os Estados Unidos vão tentar alcançar, anunciou esta quarta-feira o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio.
"Vamos tentar. Acredito que estamos preparados para desempenhar um papel positivo para o conseguir", declarou Rubio, numa conferência de imprensa após o encontro com o seu homólogo russo, Serguei Lavrov, em Nova Iorque.
O chefe da diplomacia norte-americana não esclareceu se a questão dos ataques às instalações energéticas foi abordada na reunião, nem forneceu detalhes sobre os assuntos discutidos com o ministro russo.
Rubio recordou que a Ucrânia tem atacado refinarias e outras infraestruturas russas ligadas ao petróleo e ao gás, enquanto a Rússia continua a atingir a rede elétrica ucraniana, numa altura em que se aproxima o inverno.
"Quando se fala de energia, isso significa coisas diferentes para pessoas diferentes", disse Rubio.
"Se perguntar ao Presidente [ucraniano, Volodymyr] Zelensky, ele argumentará que a capacidade de proteger a sua rede elétrica é uma prioridade fundamental para eles", acrescentou o chefe da diplomacia norte-americana.
Rubio reconheceu que alcançar um entendimento não será simples, uma vez que Moscovo e Kiev consideram os ataques às infraestruturas energéticas parte dos respetivos objetivos estratégicos.
Ainda assim, Rubio defendeu que vale a pena procurar um acordo que seria "benéfico para ambos os países e para o resto do mundo".
O secretário de Estado admitiu também a possibilidade de um novo encontro entre o Presidente norte-americano, Donald Trump, e o homólogo russo, Vladimir Putin, à margem da cimeira do G20, prevista para dezembro, na Florida, caso o líder russo participe na reunião.
Segundo Rubio, a cimeira poderá constituir "uma nova oportunidade para que ambos os líderes conversem".
Putin planeia igualmente participar na cimeira do Fórum de Cooperação Económica da Ásia-Pacífico (APEC), prevista para novembro, na China, onde poderá também reunir-se com Trump.
Rubio alertou ainda para o risco de a guerra entre a Rússia e a Ucrânia se alargar a outros países, através de ataques híbridos, atos de sabotagem ou incidentes acidentais que possam desencadear um confronto direto.

