O que aconteceu aos líderes do Pacto da Chuva Temporã?Na semana passada, as autoridades chinesas prenderam Li Yingqiang, o líder da Igreja Pacto da Chuva Temporã, que é conhecida pela oposição ao controlo estatal e por operar de forma extraoficial. Durante essa operação, vários membros foram presos, e os seus locais de culto foram alvo de inspeções policiais. O pastor fundador, Wang Yi, está a cumprir nove anos de prisão por incitar à “subversão do poder do Estado” e gerir “operações comerciais ilegais”.O que são igrejas clandestinas no contexto chinês?A China reconhece oficialmente o budismo, taoísmo, catolicismo, protestantismo e o islão. No entanto, o regime controlado pelo Partido Comunista, que advoga o ateísmo aos seus militantes, impõe restrições à liberdade religiosa. Por exemplo, na nomeação dos clérigos, no conteúdo dos sermões, ou ainda no achinesar da decoração dos lugares de culto. As fações católicas e protestantes que recusaram submeter-se ao Estado são as igrejas clandestinas (ou subterrâneas), que se reúnem nas chamadas igrejas domésticas, fora dos locais tradicionais de congregação.Mas se Pequim e o Vaticano têm um acordo em vigor porquê estas detenções?Porque o acordo apenas cobre a religião católica. Os dados oficiais mostram que o número de praticantes protestantes subiu nas últimas décadas (38 milhões em 2018) e é superior ao de católicos (seis milhões). Apesar de a Santa Sé não manter relações diplomáticas com a República Popular da China - é o único Estado europeu a reconhecer a República da China, ou Taiwan -, o papa Francisco aprovou em 2018 um acordo em que a organização católica reconhece as nomeações feitas pelas autoridades chinesas, mas detém o poder de veto. No entanto, muitos padres e fiéis resistiram a essa perda de autonomia e mantêm uma organização própria. O novo papa deixou em aberto a hipótese de mudar de política. Numa entrevista para o livro Leão XIV: cidadão do mundo, missionário do século XXI, o norte-americano disse que está a ouvir “um grupo significativo de católicos chineses que durante muitos anos viveram algum tipo de opressão ou dificuldade em viver a sua fé livremente”, enquanto tenta obter “uma compreensão mais clara” de como a Igreja pode continuar a sua missão naquele país.Por que o governo chinês reprime estas igrejas? Pequim justifica a sua ação alegando que as igrejas representam um risco à segurança nacional e à estabilidade social. As autoridades argumentam que as igrejas que não estão registadas oficialmente são focos de atividades subversivas e que desafiam a ideologia e a política do Partido Comunista Chinês. Na prática, querem vedar qualquer hipótese de o clero desempenhar um papel de resistência política, como aconteceu nos anos 1980 na Polónia sob o jugo comunista. O que é que as autoridades chinesas têm feito aos membros das igrejas não autorizadas? Utilizam táticas de intimidação e repressão, o que inclui detenções em massa, perseguições a membros ativos e vigilância constante. Os agentes de segurança realizam incursões em reuniões e cultos, resultando em prisões e ameaças àqueles que se envolvem em atividades religiosas não autorizadas. Além disso, relatos indicam um ambiente de medo e insegurança entre os fiéis, que temem represálias e consequências legais. A repressão intensificou-se com a chegada ao poder de Xi Jinping, mas ganhou nova dimensão nos últimos meses com a proibição da difusão de conteúdos religiosos online - as missas eram seguidas por dezenas de milhares - e com a recente discussão no Politburo do PCC sobre a “promoção sistemática da sinização da religião”, ou seja, de adaptá-la à realidade chinesa pelos parâmetros comunistas. O que reporta a Human Rights Watch (HRW) sobre a situação das igrejas clandestinas na China? A organização não governamental tem denunciado a crescente violação da liberdade religiosa na China, especialmente em relação às igrejas clandestinas. Em outubro, o evangélico “Ezra” Jin Mingri, líder e fundador da Igreja de Sião, foi preso, em conjunto com uns 30 pastores. Em dezembro, o alvo foi a Igreja Yayang, com o registo de cem detenções. A sua igreja em Wenzhou, segundo a associação norte-americana China Aid, está ameaçada de demolição. Para a HRW, esta detenções fazem parte de um padrão mais amplo de repressão que inclui a limitação de direitos civis e políticos. A HRW também tem chamado a atenção para o impacto que essas ações têm sobre a vida espiritual e social das comunidades religiosas, enfatizando que o “tratamento brutal e a falta de liberdade são preocupações sérias que devem ser abordadas pela comunidade internacional”. Como reagiu a comunidade internacional?A detenção de “Ezra” Jin Mingri, em outubro, cuja família vive nos Estados Unidos, levou o secretário de Estado Marco Rubio a condenar a “hostilidade contra os cristãos que rejeitam a interferência do partido na sua fé”. O Senado, pela mão do republicano Ted Cruz, aprovou uma moção a pedir a libertação dos detidos.