A celebração dos 250 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos, no sábado, 4 de julho, ficará nos livros de História não apenas pelo marco histórico deste aniversário, mas pela forma como a meteorologia e a política se fundiram numa noite de dramatismo. Em Washington, DC, perante uma ameaça real de tempestade severa que forçou a evacuação de emergência do National Mall a meio da tarde, a equipa de organização do evento realizou um golpe logístico que fez jus à tradição norte-americana de transformar contrariedades em vantagens competitivas.Ao modificar, em cima da hora, o calendário das comemorações na Costa Leste, a organização adiou a intervenção de Trump e o gigantesco espetáculo pirotécnico de Washington para lá da meia-noite (hora local). Esta decisão fez com que regiões como Nova Iorque, Boston e Florida lançassem os seus fogos de artifício primeiro, deixando para a capital o papel de encerramento monumental do dia.O National Mall acabou por acolher uma cerimónia ligeiramente encurtada, mas visualmente avassaladora, onde os mais de 850 mil engenhos pirotécnicos - um recorde destinado ao Livro do Guinness - cruzaram os céus da capital servindo de cenário físico ao combate ideológico que Trump acabara de lançar, sob o intenso aplauso dos milhares de pessoas que resistiram à tempestade para assistir à cerimónia.A cruzada anticomunista sob o céu de WashingtonQuando Donald Trump subiu finalmente ao palco, perante uma multidão estimada em 150 mil pessoas que regressaram ao recinto após o alerta de tempestade, o tom solene esperado de um chefe de Estado num aniversário nacional deu rapidamente lugar a uma retórica de confronto direto. “O relâmpago nunca vos irá parar”, começou por declarar o presidente, elogiando a resiliência dos presentes antes de direcionar o foco da sua intervenção para um feroz ataque ao comunismo e à esquerda progressista.. Recuperando a linha ideológica que traçara na véspera no Mount Rushmore, Trump apresentou o comunismo como uma ameaça interna ativa e perigosa. “Não queremos comunistas no nosso país. Nunca funcionou e nunca funcionará”, afirmou, sob uma forte ovação da assistência. Num dos momentos mais ‘quentes’ da noite, o governante utilizou uma metáfora clínica para justificar uma ação preventiva contra os seus opositores políticos: “Temos de parar uma ameaça como esta imediatamente e antes que ela comece. Tal como um cancro, temos de o extirpar primeiro.”Para sustentar a sua narrativa de combate, o presidente rodeou-se de heróis militares centenários - veteranos sobreviventes de Pearl Harbor, do Dia D, da Guerra da Coreia e até do Vietname - e de relíquias históricas, como a bandeira de 1777 e a insígnia que cobriu o caixão de Abraham Lincoln. “As estrelas e riscas lançaram a foice e o martelo no esquecimento antes, e fá-lo-ão novamente se for necessário”, disse Trump, traçando um paralelo direto entre as vitórias da Guerra Fria e a atual polarização interna do país.A par da exaltação militarista e espacial - com a promessa de cravar a bandeira americana em Marte através do Programa Artemis II -, Trump aproveitou o palco para introduzir o Save America Act. A proposta de lei, que exige identificação obrigatória do eleitor, prova física de cidadania para votar e o fim do voto por correspondência, foi apresentada pelo presidente como a ferramenta essencial para travar o que classificou como “fraude eleitoral”, inflamando as hostes para as eleições intercalares de novembro.. Indignação democrata: “Oportunismo inaceitável”A tónica partidarizada do discurso gerou uma onda de indignação imediata nas fileiras do Partido Democrata. Figuras cimeiras da oposição acusaram a Casa Branca de profanar o caráter historicamente apartidário do 4 de Julho para lançar uma campanha eleitoral agressiva a partir de um monumento nacional.O antigo presidente Barack Obama utilizou a rede social X para apresentar um contraponto direto à tese de Trump de que o país vive uma “era de ouro” inquestionável sob a sua liderança. “A América é um trabalho constante em progresso”, escreveu Obama. “Cabe a cada geração assumir o trabalho inacabado da anterior - protegendo o que está certo e corrigindo o que está errado.”Também o antigo presidente Bill Clinton emitiu uma declaração de forte teor institucional, alertando que o país celebra os seus 250 anos “num período de profunda divisão”. Clinton avisou que existem atualmente “ameaças sérias às [suas] próprias instituições e à democracia”, criticando implicitamente a retórica de exclusão promovida pelo atual elenco governativo.Nos corredores do Congresso, as lideranças democratas rotularam a promoção do Save America Act no National Mall como um “oportunismo eleitoral inaceitável”.Republicanos cerram fileiras em torno do nacionalismoEm sentido inverso, o campo conservador e os aliados do presidente aplaudiram de forma unânime a intervenção. O vice-presidente JD Vance, discursando a bordo de um navio militar em Nova Iorque, fez eco da agressividade de Trump e atacou os críticos da Administração.. Vance acusou a oposição democrata de sofrer de uma “obsessão pelas imperfeições nacionais, em vez de celebrar a grandeza nacional”, defendendo que a firmeza ideológica de Trump é o único caminho para garantir a soberania económica e militar do país.O pendor nacionalista do discurso foi também criticado além-fronteiras. Ao gabar-se de que os EUA “aniquilaram” as capacidades militares do Irão e da Venezuela - afirmando ter afundado a Marinha Iraniana “num piscar de olhos” -, Trump gerou desconforto em várias capitais aliadas.Fontes diplomáticas europeias manifestaram particular apreensão com o facto de o presidente ter aproveitado o dia de celebração nacional para atacar a Europa na rede Truth Social, alegando que os parceiros transatlânticos estão a transformar-se num “continente do Terceiro Mundo” devido à imigração. Esta tomada de posição azedou o ambiente diplomático, algo que ganha relevo por ocorrer na véspera da Cimeira da NATO, agendada para Ancara, nos dias 7 e 8 de julho.Longe de unir a nação, estas comemorações dos 250 anos dos EUA parecem ter consolidado a fratura interna do país e isolado ainda mais os EUA no plano internacional, pelo menos no que à relação atlântica diz respeito..“Não queremos comunistas.” Trump desafia tempestade e faz do anticomunismo a bandeira dos 250 anos dos EUA.Trump transforma celebrações do 250.º aniversário dos Estados Unidos em comício político.Sob a batuta de Trump, EUA festejam divididos os 250 anos da independência