Tatiana Bucci, sobrevivente do Holocausto, junto à presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola.
Tatiana Bucci, sobrevivente do Holocausto, junto à presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola.EPA/Olivier Hoslet

"O antissemitismo nunca foi extinto", avisa Metsola

Cerimónia no Parlamento Europeu no Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto contou com o testemunho de Tatiana Bucci, que tinha seis anos quando foi levada para Auschwitz-Birkenau.
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"A recordação não é passiva" e as memórias das atrocidades cometidas durante o Holocausto "devem orientar as escolhas que fazemos hoje", disse, esta terça-feira (27 de janeiro), a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, na cerimónia do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, 81 anos após a libertação dos campos de concentração de Auschwitz-Birkenau.

Metsola lembrou "o momento mais negro" da Europa, quando "seis milhões de judeus foram mortos", junto com membros de outras minorias e opositores políticos, graças a uma "máquina de ódio" organizada. "Não aconteceu do dia para a noite, foi passo a passo, lei a lei. O silêncio permitiu que o mal se espalhasse", afirmou.

Metsola disse que "a Europa emergiu do Holocausto carregando o peso do que aconteceu", mas lembrou que o "antissemitismo nunca foi extinto, mas sobreviveu, adaptou-se e ainda hoje lança a sua sombra no nosso continente e para além", espalhando-se "mais rapidamente do que nunca, amplificado nas redes sociais".

A presidente do Parlamento Europeu lembrou o atentado na praia de Bondi, em Sydney, na Austrália, durante as comemorações do Hanukkah, no qual 15 pessoas foram mortas por dois atiradores. "Se o 'nunca mais' tem que significar algo, tem que orientar as escolhas que fazemos hoje", afirmou Metsola.

A cerimónia no hemiciclo em Estrasburgo contou com o testemunho de Tatiana Bucci, que tinha apenas seis anos quando, junto com a irmã Andra, dois anos mais nova, a mãe, a avó, a tia e o primo foram levadas para Auschwitz.

"A minha história começa em 1910. Foi quando a minha mãe, que tinha apenas dois anos, teve que fugir com a família da Ucrânia por causa de um pogrom", disse Tatiana, que diz que ao longo dos anos contou muitas vezes a sua história em escolas e outras instituições, mas que estava emocionada por poder falar no Parlamento Europeu.

"Quando a guerra rebentou na Ucrânia, pela primeira vez na minha vida, senti-me ucraniana. Porque eu sempre disse que a mãe nasceu na Ucrânia, mas continuava a história. Mas quando a guerra rebentou, vi a versão de dois anos da minha mãe e esse pensamento ainda me persegue depois de quatro anos de guerra", afirmou.

A família foi viver para Fiume, então parte do império austro-húngaro no norte de Itália, atualmente Croácia. A Primeira Guerra Mundial rebentou e o avô nunca mais voltou.

A mãe de Tatiana, Mira, acabou por casar com o pai, Giovanni, que era católico. "Era um casamento misto. Casaram em 1935, quando ainda era possível casar. Em 1938, com as novas leis raciais, já não teria sido possível", contou Tatiana, que nasceu em 1937.

Quando a Segunda Guerra Mundial rebentou, o pai, que era da marinha mercante, foi feito prisioneiro de guerra na África do Sul.

"Nós continuámos a nossa vida em Fiume, até março de 1944", lembrou Tatiana. "Já estávamos na cama quando a minha mãe nos acordou. Tinham vindo prender-nos", contou, explicando que se recorda de entrar na sala e ver a avó ajoelhada frente ao que apelidou de "líder da expedição" a pedir que deixassem ficar as crianças.

Além de Tatiana e a irmã Andra, vivia na casa o primo Sérgio (também fruto de um casamento misto), que com a mãe tinha ido viver com elas no ano anterior (eram de Nápoles).

A família toda foi para Risiera di San Sabba, o campo de concentração de passagem no norte de Itália. "Uns dias depois fomos levados para a estação central de Trieste e lá, havia um comboio estranho, um comboio de gado. Não sei quantas pessoas foram metidas em cada carruagem. Foi indescritível. Mas não me lembro de ter tido medo ou de chorar", disse.

O destino era o campo de Auschwitz-Birkenau. "Quando chegámos houve um primeiro processo de seleção. A minha avó e a minha tia foram levadas, metidas num camião. Só soubemos muito mais tarde que foram diretamente para a câmara de gás."

As crianças costumavam ter o mesmo destino, lembra, mas Joseph Mengele terá achado que as irmãs eram gémeas - o médico nazi fazia experiências com gémeos. Sérgio também foi com elas. "Mengele era muito sensível à beleza e ele era uma criança bonita", disse Tatiana, recordando o cabelo e a pele mais escura do primo.

Tatiana contou a experiência de passar pela "sauna", onde as mulheres eram despidas e tinham os pelos todos rapados antes de serem lavadas no duche e finalmente terem o número tatuado no braço. "Fomos tatuados, como animais. Porque isso era o que os nazis queriam. Queriam que perdêssemos todo o sentido de dignidade."

As crianças estavam numa camarata em conjunto. "Habituei-me àquela vida muito rapidamente", contou Tatiana, lembrando que era tão nova que achava que aquela era a vida que os judeus tinham que ter. "Brincávamos ao lado dos esqueletos, nem eram corpos. É extremamente difícil imaginar as crianças a brincar nestas circunstâncias", lamenta.

Um dia, uma das guardas disse-lhes que no dia seguinte lhes iam perguntar se queriam ir ter com as mães. E deviam dizer não. "Quando nos perguntaram, o Sérgio não conseguiu resistir. Porque ele estava sozinho. E ele saiu. Com 19 outras crianças. Dez rapazes e dez raparigas", recorda.

Sérgio fazia sete anos naquele dia, 29 de novembro de 1944, e foi levado para outro campo de concentração, perto de Hamburgo, onde foi sujeito a experiências e morto a 20 de abril de 1945. "Foram drogados primeiro e foi bárbaro como foram mortos. Foram pendurados em ganchos de talhante. Soubemos disto muito mais tarde, nos anos 1950, quando um jornalista alemão trouxe esta história para a luz".

"Um alemão contou esta história. E foi nesse momento que a minha forma de ver a Alemanha e os alemães mudou. Comecei a diferenciar nazis e alemães. Esta diferenciação ajudou-me a viver", contou Tatiana, explicando que os alemães fizeram "um acerto de contas com o passado" e defendendo que os italianos também devem fazer.

"Porque não fomos inteiramente inocentes, fomos aliados do exército alemão. E acho que também temos que ter um acerto de contas com o nosso passado. Porque sem o auxilio dos fascistas, não teria havido tantas deportações", defendeu.

No mesmo dia em que Sérgio deixou Auschwitz-Birkenau, a mãe de Tatiana e Andra também foi levada para a Alemanha, para fazer trabalho forçado numa fábrica de munições. "Pensámos que estava morta, numa das pilhas de corpos", referiu.

O campo de concentração foi libertado pelos russos a 27 de janeiro de 1945. As irmãs foram levadas primeiro para a então Checoslováquia, depois para um orfanato, Lingfield House, em Inglaterra.

"Achávamos que a mãe e o pai estavam mortos, o pai nunca mais tinha voltado, a mãe tinha desaparecido, mas não estavam mortos", lembrou.

"A 5 de dezembro 1946, o dia de aniversário do casamento dos meus pais, voltámos para casa. A minha mãe estava à nossa espera na estação de Roma e havia tantas pessoas. Uma grande multidão. Toda a comunidade judia de Roma estava lá. Mostravam as fotos de crianças e queriam saber se tínhamos notícias. Mas não tínhamos. Foi muito mais tarde que percebi tudo. O 16 de Outubro", contou, referindo-se à data em 1943 da operação contra o gueto de Roma.

"As fotos eram dos filhos do 16 de Outubro. Cerca de 200 saíram, nem um voltou", disse, explicando que por isso ainda hoje lhe dói quando pensa em tudo o que está a acontecer às crianças atualmente durante a guerra.

"Queria terminar o meu testemunho dizendo que gostaria que todas as crianças do mundo, independentemente de onde vivem, quero que possam ter a vida que eu pude ter depois da guerra", disse, sendo aplaudida de pé pelos eurodeputados. "A vida é bela".

Tatiana, que vive atualmente com a família na Bélgica, e Andra, que vive na Califórnia e, por motivos de saúde, não pôde viajar para estar na cerimónia, regressaram a Auschwitz pela primeira vez em 1996.

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