Competitividade, valores e segurança são as três prioridades da presidência irlandesa do Conselho da União Europeia. Comecemos pela competitividade. Como é que a Irlanda pretende implementar o roteiro estratégico “Uma Europa, Um Mercado” nos próximos seis meses?Os nossos três pilares fundamentais enquadram-se no nosso lema, o provérbio irlandês “Ní neart go cur le chéile “, que significa: “juntos somos mais fortes”. É essa a chave para a forma como vamos abordar cada uma destas prioridades. O mercado único é a principal vantagem da Europa sobre os seus concorrentes. Existem 42 prioridades no roteiro, e dessas, 20 são da responsabilidade da presidência irlandesa. Não é tarefa fácil tentar alcançar tanto em tão pouco tempo. Mas o nosso mandato é muito claro: o roteiro tem de ser implementado e tem o potencial de ser verdadeiramente transformador para a UE. Portanto, há três áreas em que pretendemos avançar. Em primeiro lugar, pacotes de simplificação, melhor regulamentação, prioridades e medidas que possam apoiar a oferta de habitação acessível e infraestruturas essenciais. Dentro deste contexto, procuramos reduzir a burocracia desnecessária, por exemplo, para as PME, pois isso beneficia tanto empresas como cidadãos. A segunda área é o mercado único. Temos de fortalecer o mercado único, trabalhar para eliminar barreiras, lidar com os encargos regulamentares. Há estimativas de custos que estamos a suportar devido às ineficiências dentro do mercado único - tem-se falado em 1,4 biliões de euros. A terceira coisa que gostaria de salientar, é a União da Poupança e dos Investimentos. Ou seja, unir as poupanças e os investimentos dos europeus para que trabalhem em prol da Europa e das empresas europeias. Depois, teremos o euro digital. Outro ponto importante na agenda nestes seis meses é o quadro financeiro plurianual para 2028-2034, o orçamento de longo prazo da UE. Quais os maiores desafios nesta matéria?O nosso objetivo no quadro financeiro plurianual será obter uma base sólida para o trabalho futuro da União. Estamos a realizar este trabalho, que será árduo, para garantir que a UE possa cumprir as suas promessas de segurança, valores e competitividade. A presidência irlandesa será uma mediadora imparcial nesta tarefa. Vamos procurar um acordo entre os Estados-membros de forma muito intensa. As divisões são mais acentuadas, creio, do que já o foram no passado. Mas a Irlanda está preparada. A Irlanda é ambiciosa. Sabemos que 2026 é um objetivo importante.Os valores são outra das prioridades da presidência irlandesa. Como surgiu a ideia de colocar este tema nos três principais objetivos de Dublin para estes seis meses?Para nós, os valores agrupam-se em três pilares interligados e que se reforçam mutuamente. A competitividade impulsiona a atividade económica, que nos fornece os recursos para investir na nossa segurança e no nosso modelo social. Por conseguinte, uma UE próspera está na melhor posição para concretizar os seus valores e a sua agenda de segurança. Ao mesmo tempo, uma Europa segura significa que podemos proteger os nossos valores e apoiar a estabilidade que, por sua vez, nos ajuda a criar as condições para o investimento e para o crescimento económico. No que toca aos valores, a igualdade, o Estado de direito, o respeito pelos direitos humanos, são eles que criam a segurança da nossa sociedade e o ambiente em que a economia pode prosperar. Passando então para a segurança, com a guerra na Ucrânia sem fim à vista e, agora, a guerra no Médio Oriente, esta pode facilmente ser uma das prioridades mais desafiantes da presidência irlandesa?Falando do trabalho da presidência, como mediadores neutrais, trabalhamos com as circunstâncias que temos. E, como esta é a nossa oitava presidência, sabemos que as circunstâncias mudam durante um mandato e que é preciso reagir ao que acontece. Mas uma das coisas que ficará muito clara desde o início é que a presidência irlandesa continuará a demonstrar solidariedade com a Ucrânia. Apoiaremos integralmente os esforços para garantir que a Ucrânia se possa defender da agressão ilegal da Rússia. Estamos a trabalhar arduamente no próximo pacote de sanções, que esperamos ver aprovado ainda em julho. Ao mesmo tempo, a Irlanda tem um longo historial de conflitos e, posteriormente, de construção da paz no nosso país. Isto conferiu-nos um forte compromisso com uma paz sustentável e duradoura no Médio Oriente. Ao mesmo tempo, vamos avançar com áreas da agenda que podem contribuir para a segurança da UE. Estamos a pensar na cooperação com parceiros como a NATO, a ONU e a OSCE, e também a analisar a questão da preparação. A Irlanda não é membro da NATO devido à sua política de neutralidade militar. Mas, como presidente do Conselho da UE, lidar com a pressão dos EUA e da NATO sobre os Estados-Membros da UE para que aumentem as suas despesas com a defesa é algo que preocupa Dublin?Para contextualizar, começarei por dizer que a nossa política de neutralidade militar significa que não participamos em alianças militares nem em acordos de defesa comum ou mútua. Mas isso nunca nos impediu de ter uma abordagem ativa em relação aos desafios globais e de contribuir para a paz e a segurança internacionais. Sempre fomos muito claros quanto à nossa posição em relação à Ucrânia e temos sido fortes apoiantes de Kiev. Atualmente cerca de 2% da população da Irlanda é originária da Ucrânia. Também estamos a reforçar os nossos próprios mecanismos, a nossa própria segurança, porque estamos conscientes de que existem novas ameaças e que precisamos de ser capazes de proteger o bem-estar dos nossos cidadãos e da nossa economia. E sabemos que um investimento robusto na defesa é importante para a resiliência nacional. As nossas despesas com a defesa nacional aumentaram 43% desde 2020. Só no ano passado, foi alocado um novo investimento de capital nas nossas forças armadas, com um aumento de 55% até 2030. Por conseguinte, somos militarmente neutros, embora não politicamente neutros, e estamos prontos para atuar como mediadores, para construir consensos entre os Estados-membros sobre como enfrentar estes desafios. Um dos desafios é lidar também com os EUA. Nesse ponto, a Irlanda encontra-se numa posição privilegiada graças aos laços estreitos entre Dublin e Washington (investimentos americanos na Irlanda, forte influência irlandesa na sociedade americana)?Estamos conscientes de que a nossa posição histórica e geográfica nos coloca num lugar muito especial. São séculos de emigração. Atualmente, cerca de 32 milhões de pessoas nos EUA reivindicam ascendência irlandesa. Isto representa cerca de 10% de toda a população americana. A Irlanda e os EUA também têm uma relação económica muito importante. Mas além disso, a relação UE-EUA é essencial para a prosperidade e a segurança de ambos os lados do Atlântico, apesar das tensões atuais. Esta é a relação económica mais importante do mundo. São 4,6 mil milhões de euros movimentados diariamente entre a UE e os EUA, atravessando o Atlântico. Somos os maiores parceiros comerciais um do outro em bens. E, durante a nossa presidência, a Irlanda trabalhará para manter e estabilizar esta cooperação transatlântica nas áreas económicas, utilizando todos os laços que temos com os EUA. O ministro de Estado para os Assuntos Europeus e a Defesa da Irlanda, Thomas Byrne, disse recentemente numa entrevista que “o maior apoio à Ucrânia seria o processo de adesão”. Essa também é uma prioridade?Fomos dos primeiros países a defender que a Ucrânia tivesse um caminho para a adesão à UE. E vemos isso como uma demonstração muito importante dos nossos valores. A Irlanda tem sido uma grande beneficiária da adesão, o que nos tornou fortes defensores da UE e do alargamento em princípio. Sabemos que é importante demonstrar este apoio à Ucrânia de todas as formas possíveis. E consideramos o alargamento a melhor ferramenta para alcançar a segurança e a prosperidade no nosso continente. O trabalho que temos de realizar com a Ucrânia abrange muitas frentes diferentes. E faremos o máximo para priorizar o trabalho em todas elas.Em 2004, a presidência irlandesa supervisionou a maior ronda de alargamento de sempre da UE, acolhendo 10 novos Estados-membros. Agora, o alargamento está novamente em cima da mesa. Montenegro, Albânia, Moldávia e a Ucrânia estão na calha para aderirem ao bloco europeu. A Irlanda irá trabalhar para agilizar o processo?Fico feliz por ter mencionado o Dia das Boas-Vindas em 2004. Foi um dia em que a Irlanda estava na presidência e 10 novos Estados-membros aderiram à UE. Foi um momento extraordinário. Já referi o quanto a Irlanda beneficiou da adesão à UE. E acreditamos que outros países europeus devem ter as mesmas oportunidades, desde que cumpram os requisitos necessários. Além disso, a segurança e a prosperidade são impulsionadas pelo alargamento. E é precisamente onde o alargamento é lento ou onde há atrasos que as influências malignas podem infiltrar-se e tentar desestabilizar. Por conseguinte, durante a nossa presidência, esperamos sinceramente um bom progresso nestes quatro países que mencionou: Montenegro, Albânia, Ucrânia e Moldávia. Esperamos que, no caso do Montenegro, possamos concluir todos os capítulos pendentes. E já vimos, e esperamos ver, mais progressos em relação à Albânia, para além da abertura do primeiro cluster de negociações para a Ucrânia e a Moldávia em Junho. Trabalharemos arduamente para tentar abrir mais fronteiras, mas estamos conscientes de que este trabalho exige unanimidade entre os Estados-membros. E faremos o possível para que o processo avance o mais rapidamente possível, desde que os marcos necessários sejam atingidos.Portugal e Irlanda são ambos países atlânticos, que partilham os valores europeus, qual a importância da cooperação entre os dois neste próximos seis meses - e mais além?Devo dizer que aprendemos com a presidência portuguesa em 2021. Todo o planeamento da presidência portuguesa foi feito sem que se soubesse que estaríamos em plena pandemia, ainda assim Portugal conseguiu avançar e impulsionar o trabalho numa série de pastas muito importantes. De certa forma, vemos em Portugal um modelo para nós. E, claro, a Irlanda e Portugal veem o mundo de forma muito semelhante. A nossa localização geográfica significa que estamos virados para o Atlântico e a relação transatlântica é muito importante para nós. E partilhamos os valores que fazem parte da forma como abordamos o nosso trabalho na UE. Mas não é só isso. Temos um enorme volume de comércio bilateral entre a Irlanda e Portugal. Trata-se de uma relação comercial bilateral que ultrapassa os 6 mil milhões de euros por ano. Atualmente, existem 6.000 irlandeses residentes em Portugal - um aumento de mais de 300% desde 2013. Os irlandeses valorizam muito as suas férias em Portugal. Os dados que tenho dos aeroportos portugueses indicam que houve mais de 1,5 milhões de chegadas da ilha da Irlanda no ano passado. Temos voos diretos para Lisboa, Porto, Faro, mas também para o Funchal. Contamos também com mais de 200 membros ativos na rede empresarial Irlanda-Portugal. Durante as tempestades em Portugal, em fevereiro, por exemplo, a operadora de eletricidade irlandesa, ESB Networks, enviou 17 equipas da Irlanda para contribuir para os esforços de recuperação aqui em Portugal. Portanto, esta relação é importante e está a crescer cada vez mais.A Irlanda está a dar início a um novo trio de presidências da UE (seguido pela Lituânia e pela Grécia). Como foi a transição em relação a Chipre? E como está a correr o trabalho com os seus dois parceiros? A transição de Chipre, foi perfeita, muito eficaz. E temos vindo a ajustar o nosso programa legislativo em função dos resultados dos processos apresentados pelo Chipre. É também interessante observar o trio em que estamos inseridos, pois é composto pela Irlanda, Lituânia e Grécia. Temos um país banhado pelo Atlântico, um pelo Báltico e outro pelo Mediterrâneo. Esta é uma parte muito valiosa de uma presidência conjunta: a capacidade de criar um programa que contemple as diferentes perspetivas. Os três pilares temáticos são partilhados entre nós. E, claro, dossiers como o Quadro Financeiro Plurianual vão passar para o próximo ano. A presidência da UE é também uma oportunidade para o país que a detém se mostrar e dar-se a conhecer melhor aos outros 26 - não só politicamente, mas também culturalmente?Teremos um programa cultural em que iremos contactar outros Estados-membros para lhes apresentar o melhor da cultura irlandesa durante a nossa presidência. Já começámos aqui em Portugal. Organizámos um concerto no convento de Nossa Senhora do Bom Sucesso, um local histórico com fortes ligações à Irlanda, no coração de Lisboa. Foi uma ocasião muito especial trazer Martin Hayes, que, com Brian Donnellan e Síle Denvir, apresentou um concerto de música tradicional irlandesa extraordinário no passado dia 1 de julho. Mas outra coisa que estamos a fazer é usar a presidência para falar sobre o que significa para a Irlanda ser membro da UE, o que significa para os irlandeses usufruir dos benefícios que a condição de membro da UE lhes proporciona. A Irlanda está dividida em 26 condados e cada Estado-membro da UE ficou associado a um deles. Portugal está emparelhado com o condado de Louth, a norte de Dublin, na costa leste da Irlanda. O embaixador de Portugal na Irlanda e eu planeamos fazer uma visita conjunta ao condado de Louth em outubro. Mas existe outra ligação interessante, porque Santa Brígida, uma das padroeiras da Irlanda, nasceu no Condado de Louth. E as suas relíquias estão numa igreja no Lumiar, em Lisboa. Creio que tudo isto traz para o dia-a-dia das pessoas a presidência, que por vezes pode parecer um pouco esotérica. Esta iniciativa leva-a às escolas, às empresas e às organizações comunitárias..Irlanda quer “dar o máximo” pela Europa nos próximos seis meses