No livro que acaba de lançar A Grande Ruptura - Cadernos de Geopolítica partilha com os leitores as suas reflexões ao longo da pandemia, e, logo no início de 2020, dizia que estávamos perante o fim de uma era. O que é que o levou , já em janeiro de 2020, a fazer esta afirmação?É sempre difícil nós termos a perceção dos períodos de transição histórica e eu escrevo no livro bastante sobre isso - é preciso distância para o fazermos. Todavia, quando nós trabalhamos numa área há muitos anos, às vezes temos a perceção de que essa mudança pode estar a acontecer. Eu tive essa noção no início de 2020. Decidi que iria escrever diariamente até 2030 porque queria deixar um registo de uma pessoa que vive nos Açores, que trabalha em Lisboa - dessa época histórica, o que é que eu via, o que é que eu lia, o que é que eu achava que estava a acontecer. Quis deixar isso escrito. O que eu não contava era que a pandemia estivesse a caminho - cá está a surpresa - e como isso mudou. Ponto número um. Ponto número dois. Há duas maneiras de nós olharmos para Donald Trump. A maneira como os jornais e as televisões normalmente o fazem (e eu percebo) tem muito a ver com a pessoa em si, com a personalidade dele, o seu temperamento e as suas decisões. Mas o que eu acho do ponto de vista histórico mais interessante, é tentar perceber as forças estruturais que tornaram Donald Trump possível, e essas forças estruturais, para mim, são um indício dessa mudança histórica. Ele aparece na altura certa, tem a intuição de que aquele é o momento dele - o que é interessante para uma pessoa que nunca leu um livro, alegava-se nunca ter lido um livro - , mas teve essa intuição, e portanto eu acho que ele é um símbolo dessas forças estruturais, o resultado dessas forças estruturais que apontam para a mudança histórica.No seu livro acaba por concluir que foi a pandemia que acabou por funcionar como o interruptor de todas estas alterações internacionais a que estamos a assistir. Mas ainda antes de chegar a essa conclusão, no início da pandemia, faz uma reflexão com base no livro de Tucídides, em que menciona que Atenas sobreviveu a uma epidemia e passou a ser mais agressiva, populista e imperial. Foi isso que nos aconteceu após a pandemia?Eu acho que sim. A tendência já lá estava. Em 2016, a vitória de Donald Trump, o ‘Brexit’, na Europa a eleição ou a votação em determinados tipos de partidos que 15, 20 anos antes não teriam tido essa votação, ou seja nós já estávamos a caminho de uma época mais populista (entre aspas). Mas eu acho que a pandemia acelerou esse processo em termos internos e, do meu ponto de vista, também acelerou a transição da política internacional para uma nova fase. E é muito interessante também, sobre esse ponto de vista, refletirmos sobre Atenas, na sua guerra com Esparta. A epidemia de peste em Atenas foi muito mais letal do que a pandemia que nós tivemos em 2020-2022. Mas o que é interessante, e Tucídides fez questão de o deixar escrito, são os efeitos políticos da pandemia em termos internos e externos. E em Atenas a pandemia libertou essas forças mais populistas, essas forças mais violentas e agressivas em termos de estratégia imperial ateniense. E do meu ponto de vista, a pandemia também alterou a percepção do tempo histórico para líderes como Vladimir Putin, Xi Jinping e outro tipo de lideranças políticas. E, portanto, nós estamos a viver as consequências desta entrada mais atabalhoada, por assim dizer, e caótica, numa nova época histórica.Em que consiste então esta “Grande Ruptura” que dá título ao livro?Em termos históricos, eu acho que significa o final de um período, que provavelmente nós podemos dizer que durou 80 anos, ou seja, desde o final da Segunda Guerra Mundial, a área euro-atlântica foi organizada de uma determinada forma. Nós, Portugal, nós açorianos, beneficiámos imenso dessa ordem internacional, foi isso que permitiu determinadas coisas em Portugal e também nos Açores. Esse período, do meu ponto de vista, chegou ao fim. E, portanto, nós já estamos numa nova época histórica que ainda não compreendemos bem, mas os contornos, os seus contornos ficarão claros, provavelmente, até ao final desta década. E, portanto, esta será uma transição difícil para nós, por uma razão muito simples, nós não temos nenhum quadro mental, parecido com este a que nos possamos socorrer, ou seja, não há nenhum líder político vivo que tenha memória histórica de um período diferente daquele que vivemos até agora. E isso condiciona a maneira como nós pensamos, a maneira como nós formulamos o problema, a maneira como você, jornalista, a maneira como eu, analista, olhamos para o mundo, porque nós habituámo-nos a pensar de uma determinada forma, e essa forma de pensar obedecia a um determinado enquadramento histórico. Isso acabou, nós estamos a caminho de algo de novo, e isto é difícil, será difícil para todos nós, sob esse ponto de vista, de enquadramento, e depois das decisões que teremos que tomar.Haverá tendência a que esta guerra surda entre potências se agrave, nomeadamente com este conflito aberto com o Irão?Sim, claro que há. Nós habituámo-nos a viver e crescemos na área euro-atlântica num período em que havia ordem. Não é que não existissem guerras de vez em quando, mas havia uma ordem euro-atlântica que se mantinha. Nós agora estamos a caminho da desordem, e a desordem em termos históricos é uma coisa muito complicada, difícil. Portanto, a grande questão é saber como é que nós, nos países europeus, conseguimos contribuir para a estabilização e criação de alguma ordem. Isto é um ponto muito importante, será um ponto muito importante para Portugal e será um ponto muito importante para os Açores, mesmo muito importante.E nós não sabemos como será a transição da ordem para a desordem e quais serão as suas consequências, mas é duvidoso que sejam boas. E portanto, a grande questão, voltando a repetir-me, é como é que nós na área euro-atlântica nos reorganizamos e renegociamos os contratos geopolíticos que existiam, número um, e como é que nós nos reorganizamos em termos de política interna, porque vai ter que haver de certeza mudanças significativas, porque há novos partidos que têm mais apoio popular e isso obviamente terá consequências em termos do sistema político em termos internos e também das políticas públicas que os governos escolherão com apoio parlamentar. É aqui que nós estamos.E os nossos políticos estão já conscientes desta necessidade?Eu acho que estão conscientes, mas para os decisores políticos e para nós, esta é uma situação difícil. Até 2020 nós podíamos dizer que a maior parte dos decisores políticos eram gestores de um sistema que funcionava por arbitragem interna. Ou seja, não havia nada de estruturalmente novo, e portanto as sociedades podiam eleger decisores políticos que eram sobretudo gestores do sistema. Nós agora vamos precisar de uma coisa completamente diferente, nós vamos precisar de líderes políticos com enorme visão e coragem política, com capacidade de persuadir as suas sociedades daquilo que precisa de ser feito - e, numa situação em que, em termos de finanças públicas, pelo menos em alguns países, a margem de manobra é menor -, e teremos que fazer escolhas geoestratégicas difíceis. Portanto, é natural que das duas uma: ou os atuais líderes políticos fazem uma curva de aprendizagem muito grande de adaptação à nova realidade histórica, ou então serão substituídos por novas lideranças políticas.Houve um acordar muito lento da Europa. Estão a ser tomadas as medidas necessárias para responder a este novo tempo, na sua opinião?É interessante olhar para essa pergunta do ponto de vista do livro. A pandemia levou os líderes europeus a fazerem coisas consideradas impensáveis e eu quis deixá-las registadas no livro, não fôssemos nós esquecê-las. A memória é uma coisa perigosa, muitas vezes esquecemos de como as coisas realmente aconteceram. Portanto, a União Europeia assumiu poderes, por exemplo, na área de saúde pública que não estavam nos tratados. O que está a acontecer em termos de segurança e defesa está a ser parecido. O que vai ter que acontecer em termos de ciência e tecnologia será a mesma coisa. A grande questão é saber se nós estamos a ir suficientemente depressa no processo de ajustamento, número um, e número dois, até onde as nossas sociedades estarão dispostas a ir em termos de apoio a certo tipo de decisões. E eu não sei a resposta a essa pergunta, mas as eleições nos países europeus serão esclarecedoras em relação a isto, sobretudo se estamos a caminho de mais formas de integração e de cooperação reforçada na Europa ou se estamos a caminho de mais desintegração e de outro tipo de coisas na Europa.Assistimos a Mark Carney, o primeiro-ministro canadiano, em Davos, a fazer um discurso muito realista e a defender que o futuro também passará pela união das potências médias. Acha que é uma estratégia viável ? O problema estratégico do Canadá é muito difícil, porque o Canadá tem a fronteira terrestre mais longa do mundo, e é com os Estados Unidos, e toda a sua economia está altamente integrada com a economia norte-americana. Todavia em função da retórica e de decisões da administração de Trump em relação ao Canadá, que põe mesmo em causa a existência futura do Canadá como um Estado independente, Mark Carney sentiu necessidade de traçar um novo rumo para o seu país. É claro que, como você disse muito bem, há um constrangimento que é a geografia, mas é importante que os Açores tenham consciência disso. Nós dizemos que a geografia não muda, é verdade, mas a interpretação da geografia às vezes muda e o que nós vimos nos Estados Unidos foi uma administração norte-americana a reinterpretar a geografia de uma forma diferente em função daquilo que entende ser os seus interesses hoje em dia. Isto é uma lição muito importante para nós nos Açores e para Portugal. Portanto, o que Mark Carney tentou fazer em Davos é aquilo de que nós estávamos a falar há bocadinho, tentar propor uma aliança entre as potências médias para que essas potências médias ajudem a estabilizar a ordem internacional. Se ele será bem-sucedido ou não, nós não sabemos. Sabemos que esta semana ele está na Índia, vai à Austrália e depois irá ao Japão. Cá está, tudo países que têm interesse no reforço do comércio internacional e na ordem internacional como ela existiu. Mas nós também ouvimos na Conferência de Segurança em Munique o chanceler alemão, o presidente francês e o primeiro-ministro inglês dizerem exatamente a mesma coisa que Mark Carney disse, ou seja, dizer nós já estamos numa nova época histórica. Qual é a minha conclusão? Os líderes europeus e o canadiano estão a ser honestos com os seus eleitorados, as suas sociedades, e estão a dizer-lhes que esta é a situação e isto é o que nós achamos que tem que ser feito. E o meu argumento é que eu acho que nós em Portugal precisaremos - seria melhor que fosse este ano - de um ou dois discursos desse tipo por parte do primeiro-ministro e por parte do Presidente da República. Explicar ao país o que está a acontecer, implicações para Portugal e decisões que eventualmente comecem a ser tomadas. Eu acho que isto é inevitável, e eu acho que seria melhor sermos nós a fazer isso do que sermos forçados pelas circunstâncias a termos de reagir tarde e a más horas. Nos Açores, com uma base utilizada pelos norte-americanos e a existência de relações históricas com os Estados Unidos, parece haver aqui alguma dificuldade em assumir um discurso assertivo, digamos assim, em relação aos Estados Unidos.Sim, é um dilema, é uma posição muito difícil, em que países como a Dinamarca, Holanda, todos os países da costa atlântica europeia que têm uma relação muito especial com os Estados Unidos em termos económicos, de segurança e de defesa, essa é uma posição muito difícil de estar quando um Presidente dos Estados Unidos está claramente a entender que o território de um desses países, neste caso a Gronelândia, ou o Canadá, também membro da NATO, pode ser, enfim, os Estados Unidos ambicionam ter esse território, por em causa a soberania de um país. Portanto, nós estamos numa posição muito delicada em que, por um lado, temos que manter as relações com os Estados Unidos, haverá sempre o relacionamento nosso com os Estados Unidos, mas esse relacionamento não pode funcionar exatamente da mesma forma como funcionou no período histórico anterior, não pode, porque os eleitorados não aceitariam. E, portanto, há uma tensão entre aquilo que podemos chamar o interesse nacional permanente, que aponta numa determinada direção no relacionamento com os Estados Unidos, e valores e outro tipo de interesses, de soberania nacional, que tem que ser mantida. E, portanto, nós estamos a ter este problema em Portugal, como os ingleses estão a ter, como os dinamarqueses estão a ter, como os canadianos estão a ter. Mas a política internacional não é uma escolha entre o bom e o mau, é normalmente uma escolha entre o mau e o muito mau, e os líderes políticos, no fim de contas, e os diplomatas, sabem isso muito bem, e estão a tentar equilibrar estes dois polos, por assim dizer, é isso que nós estamos a ver o governo português a fazer, o Governo da República e o Governo Regional a fazer.Tem-se falado da necessidade de revisão do acordo de cooperação bilateral com os EUA. Acredita que este seria um bom momento para o rever, tendo em conta tudo o que se passa?A sensação que eu tenho, em Lisboa e nos Açores, é que a resposta é não. Eu acho que a resposta é não, que este não é o momento oportuno. Este é o momento de tentar chegar a um equilíbrio entre valores políticos, ordem europeia, exportações para os Estados Unidos, acesso a tecnologia americana, acesso a investimento direto estrangeiro norte-americano e a manutenção da relação com os Estados Unidos. Ou seja, há interesses de curto prazo que têm que ser mantidos e há a necessidade de nós renegociarmos a relação com os Estados Unidos para o próximo ciclo histórico. E isso nós nos Açores estamos bem posicionados para o fazer, porque temos acesso a várias redes políticas nos Estados Unidos e devemos obviamente fazer isso, mas também temos que ter em conta que esta é uma administração norte-americana muito errática, muito errática, e que temos de proteger os nossos interesses nacionais nos Açores, isso tem que ser feito.E com este novo conflito, a posição dos Açores, como é que fica com a utilização da base? Tem havido aqui alguma discussão em relação à legalidade da sua utilização. Como é que analisa esta questão?O que nós vimos foi que durante a chamada Guerra Fria, 1947-1991, a base das Lajes desempenhou uma dupla função, desempenhou uma função no controle aéreo do Atlântico por parte dos Estados Unidos, sobretudo a luta anti-submarina, e de uma base de projeção da mobilidade estratégica norte-americana em direção ao Médio Oriente e à Europa. Quando a Guerra Fria termina, em 1991, a base decresce de valor para os Estados Unidos, como nós vimos, mas a base também decresceu de valor para a Força Aérea Portuguesa. Isto é um ponto que nós nunca dizemos nos Açores. Os americanos diminuíram a sua presença nas Lajes, mas Portugal fez exatamente a mesma coisa. Porquê? Porque o controlo do Atlântico deixou de estar em causa, não era preciso, portanto a base foi reduzida a uma dimensão espartana, serviços mínimos, por assim dizer. Agora, a partir de 2020, curiosamente, a base regressa à sua função tradicional - mais presença norte-americana na luta anti-submarina a Noroeste dos Açores, e agora, como estamos a ver, mais uma vez, apoio à mobilidade estratégica dos Estados Unidos em direção ao Médio Oriente. O que é que mudou? A única coisa que muda é a forma como os Estados Unidos interpretam a realidade internacional hoje em dia e as suas ambições que agora não são tão coincidentes com as de Portugal. Nós também vemos uma coisa nova, nós vemos Portugal a fazer mais nos Açores, em termos de ocupação do espaço, ou seja, há mais ciência e tecnologia, há mais investimento, a Marinha tem mais presença, a Força Aérea assegura mais coisas. Portanto, nós vamos ter que fazer muito mais, nós portugueses, vamos ter que fazer muito mais nos Açores neste novo ciclo histórico. A pergunta não é como é que os Estados Unidos estão a usar os Açores, a pergunta parece-me ser o que é que nós vamos fazer para defender os nossos interesses em território nacional, porque os Açores são território português. E é assim que nós devemos pensar, e dar a nossa contribuição para uma ordem nova em termos euro-atlânticos. Esse será o nosso papel aqui nos Açores.Neste novo contexto, como é que podemos sair a ganhar, digamos assim, tendo em conta todos os aspetos em que possamos liderar ou pelo menos estar na linha da frente?Nós precisamos de atrair mais gente para os Açores, de atrair mais gente qualificada para os Açores, porque estamos a perder população, e precisamos de atrair gente sobretudo a nível da ciência e tecnologia e certos tipos de investimentos. Precisamos de ter mais presença militar nos Açores, precisamos de ter mais vigilância aérea das águas europeias ou das águas da zona económica exclusiva portuguesa. E o Estado português tem que reforçar a sua presença nos Açores, porque são sobretudo os Açores que dão viabilidade estratégica a Portugal, quer na Europa, quer na sua relação com a América do Norte (aqui obviamente estou a incluir o Canadá). Portanto, isso são coisas que têm sido faladas pelo governo regional, por vários partidos na Assembleia Regional, e obviamente teremos que continuar a fazê-lo. Entrevista publicada originalmente no Açoriano Oriental “Nós vamos precisar de líderes políticos com enorme visão e coragem política” - Açoriano Oriental