O otimismo expresso pelos dirigentes paquistaneses no final das 21 horas de reunião entre as delegações dos Estados Unidos e do Irão, em Islamabad, apesar da ausência de um acordo, tinha razão de ser. O presidente norte-americano confirmou para breve uma segunda ronda de negociações, poucas horas depois da entrada em vigor do bloqueio naval aos portos iranianos. Em Washington, os embaixadores de Israel e do Líbano reuniram-se sob o mesmo teto, algo que não acontecia desde 1993. Uma “oportunidade histórica”, como disse o secretário de Estado Marco Rubio, minada de pronto, ou quase, pelo Hezbollah. A milícia pró-iraniana esperou 15 minutos para enviar uma mensagem de recusa do diálogo, ao alvejar 13 localidades do norte de Israel com salvas simultâneas de foguetes. A perspetiva de voltar a sentar norte-americanos e iranianos à mesma mesa deverá materializar-se nas próximas horas. Em declarações ao New York Post, Donald Trump aconselhou o jornalista, a falar da capital paquistanesa, a permanecer lá. “Algo pode acontecer nos próximos dois dias, e estamos mais inclinados a ir.” Numa primeira conversa telefónica, minutos antes, Trump havia considerado improvável que as negociações recomeçassem no Paquistão, mas o presidente ligou de novo ao jornalista para dizer que era “mais provável” o regresso a Islamabad, até porque o chefe do exército paquistanês, Asim Munir, disse, “está a fazer um trabalho excelente”. Horas antes, fontes dos EUA tinham dito à Associated Press que a localização estaria a ser decidida entre Genebra e Islamabad, assim como a composição das delegações e a data, embora estivessem a apontar para quinta-feira. .Para forçar Irão a ceder, entra em vigor bloqueio dos EUA com 15 navios.Após ter mantido uma reunião com o vice-primeiro-ministro paquistanês Ishaq Dar, o secretário-geral das Nações Unidas também disse ser “muito provável” o restabelecimento do diálogo antes do final da semana. António Guterres fez ainda um apelo para a prorrogação do cessar-fogo. “Os acordos de paz exigem um compromisso constante e vontade política. As negociações sérias devem ser retomadas e o cessar-fogo deve ser mantido e prolongado enquanto necessário.” Quem também apelou para o regresso às negociações foi o presidente francês, Emmanuel Macron, ao conversar à vez com os presidentes dos EUA e do Irão. Nuclear, não obrigado Como o próprio Trump escreveu na sua rede social, o tema sobre o qual não se registou uma aproximação entre as partes é o programa nuclear iraniano. O seu vice, J.D. Vance, disse ter recebido como chefe da delegação a diretiva para ser firme no ponto de que os materiais nuclear enriquecidos devem ser retirados do Irão, por um lado, e que tem de existir um mecanismo para verificar que o Irão não desenvolve armas nucleares, por outro. À Reuters, uma fonte confirmou os relatos de que os EUA propuseram a suspensão de 20 anos de toda a atividade nuclear por parte do Irão, “com todo o tipo de restrições”. A contraproposta do lado iraniano foi uma suspensão de três a cinco anos, segundo fontes iranianas. À mesma agência, uma fonte envolvida nas negociações no Paquistão mostrou-se otimista quanto à aproximação de posições sobre o tema..Já na capital dos EUA, sob os auspícios de Marco Rubio, a embaixadora do Líbano Nada Hamadeh Moawad e o seu homólogo israelita Yechiel Leiter mantiveram uma reunião de duas horas. As expectativas eram baixas: Israel avisara que um cessar-fogo estaria fora do âmbito do encontro. E o secretário de Estado norte-americano avisara nas palavras de boas-vindas que, sendo um momento histórico, estava-se perante “um processo e não um evento” para se “delinear um quadro no qual se poderá desenvolver um acordo de paz”. No final da “maravilhosa conversa”, o diplomata israelita mostrou-se otimista: “O que me dá esperança é o facto de o governo libanês ter deixado muito claro que já não será ocupado pelo Hezbollah.” Num comunicado conjunto, ficou expressa a concordância em “iniciar negociações diretas em data e local a determinar”. Antes da reunião, os ministros dos Negócios Estrangeiros de 16 países europeus e da Austrália apelaram a Telavive e a Beirute para que “aproveitem a oportunidade” das negociações. Num comunicado conjunto dos chefes da diplomacia da Austrália, Bélgica, Croácia, Chipre, Dinamarca, Eslovénia, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Islândia, Luxemburgo, Malta, Noruega, Portugal, Reino Unido e Suécia saudaram a iniciativa do presidente libanês Joseph Aoun e a aceitação, por parte de Israel, do início do diálogo. “Negociações diretas podem abrir caminho para uma segurança duradoura para o Líbano e Israel, bem como para a região. Estamos prontos para as apoiar.”Meloni afasta-seA guerra está também a minar as relações entre países aliados. O governo italiano suspendeu o acordo de defesa com Israel, anunciou a primeira-ministra Giorgia Meloni. “Tendo em conta a situação atual, o governo decidiu suspender a renovação automática do acordo de defesa com Israel”, disse. O acordo estava em vigor desde 2006 e era renovado em cada cinco anos. Mas as tensões entre Roma e Telavive foram exacerbadas na sequência de um ataque a soldados italianos em missão da ONU no Líbano, o que levou o executivo italiano a convocar o embaixador de Israel para protestar contra o incidente que causou danos materiais — e diplomáticos. Na segunda-feira, o chefe da diplomacia Antonio Tajani foi a Beirute encontrar-se com o presidente e o primeiro-ministro libaneses para demonstrar a “solidariedade italiana na sequência de ataques inaceitáveis de Israel contra a população civil”. No dia seguinte, foi a vez de o embaixador de Itália em Israel ser convocado para ouvir um protesto devido às declarações de Tajani. “Giorgia Meloni não é uma líder europeia da esquerda progressista; ela pertence ao campo conservador de direita e compreende a necessidade de combater o terrorismo. O governo falhou em promover os interesses de Israel, mesmo perante atores que se supõe serem amigos e aliados naturais”, comentou o líder da oposição israelita Yair Lapid.Noutra frente, o maior aliado do líder israelita Benjamin Netanyahu, Donald Trump, criticou Meloni por se ter recusado a participar na guerra contra o Irão. Numa entrevista ao Corriere della Sera, o norte-americano disse: “Estou em choque. Pensava que ela tinha coragem, mas estava enganado.” Na véspera, a italiana — o único líder europeu convidado a assistir à cerimónia de tomada de posse de Trump —, considerou “inaceitáveis” as suas críticas ao papa Leão XIV.