Khan Younis, cidade onde o exército israelita diz estar o líder do Hamas, voltou a ser bombardeada. EPA/HAITHAM IMAD
Khan Younis, cidade onde o exército israelita diz estar o líder do Hamas, voltou a ser bombardeada. EPA/HAITHAM IMAD

Nova fase da guerra sem cerimónia de transição, mas muita diplomacia

Israel garante já estar a desenvolver operações com menos intensidade e que terá atenção aos civis amontoados a sul. Ataque no sul do Líbano mata comandante do Hezbollah.
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O porta-voz das forças armadas israelitas anunciou uma mudança de “palco” da guerra, referindo-se à progressiva saída do norte e do centro da Faixa de Gaza para uma concentração no sul, no mesmo dia em que o presidente dos EUA reafirmou estar a pressionar o governo israelita para reduzir as operações. No campo diplomático, os altos representantes dos Estados Unidos e da União Europeia encontraram-se durante mais uma viagem pelo Médio Oriente, enquanto o líder palestiniano rumou até ao Cairo e a MNE alemã visitou a Cisjordânia.

Joe Biden disse “compreender” a “emoção” com que ativistas pró-palestinianos pediram o cessar-fogo da guerra Israel-Hamas quando discursava na Igreja Madre Emanuel, em Charleston, na Carolina do Sul. A ocasião era para honrar os nove afro-americanos ali mortos há nove anos, vítimas de um supremacista branco, mas o presidente norte-americano viu-se obrigado a sair do guião. “Tenho estado a trabalhar discretamente, discretamente, com o governo israelita para os levar a reduzir e a sair significativamente de Gaza”, assegurou, enquanto a maioria dos presentes pedia mais quatro anos de mandato do democrata. 

“A guerra mudou de palco. Mas a transição será feita sem cerimónias. Não se trata de anúncios dramáticos”, disse o porta-voz das forças armadas israelitas ao New York Times. Segundo Daniel Hagari, o número de tropas em Gaza vai continuar a diminuir, resultado da nova fase da guerra, com menos pessoal no terreno e menor número de operações aéreas, enquanto se dirige para sul. Isto deve-se ao facto de que o exército considera ter “desmantelado” o braço armado do Hamas no norte de Gaza, as brigadas al-Qassam.

Em declarações no sábado, o mesmo porta-voz estima em 8 mil as perdas de combatentes palestinianos. As autoridades de saúde do Hamas dizem que a guerra já fez mais de 23 mil mortos, a maioria mulheres e crianças, além de mais de 58 mil feridos. A outro jornal norte-americano, Wall Street Journal, o ministro da Defesa Yoav Gallant garantiu que há que “ter em consideração o elevado número de civis” concentrado no sul  do enclave.

Comandante morto
O Hezbollah disse que Wissam al-Tawil,um comandante da sua força de elite Radwan foi morto no sul do Líbano. Ao fazer o anúncio, o grupo xiita publicou fotografias de quem chamou “líder” junto do número um da organização patrocinada por Teerão, Hassan Nasrallah, mas também de Qassem Soleimani, o assassinado comandante iraniano cuja comemoração da morte foi na semana passada aproveitada para um atentado terrorista reivindicado pelo Estado Islâmico. 

No mesmo dia, as forças de Israel disseram ter “atingido numerosos alvos do Hezbollah no Líbano”, incluindo um complexo militar e um lançador de foguetes localizado em torno de Marwahin e Ayta ash Shab, duas áreas na fronteira. Em sentido contrário, informaram que “um míssil antitanque foi lançado do Líbano em direção à cidade de Kiryat Shmona”, no lado israelita da fronteira.

O sul do Líbano e o norte de Israel têm registado um aumento de atividade militar e de disparos nas últimas semanas num momento em que o atentado junto da tumba de Soleimani e o ataque de Israel que matou o vice-líder do Hamas na área de Beirute controlada pelo Hezbollah fazem aumentar os receios de as tensões possam descambar em guerra aberta.

Telavive repetiu os avisos de que estava preparado para intensificar as suas operações militares contra os militantes do Hezbollah no Líbano para conter a ameaça do outro lado da fronteira.

“A situação no norte do país é intolerável, com 80 mil israelitas deslocados das suas casas, casas que o Hezbollah bombardeia sem descanso”, declarou Eylon Levy, porta-voz do gabinete do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, durante uma conferência de imprensa. “Estamos agora numa encruzilhada: ou o Hezbollah recua, ou nós empurramo-lo para longe.” 

Pressionado pelas famílias dos reféns e pelos eleitores em geral, e sem ter conseguido concretizar a reforma judicial, Netanyahu poderá ser tentado na fuga para a frente libanesa por razões de “sobrevivência política”, disseram fontes da administração norte-americana ao Washington Post.

Não são apenas os norte-americanos preocupados com esse cenário. O Papa Francisco, num discurso dirigido aos diplomatas, apelou a um cessar-fogo “em todas as frentes, incluindo o Líbano”. Na semana passada, o presidente francês Emmanuel Macron disse ao ministro israelita Benny Gantz que “era essencial evitar qualquer atitude de escalada, particularmente no Líbano”, segundo o Eliseu.

Telavive anunciou também a morte de um dirigente do Hamas na Síria, em Beit Jinn, perto dos Montes Golã. Hassan Akasha era responsável pelo disparo de foguetes contra Israel a partir da Síria.


cesar.avo@dn.pt

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